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Reação no Congresso

Oposição confronta Lula por críticas à captura de Maduro e apoio ao regime venezuelano

Captura de Maduro deve pressionar governo Lula, segundo analistas. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas provocou reação imediata da oposição no Congresso Nacional e reacendeu críticas à política externa do governo Lula, acusado por parlamentares de ter sustentado, política e diplomaticamente, um regime autoritário até o seu colapso. Para líderes oposicionistas, o episódio expõe uma contradição entre o discurso democrático do Palácio do Planalto e o apoio reiterado a Caracas ao longo dos últimos anos.

Em nota oficial, a Liderança da Oposição na Câmara, chefiada pelo deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), classificou a queda de Maduro como o fim de “um dos períodos mais sombrios da história recente da América Latina” e rejeitou narrativas que tentem relativizar o caráter autoritário do regime venezuelano.

O texto afirma que Maduro “nunca foi um líder democrático” e o responsabiliza por repressão sistemática, silenciamento da imprensa, prisões arbitrárias e um êxodo forçado de milhões de venezuelanos. “A soberania de um país reside em seu povo e não pode ser usada como escudo para proteger criminosos que sequestram o Estado para se perpetuar no poder”, diz a nota, que também critica setores da esquerda brasileira por lamentarem a queda de um “aliado histórico”.

Para analistas, o episódio tende a aprofundar o confronto político interno e impor uma revisão forçada da política externa brasileira. Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente do Instituto Monitor da Democracia, avalia que a captura de Maduro representa o colapso de uma estratégia diplomática que apostou na sobrevivência de um regime “insustentável”.

“A tentativa de Brasília de se colocar como mediadora isenta se dissolveu no momento em que Maduro foi colocado sob custódia internacional. Não há como mediar uma transição com um governo que evaporou institucionalmente”, afirma. Segundo Coimbra, o Itamaraty agora se vê entre condenar a intervenção americana ou aceitar a irrelevância prática de ficar fora do processo de reconstrução da Venezuela.

‘É inevitável porque a base material que sustentava a política de Lula para a região — a resiliência do chavismo — deixou de existir, expondo o vácuo moral de ter priorizado a sobrevivência de um autocrata em detrimento da estabilidade hemisférica”, complementa.

Ele alerta ainda para o risco de isolamento diplomático do Brasil, à medida que uma nova correlação de forças se consolida na América Latina. “A neutralidade brasileira passou a ser lida como conivência. Se o Brasil não liderar a reconstrução institucional da região, será um espectador marginal, sem influência sobre temas estratégicos como migração e integração energética”, diz.

Coimbra também reforça que esse cenário projeta “sombras significativas sobre o ciclo eleitoral brasileiro de 2026”. Para ele, “a política externa deixará de ser um tema de nicho para se tornar uma vitrine de falhas estratégicas”.

O deputado Luiz Ovando (PP-MS) vinculou diretamente o governo brasileiro à sustentação do regime. Segundo ele, “durante anos, com apoio de Lula, a Venezuela foi submetida à destruição deliberada de suas instituições”. Ovando ponderou, no entanto, que a responsabilização de crimes deve respeitar o devido processo legal e alertou que a queda de um líder, por si só, não garante a libertação de um povo. “Sem reconstrução institucional, eleições livres e reconciliação nacional, não há democracia possível”, afirmou.

Na mesma linha, o deputado Zucco (PL-RS) classificou a captura como um “momento histórico” e o encerramento de um ciclo de opressão. Para ele, a operação abre uma janela para a reconstrução do Estado de Direito na Venezuela e para a retomada das liberdades civis. “A democracia foi substituída pela força durante décadas. Agora há uma chance real de renascimento”, declarou.

No Senado, o líder do Republicanos, Mecias de Jesus (RR), destacou os reflexos diretos da crise venezuelana sobre o Brasil, especialmente em Roraima. O senador cobrou do governo federal reforço imediato na segurança e na estrutura de acolhimento em Pacaraima e afirmou que o estado de Roraima “pagou o preço” da instabilidade regional. “Enquanto Lula foi conivente, Roraima sofreu com a pressão migratória. A captura de Maduro enfrenta uma ditadura que exportou caos”, disse.

