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A pressão política sobre o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), está aumentando com investigações sobre suas possíveis conexões com um resort de luxo, no Paraná, que tem até cassino, e uma mobilização de parlamentares da oposição para afastá-lo do caso do Banco Master.
O ministro Edson Fachin adiantou nesta semana seu retorno a Brasília para reassumir a presidência da Suprema Corte e lidar com o caso. Fontes ouvidas pela reportagem apontam que nos bastidores já há conversas sobre a possibilidade de um pedido de suspeição ser apresentado pelo próprio ministro como forma de conter o desgaste institucional. Assim, o retorno antecipado de Fachin teria como objetivo viabilizar que Toffoli se declare suspeito no caso.
Por meio de nota, o presidente da Corte se manifestou em defesa da legalidade, da atuação coordenada das instituições e da autonomia do Supremo. Ele afirmou que o STF não cede a pressões e que eventuais questionamentos serão analisados nos ritos constitucionais. Confira a nota na íntegra no fim da matéria.
Outro cenário, segundo apurou a reportagem, seria uma saída negociada entre a cúpula do STF e o próprio ministro, na qual a Corte declararia a sua incompetência e remeteria o caso do Master à primeira instância, onde deveria ter começado a tramitar. Caberia ao próprio Toffoli fazer essa mudança de entendimento, deixando de puxar o processo para si.
A manobra preservaria o ministro de prestar esclarecimentos à Procuradoria-Geral da República sobre conflitos de interesse e ainda protegeria a Corte de uma crise institucional ainda mais profunda.
Analistas ouvidos pela reportagem, no entanto, dizem que há uma tendência de que Toffoli tente continuar dominando o inquérito na Suprema Corte. O professor e criminalista Márcio Nunes alerta que a pressão para que o ministro Dias Toffoli deixe a relatoria do caso dificilmente terá efeitos práticos se depender de uma decisão institucional do STF.
As investigações sobre a ligação do ministro com o resort, publicadas pelo portal Metrópoles e pelo jornal O Estado de S.Paulo, revelaram que Toffoli era tratado por funcionários como dono do resort.
O empreendimento teria sido construído pela incorporadora de José Carlos e José Eugênio, irmãos do ministro. O local, porém, foi vendido a um advogado da empresa J&F, conhecida pelos donos Joesley e Wesley Batista. A ligação com o Banco Master se dá pela aquisição de ações do hotel pelo empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono da instituição.
A Gazeta do Povo identificou, na planilha de liberação de profissionais para prestar apoio em segurança e transporte para autoridade do Supremo Tribunal Federal na cidade de Ribeirão Claro (PR), onde fica o resort de luxo, um padrão de viagens que seriam atribuídas a Dias Toffoli. No período de um ano, desde o fim de 2024 até o fim de 2025, o ministro teria ficado, em diferentes momentos, quase 30 dias hospedado no hotel. Os dados estão disponíveis no Portal da Transparência do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, a quem coube liberar e pagar diárias aos profissionais.
O cenário suspeito fez com que parlamentares de oposição também reforçassem as críticas à atuação de Toffoli como relator do caso do Banco Master. Para a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), o episódio evidencia um problema antigo: a ausência de limites éticos claros para ministros da Corte. Ela destaca que situações envolvendo viagens, relações pessoais com investigados e atuação de familiares em causas no Supremo ferem princípios básicos do devido processo legal.
As críticas são reforçadas pela deputada Caroline De Toni (PL-SC). “O que estamos vendo é uma sucessão de fatos objetivos que agravam o quadro de conflito de interesses e tornam a permanência do ministro Dias Toffoli no caso absolutamente incompatível com a lei. Não se trata de opinião política, nem de narrativa. Trata-se de aplicação direta do Código de Processo Penal, que é cristalino ao afirmar que o juiz não pode exercer jurisdição quando ele próprio, seu cônjuge ou parente até o terceiro grau for parte ou diretamente interessado no feito”, apontou De Toni.
A pressão sobre Toffoli se estende ainda para entidades como a Transparência Internacional, que cobrou o afastamento afirmando que o histórico do ministro é suficiente para afastar qualquer expectativa de que ele se declare impedido no caso envolvendo o Banco Master.
