
Ouça este conteúdo
Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificaram nas últimas semanas críticas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente. Eles associam o futuro plano de governo de seu maior rival nas eleições ao congelamento de benefícios previdenciários, arrocho fiscal e retirada de direitos sociais.
Influenciadores, sindicalistas e parlamentares governistas compartilharam em redes sociais e plataformas digitais rumores de debates internos da pré-campanha de Flávio sobre cortes de gastos, revisão de vinculações constitucionais e contenção de reajustes do salário mínimo, visando gerar o medo de agendas austeras.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) foi um dos principais divulgadores do “terrorismo fiscal” contra Flávio. Em vídeos publicados nas plataformas online, ele acusou o presidenciável de pretender “governar para banqueiros” e sustentou que o suposto ajuste fiscal mira o salário mínimo e as aposentadorias.
Narrativa da esquerda investe em “terrorismo fiscal” e “corte de direitos”
Sites simpáticos ao governo e ao sindicalismo reforçaram a narrativa. Alguns portais de notícias passaram a relacionar Flávio ao receituário econômico liderado no governo passado pelo ex-ministro da economia Paulo Guedes. Eles resgataram críticas a privatizações, austeridade fiscal e redução do Estado.
O senador reagiu e negou qualquer plano de congelamento de benefícios ou fim de programas sociais. Em vídeos postados no Instagram e no X, ele classificou as críticas como “fake news” e acusou o PT de espalhar “terrorismo eleitoral” para assustar aposentados e pessoas de baixa renda.
Ao mesmo tempo, o pré-candidato da direita busca construir uma imagem de equilíbrio entre responsabilidade fiscal e preservação de programas sociais. Em entrevistas, defendeu corte de desperdícios e mordomias, revisão de despesas públicas e estímulo ao empreendedorismo, preservando direitos.
A reportagem apurou que a estratégia do PL é não divulgar planos de governo no momento e focar nas críticas às políticas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo é não fornecer dados que podem ser usados em ataques dos governistas.
Juros altos e dívida recorde ampliam debate sobre ajuste das contas públicas
O pano de fundo dessa guerra de narrativas é a deterioração das contas públicas. A dívida federal ronda os R$ 10 trilhões, os gastos anuais com juros se aproximam de R$ 1 trilhão e o rombo previdenciário segue crescendo. O reflexo mais claro disso está no segundo maior juro básico real do planeta.
No lançamento de sua candidatura, Flávio anunciou o desejo de promover um “tesouraço” na forma de corte de gastos e de impostos, privatizações e reforma administrativa. Entre propostas citadas está a venda dos Correios, a revisão da reforma tributária e o incentivo a investimentos privados.
O senador também buscou acalmar o mercado financeiro após resistências iniciais à sua candidatura. Nas últimas semanas, prosseguiu realizando reuniões com investidores e reforçando a promessa de montar uma equipe econômica alinhada à escola de Paulo Guedes, baseada em eficiência e responsabilidade fiscal.
Analistas veem desejo de fazer debate econômico virar briga ideológica
O cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec-BH, lembra que propostas de ajuste fiscal são naturalmente associadas a candidatos conservadores, enquanto a esquerda sente-se à vontade em discursar sobre política social. “Mas a gestão Bolsonaro, mesmo austera, ampliou o Bolsa Família”, diz.
Já Leandro Gabiati, diretor da consultoria Dominium, avalia que a estratégia petista contra Flávio procura reeditar o discurso clássico de confronto entre ricos e pobres. Segundo ele, a esquerda tenta construir um duelo entre a direita e o governo, supostamente comprometido com pautas populares.
As discussões nas redes sociais mostram a disputa presidencial de 2026 já iniciada e entrando no terreno simbólico. Enquanto o PT tenta associar a direita a cortes de direitos e ameaça aos pobres, o entorno de Flávio busca vincular Lula ao caos fiscal, inflação e juros altos e máquina estatal pesada.








