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"Cine Trancoso"

Procuradores querem investigação sobre festas de Vorcaro, mas TCU cogita arquivamento

Quem é Daniel Vorcaro, preso na operação que liquidou o Banco Master. (Foto: Gurometal/Wikimedia Commons)

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O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU), órgão responsável por fiscalizar a correta aplicação de recursos públicos, pediu ao Tribunal de Contas da União (TCU) que investigue festas atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro em uma casa de alto padrão em Trancoso (BA), eventos conhecidos como “Cine Trancoso”, para apurar se houve participação de autoridades federais com eventual uso de recursos públicos — como despesas com deslocamento, diárias, estrutura ou apoio institucional — ou situações que possam configurar conflito de interesses.

Segundo o subprocurador-geral do MPTCU, Lucas Rocha Furtado, responsável pela representação, a possível presença de agentes públicos em encontros privados promovidos por um empresário com interesses no sistema financeiro pode representar “risco sistêmico” à confiança nas instituições, caso haja qualquer interseção entre relações privadas e decisões públicas.

O caso, no entanto, pode ser arquivado nesta terça-feira (24) pela 2ª Câmara do TCU. Um parecer preliminar da área técnica da Corte apontou ausência de indícios concretos de aplicação de verbas federais, critério que delimita a competência do tribunal para abrir investigação. Por isso, existe a possibilidade de o TCU decidir pelo arquivamento.

De acordo com reportagens da Folha de S.Paulo, Vorcaro teria alugado uma casa de alto padrão em Trancoso (BA), entre 2021 e 2022, a qual posteriormente foi adquirida por empresas ligadas a ele. O imóvel, avaliado em cerca de R$ 300 milhões, teria sediado eventos restritos com presença de empresários, integrantes do mercado financeiro e até autoridades dos Três Poderes.

Relatos mencionam controle rigoroso de acesso, proibição de celulares e a existência de circuito interno de câmeras. Há ainda informações de que festas semelhantes teriam ocorrido no Rio de Janeiro, em São Paulo e no exterior, inclusive em Nova York.

Mensagens de WhatsApp anexadas a um processo judicial, ainda segundo a Folha, registram a insatisfação da então proprietária com os eventos realizados no local. Em conversa com o corretor que intermediou a locação, ela relatou que o número de convidados teria ultrapassado o limite contratual e mencionou reclamações de vizinhos por som alto, inclusive com acionamento de autoridades locais.

A defesa de Vorcaro afirmou à imprensa que os relatos sobre os eventos “não correspondem à realidade dos fatos”.

A participação de autoridades em eventos privados, por si só, não configura ilegalidade. O ponto central levantado pelo MPTCU é se houve, direta ou indiretamente, uso de recursos públicos federais ou qualquer vínculo institucional que justifique a atuação do TCU.

Na representação, o Ministério Público de Contas solicita a identificação de autoridades públicas que teriam participado dos encontros, a verificação de possíveis impactos para a administração pública, o eventual envolvimento de agentes públicos ligados ao setor financeiro e ainda a possibilidade de financiamento público das festas que contavam com alta gastronomia, bebidas caras e "acompanhantes" para os convidados. 

"Como órgão responsável pela fiscalização da aplicação de recursos públicos e pela conduta de agentes públicos federais, o TCU possui competência constitucional, conforme disposto no artigo 71 da Constituição Federal, para investigar e apurar os fatos com rigor e transparência", diz trecho da representação.

Segundo o procurador, mesmo que não haja prova imediata de uso de dinheiro público, a simples "possibilidade de promiscuidade entre poder político, poder financeiro e decisões institucionais pode gerar instabilidade e desconfiança generalizada".

“O que se vê é, de um lado, o Ministério Público de Contas sustentando que a proximidade entre agentes públicos e figuras ligadas ao sistema financeiro pode gerar riscos institucionais e administrativos; de outro, a área técnica do tribunal entende que, até o momento, não foram apresentados elementos suficientes que comprovem o uso de recursos públicos federais, como critério central para a atuação da Corte”, explica o cientista político Gustavo Alves.

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Representação pede cautelar e identificação de autoridades

O pedido do MPTCU, protocolado em 29 de janeiro deste ano, recomenda ao TCU a abertura de processo para identificar quais autoridades dos Três Poderes teriam participado dos eventos conhecidos como “Cine Trancoso”, que seriam as festas atribuídas a Vorcaro.

