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Lockdown contra a Covid-19
Ruas vazias durante lockdown em Araraquara (SP). Medida reduziu internações por Covid-19 em 43%.| Foto: Prefeitura de Araraquara/Divulgação

O lockdown e outras ações para restringir a circulação de pessoas têm se mostrado eficazes na redução do número de infecções, internamentos e no desafogamento do sistema de saúde dos locais onde foram implantadas no Brasil. É o que mostram os dados mais recentes de internamentos da cidade de Araraquara (SP) e no estado do Amazonas – onde a nova onda do coronavírus chegou antes do resto do país e os governantes implantaram o fechamento total ou parcial das atividades. Semanas depois da adoção das medidas restritivas, houve redução drástica nos números da pandemia.

Além disso, a adoção do lockdown como forma de frear a disseminação do coronavírus ganhou um aliado de peso. O último boletim extraordinário do observatório da Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado na terça-feira (24), recomenda que 25 estados que estão em situação crítica de ocupação de leitos de UTI restrinjam o funcionamento de atividades não essenciais por 14 dias.

Num boletim anterior, a Fiocurz já destacava a que essa é uma estratégia a ser considerada em situações mais críticas, como a qual o Brasil vive atualmente, com recorde diário no número de mortes pelo coronavírus e o colapso no sistema de saúde na maior parte dos estados.

“Neste contexto de crise e catástrofe, a necessidade de adoção rigorosa de ações de prevenção e controle continua se impondo, em um cenário em que o descontrole da pandemia parece se alastrar”, diz documento da Fiocruz – que é responsável pela produção no Brasil da vacina de Oxford/AstraZeneca.

Araraquara reduz internações em 43% com lockdown

Em Araraquara, município de pouco mais de 240 mil habitantes do interior de São Paulo, o sistema público e privado de saúde local enfrentou um colapso na primeira quinzena de fevereiro, quando o número de casos da Covid-19 subiu de maneira acelerada e fez com que as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) da cidade chegassem ao limite máximo. Em um intervalo de apenas cinco dias, entre 1.º e 6 de fevereiro, a taxa de ocupação nos leitos de UTI passou de 56% para 84%, chegando a 100% no dia 15 de fevereiro.

Diante da situação dramática, mesmo sob resistência pesada de empresários locais e parte da população, a prefeitura resolveu impor um lockdown rigoroso de dez dias, que passou a vigorar no dia 21 de fevereiro, fechando inclusive supermercados, postos de combustíveis e suspendendo o transporte público. A fiscalização também atuou de maneira efetiva nas ruas da cidade para coibir a circulação dos moradores. Apenas farmácias e unidades de saúde de urgência permaneceram abertas.

Segundo dados da Fiocruz, a medida deu resultado e reduziu o número de casos da Covid-19 do município e a média móvel diária, desde o início de março. O boletim aponta que entre 21 de fevereiro e 10 de março, um período de 17 dias, a média móvel diária de novos casos de Covid-19 na cidade caiu de 189,57 para 108, uma redução de 43,02%.

“O município de Araraquara é um dos exemplos atuais de como medidas de restrição de atividades não essenciais podem não só evitar o colapso ou mesmo prolongamento desta situação nos serviços e sistemas de saúde, resultando na redução da transmissão, casos e óbitos, protegendo a vida e saúde da população”, diz o documento.

Em transmissão nas redes sociais da própria prefeitura de Araraquara, o professor Paulo Inácio da Costa, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e também responsável pelo Laboratório da Rede Unesp de Diagnóstico para Covid-19 no município avaliou a importância da medida adotada na cidade.

“A gente vinha com aumento expressivo de casos positivos da Covid-19. Isso se agravou no final de janeiro para o começo de fevereiro, o que culminou com o decreto [de lockdown]. Vínhamos com 45% a 50% de amostras positivas no município e, a partir de março, houve redução para 30%, 20%. Uma atitude restritiva, que tem as suas consequências, mas a consequência maior foi a preservação da vida, da saúde das pessoas, e a diminuição de internações e de casos graves”, disse.

Restrições aliviam o caos no Amazonas

O Amazonas também enfrentou o pico da pandemia no começo de janeiro, quando as UTIs de Manaus e de outros municípios do estado ficaram lotadas. Pacientes tiveram que ser transferidos de avião para outras cidades do Brasil e doentes pela Covid-19 morreram asfixiados nos leitos dos hospitais por falta de oxigênio.

Para reverter a situação, o governo do Amazonas implantou medidas duras de restrição em todo o estado no dia 25 de janeiro, proibindo o funcionamento do atividades não essenciais e limitando a circulação de pessoas durante sete dias. Era permitida apenas a saída de pessoas de casa para aquisição de produtos essenciais e limitada a uma pessoa por família. Durante o período, os serviços de delivery só foram liberados entre 6h e 22h para serviços essenciais, como alimentos.

Após uma semana, a taxa de transmissão da Covid-19 no Amazonas, que chegou a 1,3, caiu para 0,87. Quando a taxa de transmissão é maior que 1, a circulação do vírus está em alta. Quando é menor, a transmissão está em queda

Grupo de especialistas recomenda ações enérgicas imediatas

O Observatório Covid-19, núcleo de informação sobre a doença que reúne pesquisadores e especialistas de todo o Brasil para a disseminação de análises cientificamente embasadas sobre a pandemia, aponta para a necessidade imediata de ações enérgicas em razão das novas variantes virais que circulam pelo país, tornando o contágio muito mais acelerado e as infecções mais agressivas. A primeira medida a ser tomada, segundo os estudos do grupo, é a adoção de um lockdown estrito, com fechamento de estabelecimentos não essenciais e limites à circulação das pessoas, com o objetivo de evitar novos contágios. O lockdown estrito compreende a abertura somente daqueles serviços realmente essenciais, como mercados, farmácias e locais de atenção à saúde.

“Sabemos o custo imediato disso, mas não há outra maneira de se evitar o colapso hospitalar generalizado, que gera desespero e mortes, além de efeitos devastadores para a economia. A duração deste lockdown deve ser melhor estudada em cada região, mas deverá durar, no mínimo, 14 dias. Já a urgência de instituí-lo é imediata”, diz o núcleo de estudo. "Somente poderemos abandonar esta medida restritiva quando os índices de casos e mortes atingirem patamares muito mais baixos que os atuais.”

Prefeitos fazem apelo por lockdown

Tendo como exemplo a experiência bem sucedida de Araraquara, prefeitos de 39 municípios da grande ABC, em São Paulo, enviaram no último dia 18 um ofício ao governador João Doria (PSDB) pedindo que seja decretado um lockdown em toda a Região Metropolitana da capital paulista. A medida foi acertada durante assembleia extraordinária realizada pelo Consórcio Intermunicipal Grande ABC, que reúne os prefeitos locais.

No documento, os prefeitos propõem que o governo decrete o bloqueio total na Grande São Paulo, inclusive com a interrupção total do serviço de transporte público estadual. Eles alegam que devido ao fluxo diário de pessoas entre a capital, o grande ABC e outras cidades vizinhas, um lockdown em apenas algumas cidades teria impacto limitado para conter a disseminação do novo coronavírus.

“As medidas isoladas na Região Metropolitana não surtiriam o efeito de brecar a pandemia da forma correta, pois todos os municípios têm uma relação muito próxima com a capital”, afirmou no comunicado o presidente do Consórcio ABC e prefeito de Santo André, Paulo Serra.

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