A deputada Caroline de Toni (PL-SC) ampliou o discurso ao traçar paralelos institucionais entre Venezuela e Brasil. Segundo ela, a ditadura venezuelana foi resultado de um processo gradual, marcado por concentração de poder, esvaziamento do Legislativo, perseguição de opositores, censura à imprensa e eleições sem transparência. “O alerta não pode parar na fronteira. O Brasil precisa olhar para si”, afirmou. Para a parlamentar, críticas semelhantes feitas no passado foram tratadas como desinformação, mas hoje “os fatos falam por si”.

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Família Bolsonaro associa queda de Maduro a alerta para o Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como pré-candidato a presidente, afirmou que o Brasil não pode “repetir o roteiro da Venezuela” e associou o colapso do país vizinho a projetos de poder sustentados pelo discurso socialista.

Segundo o senador, o regime venezuelano prometeu justiça social, mas entregou fome, miséria, censura e perseguição política. “O socialismo não erra: ele sempre chega com discurso bonito e termina com o povo sem liberdade”, escreveu. Para ele, o cenário venezuelano deixa claro o que está em jogo no Brasil. “Não é sobre ideologia. É sobre liberdade, democracia e viver com dignidade.”

Na publicação, o senador também afirmou que o país não pode aceitar um projeto político que fragilize instituições, ataque a imprensa e flerte com regimes autoritários. “O Brasil é maior que isso. E nós não vamos permitir que sigamos o mesmo caminho”, declarou.

Em nota pública, o PL Mulher, presidido pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, manifestou solidariedade ao povo venezuelano e classificou a operação norte-americana como o “início do fim” de um regime que descreve como narcoterrorista. O texto afirma que a ação ocorreu “apesar da cumplicidade de alguns governantes de países vizinhos” e destaca o impacto da ditadura sobre mulheres, crianças, pessoas com deficiência e refugiados que buscaram abrigo no Brasil.

A nota menciona relatos de abusos e violências sofridos por mulheres venezuelanas durante a fuga do país e associa a estrutura de poder do regime a organizações criminosas ligadas ao narcotráfico. O documento também alerta para práticas que, segundo o PL Mulher, estariam sendo replicadas em outros países da região, como cerceamento de liberdades, perseguição à oposição e cooptação institucional.

Ao final, Michelle Bolsonaro afirma que a operação americana serve como um aviso a líderes que tentam “disfarçar práticas ditatoriais sob o rótulo de democracia” e defende uma transição pacífica de poder conduzida pelo povo venezuelano.

Captura de Maduro deve pressionar governo Lula e municiar oposição

O cientista político Gustavo Alves, especialista em conflitos internacionais, avalia que a captura de Nicolás Maduro deve intensificar o embate entre a oposição e o governo Lula, transformando a crise venezuelana em um tema central do debate político interno.

Segundo o especialista, o episódio expõe contradições da diplomacia brasileira, que manteve o reconhecimento institucional de Caracas, apesar das denúncias de violações de direitos humanos. "Para a oposição, esse histórico fragiliza o discurso do Planalto e abre espaço para questionar alinhamentos ideológicos na política externa", pontua Alves.

Entre os desafios para o Planalto, ele cita:

  • Pressão por novos posicionamentos: O governo deve ser cobrado a ir além dos princípios de "não intervenção".
  • Recalibragem de discurso: Lula precisará equilibrar a defesa do direito internacional com um distanciamento simbólico de um regime agora em colapso.
  • Impacto regional: O fim do comando político na Venezuela coloca o sofrimento da população e a crise migratória em evidência direta.

Para Alves, o cenário exige que o Brasil recalibre sua narrativa para evitar que o desgaste internacional do regime venezuelano contamine a imagem do governo brasileiro.

Lula condena ação dos EUA e invoca soberania venezuelana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) condenou a operação conduzida pelos Estados Unidos em território venezuelano, que resultou na captura de Nicolás Maduro. Em nota divulgada nas redes sociais neste sábado (3), o governo brasileiro classificou a ação como uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela” e afirmou que o episódio representa um precedente perigoso para a comunidade internacional.

Segundo o texto, ataques a países, em violação ao direito internacional, levariam a um cenário de “violência, caos e instabilidade”, no qual “a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”. Ele também afirmou ainda que a posição do Brasil é coerente com a condenação ao uso da força adotada em outros conflitos recentes.

A nota também associa a operação aos “piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe” e defende uma resposta da comunidade internacional por meio da Organização das Nações Unidas. “O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”, conclui o comunicado.

O posicionamento do Planalto contrasta com o de países como a Argentina, que apoiou a ação norte-americana, e se alinha a nações como Colômbia, México, Rússia, China e Cuba, que também condenaram a operação.

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