O nome “Cine Trancoso” não é uma denominação oficial criada pelos organizadores dos eventos. Segundo a Folha de S.Paulo, a expressão surgiu nos relatos e mensagens obtidos durante apurações e passou a ser usada por frequentadores e interlocutores para se referir às festas realizadas na casa em Trancoso (BA).

De acordo com o jornal, o apelido faria alusão ao ambiente reservado e ao suposto uso de sistema interno de câmeras no imóvel — o que teria alimentado a referência ao termo “cine”, numa menção informal a filmagens ou registros audiovisuais. A expressão foi incorporada pela imprensa a partir dessas mensagens e relatos, tornando-se a forma como o episódio passou a ser identificado publicamente.

Furtado cita na representação trechos de reportagens que apontam a existência de "imagens captadas nas festas" e que poderiam envolver “figuras de alta relevância do Poder Judiciário”, descritas em mensagens atribuídas a um executivo de uma gestora de fundos de investimento como “pica das galáxias”.

Para o subprocurador, os elementos divulgados indicam "preocupação concreta" quanto a possíveis impactos na administração pública, especialmente diante da suposta participação de autoridades federais de alta cúpula. Ele afirma que ainda não se conhece a real extensão dos fatos nem a magnitude das eventuais irregularidades associadas aos eventos atribuídos a Daniel Vorcaro, o que, em sua avaliação, reforça a necessidade de apuração rigorosa e transparente.

No documento, Furtado sustenta que a gravidade do quadro não pode ser subestimada. Segundo ele, a hipótese de envolvimento de autoridades em encontros que podem ter conexão com um escândalo financeiro de grandes proporções representa potencial “risco sistêmico” à confiança nas instituições públicas — argumento central utilizado para justificar a atuação do tribunal de contas na fase preliminar.

O argumento central é que a apuração não se limita ao comportamento individual de participantes, mas que é necessário verificar se houve eventual utilização de recursos públicos, patrocínios indiretos, decisões administrativas influenciadas ou qualquer vínculo institucional que justificasse a atuação do tribunal de contas.

O documento menciona ainda relatos de que os eventos, denominados “Cine Trancoso”, teriam sido realizados sob controle rigoroso de acesso, com proibição de celulares e existência de circuito interno de câmeras. Segundo a representação, haveria informação de que esses registros estariam sob custódia do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, com supervisão do Supremo Tribunal Federal.

"Quem ia às festas privê na casa de Trancoso do ex-banqueiro se via obrigado a deixar o celular desligado e nas mãos de alguém da área de segurança durante os convescotes. Em algumas das farras havia até detectores de metal nas entradas dos salões", diz trecho da reportagem da Reserva Exclusiva, site especializado em mercado financeiro, publicada na representação.

Recentemente, a Folha também relatou que os aparelhos eram recolhidos na entrada das festas e que o ambiente contava com monitoramento interno por câmeras. Além disso, fontes ouvidas na apuração informaram que os eventos teriam contado com a presença de acompanhantes. Ainda não há confirmação oficial ou documentação pública que detalhe a dinâmica dos encontros.

No documento, o subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado requer que o TCU adote medidas para:

  • Identificar autoridades públicas federais — incluindo procuradores e magistrados — que tenham participado dos eventos realizados na casa de veraneio de Vorcaro, em Trancoso;
  • Verificar eventual envolvimento de órgãos ou entidades federais na promoção ou financiamento das festas;
  • Avaliar riscos financeiros ou administrativos para outras instituições públicas, como bancos públicos, em decorrência dos fatos narrados;
  • Adotar medida cautelar, com requisição de documentos, informações e oitiva de testemunhas, para evitar dissipação de provas;
  • Ao final, encaminhar os resultados ao presidente do Congresso Nacional.

A representação menciona possíveis impactos para entidades públicas e instituições financeiras que mantêm interface com políticas governamentais, como bancos públicos, além de uma gestora de recursos que foi liquidada pelo Banco Central no início de 2026.

Pressão por arquivamento aumenta no TCU

Enquanto o Ministério Público de Contas pede medidas cautelares e apuração ampla sobre a presença de autoridades públicas nessas festas e se houve aplicação de recursos públicos nesses eventos, congressistas já se mobilizariam para forçar o arquivamento da representação no TCU. Alguns deles, segundo fontes a par das investigações, têm receio de aparecer nas listas de presença dos eventos.

