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O novo embate diplomático entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Argentina, Javier Milei, reacendeu as críticas à condução da política externa brasileira. Um dia após chamar Lula de "presidiário" e "ladrão" durante a convenção nacional do PL, em São Paulo, Milei voltou a acusar o governo brasileiro de interferir nas eleições argentinas de 2023 e criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes por impedir sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília. O chanceler Mauro Vieira também chamou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir a "repulsa" do governo brasileiro às declarações de Milei. O episódio amplia uma sequência de tensões diplomáticas envolvendo o governo Lula desde o início do mandato.
Na avaliação dos analistas internacionais ouvidos pela reportagem, a política externa do terceiro governo Lula acumulou erros estratégicos que desgastaram a imagem internacional do país. Eles apontam cinco fatores principais:
- a predominância da ideologia sobre o pragmatismo;
- o desgaste com parceiros estratégicos;
- a aproximação com regimes autoritários;
- a perda de protagonismo internacional; e
- a condução personalista da diplomacia brasileira.
O Ministério das Relações Exteriores, por sua vez, rejeita essas críticas. Em nota enviada à Gazeta do Povo, o Itamaraty afirma que a política externa brasileira tem sido guiada pelo interesse nacional, enumerando as participações do Brasil em reuniões bilaterais e presença em blocos regionais. (Leia, ao final desta reportagem, os dados apresentados pelo ministério.)
Apesar do contraponto do governo, os especialistas mantêm a avaliação de que a diplomacia brasileira perdeu capacidade de interlocução com parceiros tradicionais e passou a enfrentar sucessivas crises internacionais.
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1. Ideologia acima do pragmatismo
O primeiro ponto citado pelos especialistas é o predomínio de posicionamentos ideológicos sobre interesses diplomáticos e econômicos do Estado brasileiro.
Para o analista internacional Cezar Roedel, doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, a política externa abandonou o pragmatismo tradicional da diplomacia brasileira ao privilegiar afinidades políticas com determinados governos.
"O principal erro foi deixar a ideologia se sobrepor ao pragmatismo que deveria guiar qualquer política externa séria. O governo insistiu em pautar sua atuação internacional por afinidades ideológicas com regimes autoritários", afirma.
Na mesma linha, Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente do Instituto Monitor da Democracia, avalia que o governo retomou uma visão baseada no chamado "terceiro-mundismo", priorizando discursos políticos em detrimento da estratégia diplomática.
"Os principais erros estratégicos decorrem de um anacronismo ideológico que subordina o pragmatismo de Estado aos velhos dogmas do terceiro-mundismo antiocidental", diz.
2. Desgaste com parceiros estratégicos
Outro ponto destacado é o acúmulo de crises diplomáticas com países considerados fundamentais para os interesses brasileiros.
Roedel cita como exemplos o desgaste com Israel após declarações de Lula sobre a guerra em Gaza, os atritos recentes com os Estados Unidos e a deterioração das relações com a Argentina.
Segundo ele, os episódios provocaram ruídos diplomáticos sem ganhos concretos para o Brasil.
"Esses episódios tiveram efeito prático, seja no adiamento de negociações comerciais, seja na percepção de instabilidade que afasta capital estrangeiro."
Para Coimbra, as crises revelam uma combinação entre reposicionamento político e falhas na execução diplomática.
Segundo ele, o governo rompeu pontes importantes com parceiros históricos enquanto fortalecia relações com governos alinhados ideologicamente.
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3. Aproximação com regimes autoritários
Os dois analistas também criticam a aproximação do governo brasileiro com países como Venezuela, Nicarágua e Rússia. Recentemente, a relação com a Nicarágua voltou ao centro do debate após o presidente do país, Daniel Ortega, anunciar que não haverá mais eleições no país.
A demora de quatro dias para o posicionamento oficial do governo brasileiro foi alvo de críticas da oposição e de analistas, que apontaram uma reação considerada branda diante de um anúncio que representa uma ruptura democrática.
Após a repercussão, o Itamaraty divulgou nota manifestando "preocupação" com a declaração de Ortega e reafirmou que "a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia", conclamando o regime nicaraguense a garantir o direito da população de escolher seus governantes.
O governo da Nicarágua reagiu afirmando que o tema diz respeito à sua soberania nacional e defendeu seus processos eleitorais.