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Vínculos privados de Toffoli no caso Master agravam cenário
A ligação da família de Toffoli com o empreendimento turístico no Paraná, ao menos no passado, é vista por analistas como um agravante em um contexto já sensível. Embora não haja, até o momento, comprovação de ilegalidade direta, juristas avaliam que o problema central é de natureza ética e institucional: a preservação da aparência de imparcialidade, princípio básico da atuação judicial.
Na avaliação do doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e comentarista político Luiz Augusto Módolo, os episódios recentes reforçam a necessidade de afastamento do ministro da relatoria. Para ele, o caso já estava comprometido desde a revelação de que Toffoli participou de uma viagem ao Peru ao lado de um dos advogados de defesa do grupo do Banco Master.
“O correto para um juiz falar com representantes das partes é agendar uma reunião formal, com registro e possibilidade de participação da parte adversária”, afirma Módolo. Segundo ele, a viagem, ainda que sem relação direta com o processo, já configuraria uma situação inadequada. “Quando isso se soma a vínculos privados envolvendo familiares, a necessidade de afastamento passa a ser ainda mais evidente”, avalia.
Ações de Fachin expõem desgaste institucional
A reportagem da Gazeta do Povo ouviu fontes que acompanham de perto os desdobramentos das investigações do caso Master que relatam um crescente desgaste interno no STF e um possível desentendimento entre ministros. Segundo essas fontes, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, tem acompanhado a situação de forma reservada, com elevado grau de cautela, diante do potencial impacto institucional do caso.
A avaliação interna é de que uma saída que preserve a imagem do STF passaria, por exemplo, por um eventual pedido do próprio ministro Dias Toffoli para deixar a relatoria do processo em que seu nome é citado, com base em suspeição, evitando que a controvérsia se projete sobre toda a Corte.
As fontes indicam, no entanto, que há uma ala no STF que interpreta a crise como parte de um ataque coordenado à integridade das instituições e defende uma atuação mais coesa dos ministros em defesa do tribunal. Nesse contexto, ao menos três ministros estariam observando o andamento do caso com discrição, mas demonstrando desconforto com as decisões de sigilo adotadas pelo relator. O ambiente, segundo relatos, é de tensão contida, com diferentes leituras sobre como equilibrar a preservação institucional, a transparência e a condução jurídica do processo.
Dentro desse mesmo ambiente de tensão, fontes ouvidas sob reserva apontam também descontentamento entre magistrados do STF — sentimento que alcançaria inclusive o presidente da Corte — em relação à postura do ministro Alexandre de Moraes.
A reportagem apurou que haveria incômodo com uma decisão tomada por Moraes assim que assumiu interinamente a presidência do tribunal, em 12 de janeiro de 2026, para instaurar um inquérito destinado a apurar quem vazou informações sobre ministros à imprensa. Moraes investiga supostos vazamentos de informações do Coaf e da Receita Federal envolvendo nomes de magistrados e de seus familiares no âmbito do caso Banco Master.
Para parte da Corte, a iniciativa teria ampliado ainda mais o desgaste interno e externo do tribunal, porque nenhum magistrado teria sido consultado antes da instauração do inquérito.
Esse cenário reforçaria a preocupação de parte dos ministros com a necessidade de cautela institucional, transparência e definição clara de limites para evitar que o caso aprofunde divisões internas e comprometa a imagem da Corte.
STF tende a manter lógica da autoproteção interna
Apesar do aumento da pressão pública, especialistas ponderam que é improvável que o próprio STF imponha um afastamento formal ao ministro. O professor e criminalista Márcio Nunes lembra que, em 26 anos, a Corte jamais declarou oficialmente o impedimento ou a suspeição de um de seus membros.
“Todos os pedidos apresentados nesse período foram rejeitados ou arquivados”, afirma. Segundo Nunes, esse histórico consolidou uma prática interna de autoproteção que torna esse tipo de medida praticamente inexistente na prática, ainda que prevista em tese.