A reportagem apurou que o parecer preliminar, elaborado no âmbito da Secretaria-Geral de Controle Externo da Corte de Contas, sustenta que não foram apresentados elementos que caracterizem competência do TCU para atuar no caso. A recomendação, contudo, não é definitiva e ainda poderá ser revista pelos ministros da Corte de Contas.

O processo está sob relatoria do ministro Jorge Oliveira, a quem caberá decidir se acolhe o entendimento técnico ou mantém a tramitação da representação do MPTCU. Segundo o TCU, essa representação está sob análise no processo TC 003.212/2026-2.

“Ainda não há decisão do Tribunal nem outros documentos públicos disponíveis. O processo está na pauta da sessão da 2ª Câmara do dia 24 de fevereiro [terça-feira] às 10h30”, disse a assessoria à Gazeta do Povo.

A divergência interna ocorre antes mesmo de eventual decisão dos ministros, o que poderia ampliar a disputa política e jurídica sobre uma possível investigação.

Para o cientista político Gustavo Alves, o dilema vai além. Por mais que se remeta a questões particulares e de cunho pessoal, a possível realização desses eventos - com a suposta presença de "acompanhantes" e regados a bebidas e comidas caras bancadas por Vorcaro - coloca em xeque a idoneidade de autoridades que possam ter participado desses encontros e o que efetivamente foi debatido neles.

“Se há pressão para que não haja investigação, ela pode vir do Congresso. Além de Trancoso, informações já apuradas pelas investigações dariam conta de que festas foram organizadas no Rio de Janeiro, São Paulo e até fora do país. Talvez estejamos frente a frente, guardadas as devidas proporções, com um caso Epstein no Brasil”, opina.

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Defesa de Vorcaro nega irregularidades

Em nota enviada à Folha de S.Paulo, a defesa de Vorcaro afirmou que “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”.

Os advogados acrescentaram que as afirmações divulgadas “não correspondem à realidade dos fatos” e que parte do conteúdo já teria sido anteriormente caracterizada como tentativa de extorsão e constrangimento público. A defesa também sustenta que a divulgação de informações de cunho moral, sem relevância jurídica comprovada, contribui para pré-julgamento e para violação da esfera privada.

A Gazeta do Povo também entrou em contato com a defesa de Vorcaro e pediu o posicionamento do banqueiro sobre as festas em Trancoso (BA), mas os advogados disseram que não iriam comentar o caso.

"Cine Trancoso" aumenta pressão da oposição por CPMI do Master

Os rumores em torno das festas atribuídas a Daniel Vorcaro não ficaram restritos ao debate jurídico no TCU. No Congresso, o episódio reacendeu a pressão da oposição pela instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o caso do Banco Master.

A proposta de CPMI, que já circulava nos bastidores, ganhou novo fôlego após a divulgação de informações sobre encontros em Trancoso com a presença de “altas autoridades federais”. Parlamentares passaram a sustentar que o contexto das festas — associado às investigações financeiras — ampliaria a necessidade de apuração política.

Segundo articuladores, cerca de 280 assinaturas já teriam sido reunidas para a criação da CPMI, embora o pedido ainda não tenha sido lido pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre.

Deputados da oposição afirmam que a comissão seria uma “obrigação institucional”. Para eles, o caso precisa ser “passado a limpo”, não apenas sob o aspecto contábil, mas também quanto às relações entre agentes públicos e interesses privados.

“A CPI do Banco Master é uma obrigação institucional e o Brasil precisa passar isso a limpo”, afirma o deputado Ubiratan Sanderson (PL-RS).

O deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) sustenta que, mesmo que o Tribunal de Contas da União decida pelo arquivamento da representação do MPTCU, o caso não estará encerrado nem do ponto de vista político nem institucional.

“O Congresso pode instaurar CPI, convocar autoridades e aprofundar a investigação. A PF retomou integralmente as apurações após tentativas de interferência”, disse.

Na avaliação dele, o principal obstáculo seria a acomodação da própria classe política. “Se puxar o fio até o fim, pode atingir bolsonaristas, petistas e o Centrão.”

Kataguiri também criticou a possibilidade de arquivamento pelo TCU. Para ele, uma decisão nesse sentido transmitiria um “recado perigoso” à sociedade, sobretudo por envolver banqueiro influente e autoridades. Ainda que a área técnica aponte ausência de prova formal de uso de recursos públicos, o deputado avalia que o contexto não pode ser tratado como trivial.

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