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A janela partidária, encerrada no último final de semana, consolidou um avanço das siglas de direita na Câmara dos Deputados e impôs perdas relevantes a partidos do Centrão e à base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com o maior saldo de filiações, o PL ampliou sua vantagem como maior bancada, enquanto legendas aliadas ao governo tiveram desempenho irregular no rearranjo político.
Embora tenha trabalhado com a expectativa de ultrapassar 100 deputados, o PL celebrou o desfecho com uma bancada de 97 integrantes. Partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e líder da oposição na Câmara, o PL registrou o maior saldo positivo de filiações, com a entrada de cerca de 20 deputados e sete saídas. Além de ampliar sua bancada, a sigla se consolidou como principal força da direita no Congresso.
Antes da janela, o partido tinha cerca de 87 deputados federais — número resultante da legislatura eleita em 2022 e de ajustes ao longo do mandato. Com as novas filiações, a bancada passou a contar com 97 deputados. O levantamento da Gazeta do Povo considerou informações oficiais no portal da Câmara, nas páginas de partidos políticos e dos próprios parlamentares que anunciaram as mudanças. O saldo oficial, porém, só deve ser confirmado nos próximos dias pela Mesa da Câmara.
“Cansado, mas missão cumprida. Queríamos muito que chegasse pelo menos a 100 [deputados], mas somos gratos a Deus pelos 97”, disse o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), ao ser questionado sobre os resultados da janela partidária.
Muitos deputados migram de partido em busca de mais recursos e mais estrutura partidária para disputar um novo mandato, o que pode facilitar a reeleição no cargo.
Lideranças ouvidas pela reportagem admitem que o cenário de consolidação da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (RJ) à Presidência da República favoreceu suas escolhas pelo PL.
O tamanho das bancadas na Câmara define tanto o valor que cada partido recebe do fundo partidário quanto o tempo de propaganda eleitoral gratuita. No ano passado, as legendas dividiram cerca de R$ 1 bilhão. Para as eleições deste ano, porém, o cálculo considera o resultado da eleição anterior — ou seja, a composição da Câmara eleita em 2022.
Para o cientista político Elias Tavares, o crescimento do PL combina fatores conjunturais e estruturais. “O Partido Liberal cresce porque hoje reúne três ativos decisivos: recurso, visibilidade e um campo político organizado. Isso está diretamente ligado ao ciclo eleitoral de 2026”, afirma.
Segundo ele, o avanço da sigla também melhora o ambiente para uma candidatura presidencial. “Ninguém viabiliza candidatura presidencial sem partido forte. O crescimento do PL cria exatamente esse ambiente”, afirma Tavares.
Ele pondera, no entanto, que o cenário ainda está aberto. “Fortalece o ponto de partida, mas não garante o ponto de chegada”, diz, ao comentar sobre a futura candidatura do senador Flávio Bolsonaro ao Planalto.
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Crescimento do PL veio após desidratação de partidos do Centrão
O avanço do PL durante a janela partidária ocorreu, em grande medida, à custa de partidos do Centrão, que perderam quadros para a legenda. O movimento mais expressivo veio do União Brasil, que viu nove de seus deputados migrarem diretamente para o PL.
Ao todo, a sigla do Centrão terminou com o maior número de baixas no total: recebeu 11 deputados, mas viu 25 saírem, com saldo negativo de 14. Entre as migrações, estão as dos deputados Dani Cunha (RJ), Coronel Assis (MT), Rosângela Moro (SP) e Rodrigo Valadares (SE), todos do União para o PL.
O principal ponto da insatisfação entre os dissidentes do União Brasil diz respeito à federação com o Progressistas (PP) — a União Progressista —, aprovada recentemente pela Justiça Eleitoral. A avaliação entre os parlamentares é de que a medida pode dificultar a eleição, com maior competição entre os candidatos a deputado.
Além disso, há também uma insatisfação com o presidente do União, Antônio Rueda, em relação à condução dele da sigla, segundo deputados federais que deixaram a legenda.
Além do PL, o União Brasil também viu cinco deputados migrarem para o Podemos e outros cinco para o Republicanos.
