
Autoridades da Ucrânia, Estônia e Reino Unido apuram se a animação infantil Masha e o Urso funciona como uma ferramenta de influência política do Kremlin. No Brasil, o alerta foi reforçado pela embaixada ucraniana nesta quinta-feira (27), em meio à estreia de um novo longa-metragem da franquia. Especialistas apontam que elementos visuais e narrativos podem normalizar o militarismo russo para crianças.
Quais são as principais evidências de propaganda apontadas pelos críticos?
Os críticos citam referências diretas ao universo militar e de repressão soviético. Um exemplo marcante ocorre no episódio em que Masha usa o quepe da Guarda de Fronteira para proteger sua horta. Esse chapéu é historicamente associado à NKVD, a antiga polícia secreta de Josef Stálin, que hoje faz parte da estrutura de inteligência russa (FSB) encarregada de monitorar opositores. Além disso, analistas internacionais destacam que a personagem frequentemente entoa canções de guerra da era soviética e exibe símbolos como a estrela vermelha, o que ajudaria a suavizar a imagem de um regime autoritário para o público pré-escolar.
Como os especialistas interpretam o comportamento dos personagens?
Existem teorias geopolíticas que comparam os traços de Masha à liderança de Vladimir Putin. A menina é descrita como impetuosa e corajosa, sempre enfrentando adversários maiores e saindo vitoriosa, o que refletiria a forma como a propaganda russa projeta seu presidente no cenário global. Outra análise enxerga no Urso a representação do Estado: uma figura paternal, forte e extremamente paciente que perdoa as falhas de Masha e mantém a ordem. Para acadêmicos, essa dinâmica busca criar no inconsciente das crianças ocidentais a imagem da Rússia como um protetor bondoso e inofensivo, o chamado 'soft power'.
Quais medidas práticas foram tomadas contra a produção?
A Ucrânia aplicou sanções severas contra os produtores da série e baniu a exibição do desenho em seu território. O presidente Volodymyr Zelensky oficializou a medida visando bloquear canais no YouTube e exigir a remoção do conteúdo de plataformas globais de streaming, como a Netflix. No Reino Unido, dezenas de parlamentares pediram ao governo que avaliasse a presença da animação nas redes de TV. Enquanto isso, a Animaccord, empresa responsável pelo desenho, nega qualquer vínculo estatal e afirma que a obra é puramente artística e baseada em contos folclóricos russos sobre uma menina perdida na floresta.
Qual é o posicionamento do governo brasileiro diante dessa controvérsia?
O Brasil tem adotado uma postura distinta da maioria das nações europeias. O governo Lula não aderiu às sanções econômicas contra a Rússia e mantém canais diplomáticos abertos com Moscou, defendendo uma solução negociada para o conflito na Ucrânia. Recentemente, autoridades brasileiras receberam representantes do alto escalão russo, como Nikolai Patrushev, para discutir cooperação em áreas de tecnologia e defesa. Brasília justifica essa proximidade como parte de uma política externa multipolar e independente, buscando preservar o diálogo com diferentes potências mundiais, mesmo diante das pressões internacionais.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.




