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Parlamentares da oposição que participaram da Caminhada pela Liberdade só receberam a informação de que um raio havia atingido 72 pessoas que esperavam pela chegada da marcha na Praça do Cruzeiro, em Brasília, no domingo (25), quando o ato se encaminhava para sua parte final.
Políticos de esquerda, como os deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Erika Hilton (PSOL-SP), acusaram o idealizador da manifestação, deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), e seus aliados por supostamente terem sido irresponsáveis por não cancelar o protesto por causa da chuva. Nikolas foi criticado inicialmente por não mencionar o raio em seu discurso, mas ao ficar sabendo do acidente foi ao hospital para tentar saber mais sobre as vítimas.
A reportagem da Gazeta do Povo acompanhava a concentração de pessoas na Praça do Cruzeiro na manhã de domingo à espera da chegada da marcha, que percorreu 240 quilômetros, de Paracatu (MG) a Brasília, para protestar sobre os abusos do STF sobre os presos de 8 de janeiro.
A reportagem chegou ao local da concentração por volta das 11h50, onde crianças, jovens, adultos e idosos acompanhavam a concentração do ato, que ocorria sob chuva variando entre moderada e forte. Naquele momento, os políticos que participaram da marcha ainda caminhavam por ruas de Brasília em direção ao local marcado para a manifestação que marcaria a recepção do grupo.
A descarga elétrica ocorreu por volta das 12h30, antes de os parlamentares chegarem. Houve um clarão intenso em um ponto próximo da praça e em seguida um estrondo forte foi ouvido. Pessoas por todos os lados caíram ao solo, especialmente as que estavam mais próximas das grades de contenção montadas para o evento.
Logo após a descarga elétrica, quem estava perto das pessoas atingidas passou a gritar por socorro, pedindo ajuda aos brigadistas e outros manifestantes para retirar as vítimas do meio da aglomeração. Num primeiro momento, as vítimas foram carregadas no colo por familiares e socorristas.
As pessoas que foram sendo socorridas eram levadas até uma ambulância que já estava no evento. Outro ponto de concentração das vítimas foi improvisado em um caminhão que ficava próximo ao trio elétrico até a chegada do Corpo de Bombeiros.
Ao microfone, integrantes da organização também pediram que as pessoas se afastassem das grades e procurassem abrigo seguro, longe de árvores.
O Corpo de Bombeiros chegou ao local por volta das 12h50. Algumas das pessoas atingidas demonstravam desorientação e se queixavam de dor e formigamento nas extremidades do corpo.
Público se afastou das grades, mas retornou à área cercada com o fim dos atendimentos às vítimas
Enquanto o atendimento dos bombeiros ocorria, muitas pessoas se afastaram das grades, mas permaneceram em locais próximos da praça. Já por volta das 13h15, as pessoas começaram a retornar para a concentração apesar da chuva que seguia caindo.
Os bombeiros então passaram a orientar que as pessoas permanecessem afastadas das grades, buscando uma distância segura, o que não impediu que o local fosse novamente tomado pela multidão.
Com o retorno das pessoas para perto do cercado e o fim dos atendimentos no local, um aspecto de normalidade tomou conta do ato.
Parlamentares chegaram à praça após caminhada sem saber do raio
Os políticos que acompanhavam a caminhada começaram a chegar à Praça do Cruzeiro após as 13h45, depois da queda do raio. A reportagem da Gazeta do Povo conversou pessoalmente com ao menos três parlamentares, os deputados Filipe Barros (PL-PR), Cabo Gilberto (PL-PB) e Marcel van Hattem (Novo-RS) assim que eles chegaram da caminhada. Visivelmente cansados, nenhum havia sido informado do ocorrido. Todos perguntaram sobre o estado de saúde das vítimas, mas, até aquele momento, as informações eram extraoficiais e davam conta de que 30 pessoas teriam recebido atendimento, sendo que 13 teriam sido encaminhadas para hospitais.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou ao local da concentração por volta das 14h30 e subiu direto para o trio, de onde discursou. A fala de Nikolas encerrou por volta das 15h15.