Na avaliação de Roedel, esse alinhamento com países ditatoriais reduziu a previsibilidade do Brasil diante de investidores e parceiros comerciais, além de mostrar uma "falha na condução". "Existe sim uma estratégia deliberada de reposicionar o Brasil como liderança do chamado Sul Global, o que explica a aproximação com a Venezuela e a resistência em criticar abertamente regimes autoritários".
Já Coimbra afirma que a postura adotada pelo governo Lula contribuiu para o Brasil perder capacidade de interlocução e relevância no cenário internacional.
"A atual política externa passou a privilegiar afinidades ideológicas, aproximando-se de regimes autoritários e criando desgastes com parceiros históricos do Brasil. Em vez de ampliar a inserção internacional do país, essa estratégia reduziu sua credibilidade e protagonismo", declarou.
4. Perda de protagonismo internacional
Na visão dos especialistas, outro resultado da atual política externa foi a redução da influência brasileira em temas internacionais.
Roedel afirma que crises evitáveis consumiram capital diplomático sem produzir ganhos geopolíticos relevantes.
Coimbra vai além e aponta que o Brasil perdeu espaço como mediador regional, citando especialmente a crise política na Venezuela e o impasse nas negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia.
Segundo ele, a percepção internacional sobre o país também foi afetada pela insegurança gerada em relação ao ambiente político e econômico.
5. Condução personalista da política externa
Por fim, ambos atribuem parte dos desgastes à forma como a política externa vem sendo conduzida pelo Palácio do Planalto.
Roedel avalia que existe uma estratégia deliberada de reposicionar o Brasil internacionalmente, mas afirma que ela foi executada sem o cuidado diplomático necessário.
"Essa estratégia foi executada sem o devido cuidado diplomático", resume.
Coimbra considera que a política externa passou a refletir mais as posições pessoais e ideológicas do presidente do que a tradição institucional do Itamaraty.
Segundo ele, essa condução contribuiu para ampliar os atritos diplomáticos e provocar reações dentro do próprio Congresso Nacional.
Congresso amplia fiscalização
O aumento das tensões internacionais também levou o Legislativo a ampliar a fiscalização sobre a atuação do Itamaraty.
Para Roedel, as convocações de ministros e as moções de repúdio apresentadas pela oposição têm efeito jurídico limitado, mas aumentam o custo político das decisões do Executivo.
"O debate sobre política externa deixou de ser um assunto restrito a especialistas e passou a ter peso eleitoral real", afirma.
Já Coimbra entende que a atuação do Congresso representa um importante mecanismo de contenção institucional e sinaliza ao exterior que determinadas posições do governo não refletem necessariamente um consenso dentro do Estado brasileiro.
Itamaraty afirma que Brasil ampliou presença internacional
O Ministério das Relações Exteriores sustenta que, durante o atual mandato de Lula, o Brasil ampliou sua presença internacional.
Segundo a pasta, o ministro Mauro Vieira realizou 645 reuniões de alto nível com representantes de 120 países desde o início da atual gestão, enquanto Lula participou de 205 encontros bilaterais com chefes de Estado e de governo de 76 países, além de comparecer às quatro últimas reuniões do G7 como convidado e participar de cúpulas da ASEAN, União Africana e Caricom.
O ministério também destaca como resultados da atual política externa a conclusão dos acordos de livre comércio entre Mercosul e Singapura, União Europeia e Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), além da presidência brasileira do G20, do BRICS e da COP30.
"O protagonismo da diplomacia presidencial, focada no interesse nacional, foi decisivo em todos esses avanços, amparado no prestígio internacional do Presidente Lula e na atuação do Ministério das Relações Exteriores e dos demais órgãos de governo envolvidos com a agenda externa do País", diz o Itamaraty.
A pasta também rebate as críticas de alinhamento automático com governos como Rússia, Venezuela e Nicarágua. Segundo a nota enviada à reportagem, o Brasil foi o único integrante original do BRICS a condenar a invasão russa da Ucrânia em 2023, criticou violações de direitos humanos na Nicarágua, defendeu transparência nas eleições venezuelanas e chegou a representar os interesses diplomáticos da Argentina em Caracas a pedido do próprio governo Milei.