Já o PP perdeu três deputados e terminou a janela partidária com uma bancada de 49 membros no total.
Dentro da federação União Progressista, aliados de Rueda e do senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, admitem que houve um incômodo com o avanço do PL sobre os seus parlamentares. Um dos casos citados é o do deputado Alfredo Gaspar, escolhido para integrar a CPMI do INSS na vaga destinada ao União Brasil.
Gaspar ganhou projeção na CPMI e migrou para o PL, e a situação ganhou contornos ainda mais sensíveis no cenário regional. Com a ida para o partido de Bolsonaro, Gaspar pode se tornar um adversário da federação União-PP em Alagoas, caso decida disputar o Senado — movimento que poderia impactar diretamente os planos do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).
Apesar das perdas registradas na janela partidária, o União Brasil mantém uma projeção otimista para as eleições, com expectativa de eleger entre 60 e 70 deputados federais.
Para André César, cientista político da Hold Assessoria Legislativa, o jogo eleitoral entra em nova etapa. "A partir de agora e até as convenções, entre junho e julho, os atores políticos terão como principal meta selar alianças e coligações. A rigor, algumas das mudanças já eram esperadas e não surpreenderam os observadores da cena política. Importantes figuras do mundo político já sinalizavam alterações de rota nos respectivos espectros ideológicos", explica.
Já Elias Tavares avalia que o movimento não representa um colapso do Centrão, mas uma adaptação. “Diante de um cenário mais polarizado, parte desses parlamentares busca abrigo em partidos maiores. O Centrão continua relevante, mas está se reorganizando para sobreviver dentro de uma lógica mais polarizada”, completa.
Base governista tem desempenho limitado na janela
No campo governista, a janela partidária resultou mais em preservação de posições do que em avanço. A federação formada por PT, PCdoB e PV deve somar 81 deputados, mantendo um bloco relevante na Câmara, mas sem ampliar sua presença no rearranjo político.
O PT, partido do presidente Lula, teve uma movimentação pontual: perdeu a deputada Luizianne Lins (CE), que se filiou à Rede, e incorporou o deputado Paulo Lemos (AP), vindo do PSOL. Com isso, a bancada petista permanece estável, com 67 parlamentares — número que garante protagonismo, mas não indica crescimento.
"Conseguimos manter todos os nossos deputados, o que já demonstra coesão e confiança no projeto, mas também atrair quadros qualificados, com densidade política e compromisso com o Brasil. Estamos fortalecidos e preparados para ampliar ainda mais nossa atuação no Congresso”, comentou o deputado Aliel Machado (PR), líder da bancada do PV na Câmara.
Entre os aliados, o PSB foi a exceção positiva. Presidido pelo ex-prefeito do Recife João Campos, pré-candidato ao governo de Pernambuco, o partido teve saldo de quatro deputados e chegou a 20 cadeiras, recuperando parte do espaço perdido nas eleições de 2022.
O crescimento, no entanto, ocorreu principalmente pela absorção de quadros de outras siglas do mesmo campo político, sem representar uma expansão efetiva da base governista.
Esse movimento fica mais evidente no caso do PDT, que sofreu uma das maiores perdas proporcionais da janela. A legenda perdeu oito deputados e recebeu apenas um, reduzindo sua bancada de 16 para 9 parlamentares.
Reservadamente, líderes do governo admitem que a janela consolida a antecipação da disputa eleitoral de 2026, e o resultado sugere maior dificuldade para o Palácio do Planalto expandir sua base.
A avaliação entre os governistas é de que o Executivo vai depender ainda mais do apoio dentro dos partidos do Centrão para eventuais votações mais sensíveis nos próximos meses.
Na avaliação do cientista político Elias Tavares, o desempenho da base aliada ao governo acende um sinal de alerta, mas não configura, por si só, perda de força.
“O PT manteve sua base, o que mostra coesão. Isso é positivo [para a legenda]. Mas o fato de não expandir, enquanto a oposição cresce, indica dificuldade de atração política neste momento”, acrescenta.