A reportagem constatou que havia dificuldade de comunicação por celular e internet no local do ato por causa de instabilidade de sinal, possivelmente provocada pela alta concentração de pessoas em um mesmo ponto usando seus aparelhos. Assessores que estavam na praça disseram à reportagem que tentaram alertar políticos que seguiam na caminhada, mas as mensagens não chegaram aos destinatários em tempo.
Assim, por falha de comunicação, seja tecnológica ou organizacional, parlamentares só teriam tomado conhecimento do ocorrido ao chegar ao local da concentração, quando o atendimento às vítimas já havia sido encerrado e o ato caminhava para o fim.
O ato foi encerrado pelo discurso do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), idealizador da caminhada, que percorreu cerca de 240 km entre Paracatu (MG) e Brasília (DF) em 7 dias. Sem saber dos fatos ocorridos antes da sua chegada à concentração, Nikolas não mencionou as vítimas em sua fala. Após o discurso, o deputado desceu do trio onde discursou e não conversou com a imprensa. Mais tarde, ele buscou informações e foi até o Hospital de Base, um dos locais para onde as vítimas foram encaminhadas.
O fato gerou críticas de políticos da esquerda, que mencionaram descaso e irresponsabilidade da organização por não dispersar o ato diante das fortes chuvas.
"Do começo ao fim, a “marcha” do Nikolas foi marcada pela irresponsabilidade. Saiu caminhando pela BR-040 sem comunicar PRF, DNIT ou autoridades competentes, fechou pista, ocupou a via, teve até helicóptero pousando na borda da estrada. Brincou com a vida das pessoas. No encerramento, repetiu o descaso. Mesmo com tempestade forte em Brasília, os organizadores não dispersaram o ato”, escreveu o deputado Lindbergh Farias em publicação no X. Ele afirmou ainda que deve apresentar uma representação à Polícia Federal para apuração de responsabilidades do Nikolas e demais organizadores.
Nikolas informou que diferentemente do que disse Farias, a polícia foi devidamente comunicada da realização da caminhada.
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Estrutura do ato pode ter contribuído para queda do raio
A Praça do Cruzeiro é um local aberto, com poucas árvores ou edificações no entorno. Para o ato, foram instaladas grades de proteção, formando um retângulo em volta de um trio elétrico, dois caminhões com guindastes e outro de apoio. Um terceiro guindaste, que ficava de fora do cercado, tinha uma bandeira do Brasil hasteada.
Do trio elétrico, somente integrantes da organização passavam informações, animavam o povo e, na maior parte do tempo, louvores eram tocados.
Integrantes do Corpo de Bombeiros que chegaram ao local para prestar socorro explicaram que as estruturas de metal utilizadas para fazer o cercado ao redor do trio elétrico, bem como os guindastes, fizeram com que o ponto se tornasse um ponto de atração de raios.
Informações oficiais foram divulgadas após o fim do ato
A Gazeta do Povo teve acesso a informações oficiais, por meio de “nota parcial”, enviada à imprensa pelo Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), após as 15h50, quando o ato já havia encerrado.
O Corpo de Bombeiros informou que foi acionado por volta das 12h50 para atendimento a múltiplas vítimas em decorrência de uma descarga atmosférica na Praça do Cruzeiro, em Brasília.
Segundo a corporação, a resposta foi imediata e mobilizou 25 viaturas, entre elas dez Unidades de Resgate (URs), empregadas no pronto atendimento às pessoas atingidas. As equipes realizaram a triagem, o suporte pré-hospitalar e o transporte das vítimas, conforme os protocolos operacionais.
Até a divulgação da nota, o CBMDF contabilizou 72 pessoas atendidas no local. Desse total, 42 estavam em estado estável, conscientes e orientadas. Trinta vítimas foram transportadas por equipes dos bombeiros e encaminhadas ao Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF) e ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Oito pessoas apresentavam condições instáveis.