Para o criminalista, a dinâmica interna do tribunal faz com que qualquer mudança relevante no caso Master dependa exclusivamente de uma decisão pessoal de Toffoli. “A experiência demonstra que o STF não costuma impor esse tipo de constrangimento a seus membros. Uma eventual saída da relatoria seria um gesto político e institucional, não o resultado de um mecanismo formal de controle”, diz.
De acordo com o cientista político Elias Tavares, o retorno de Fachin deve ser interpretado menos como um gesto protocolar e mais como uma operação de contenção de danos. Segundo ele, Dias Toffoli já chega ao caso do Banco Master com um desgaste acumulado, provocado não apenas pelo conteúdo das decisões, mas pelo vai-vém institucional que elas geraram.
“Fachin é visto internamente como uma figura de maior previsibilidade e centralidade técnica. Sua presença ajuda a reduzir ruído e sinalizar autocontenção institucional”, avalia. Para Tavares, o movimento não aponta necessariamente para uma crise pessoal entre ministros, mas para um esforço claro de preservar a imagem do STF em um momento sensível.
Por outro lado, o cientista político Valdir Pucci pondera que o episódio não deve ser lido como uma crise pessoal entre ministros. “Não vejo como perda de confiança individual em Dias Toffoli, mas como uma tentativa clara de evitar um desgaste institucional maior”, diz. Para ele, o STF age como uma corporação, assim como o Congresso Nacional. “Esse corporativismo faz com que a Corte tente blindar tanto o ministro quanto a própria instituição das críticas.”
Pucci avalia que uma resposta institucional dura é improvável. “Um afastamento formal não deve ocorrer. O caminho mais realista seria um convencimento interno para que o próprio ministro abra mão da relatoria ou para que as decisões passem ao plenário”, afirma. Segundo ele, trata-se mais de um mecanismo informal do que de uma solução institucional formal.
Suspeição, renúncia ou devolução à primeira instância são caminhos possíveis para caso Master no STF
No campo jurídico, três caminhos são apontados como possíveis diante do atual cenário: a declaração voluntária de suspeição, a renúncia à relatoria ou a devolução do caso à primeira instância. Nenhum deles, no entanto, é considerado provável sem uma iniciativa direta do próprio ministro.
Para Módolo, a declaração de suspeição seria a medida mais adequada para preservar a credibilidade do julgamento. No entanto, ele alerta que essa alternativa levanta uma questão delicada: quem assumiria a relatoria em um tribunal no qual, segundo ele, há vínculos difusos com o caso.
“Estamos falando de um processo que envolve prejuízos bilionários a investidores e que afeta diretamente a imagem pública do STF. O impacto institucional é enorme”, afirma. “Deveria ser um ponto de virada, mas quem fará essa virada?”, questiona.
Analistas apontam "problema estrutural no Supremo" e falta de transparência em ações de ministros do STF
Na avaliação de Módolo, o caso do Banco Master expõe um problema estrutural mais amplo no Supremo Tribunal Federal, que ele define como um processo de “coronelismo” institucional em curso desde 2019. Segundo o jurista, a forma como ministros são indicados contribui para a fragilização da percepção de independência da Corte.
Como possível caminho de ruptura, ele defende uma revisão profunda nos critérios de nomeação de ministros, com a exclusão de nomes diretamente vinculados ao governo de turno. “É preciso retomar indicações em novos termos, priorizando juristas com preparo técnico e independência intelectual, e não ministros ligados ao poder Executivo ou advogados pessoais do presidente”, sustenta.
Críticas semelhantes são feitas pelo jurista André Marsiglia, que aponta a falta de transparência como um dos principais fatores de desgaste do caso. Segundo ele, ministros e familiares não teriam sido suficientemente claros sobre eventuais interesses ou relações com Daniel Vorcaro, a quem atribui responsabilidade pelo que classifica como “o maior escândalo financeiro da história do país”.
Para Marsiglia, qualquer magistrado que tenha mantido esse tipo de relação — ou que não tenha sido plenamente transparente sobre vínculos ainda não revelados — não reúne condições mínimas para relatar ou votar em processos ligados ao caso, sob pena de comprometer a legitimidade das decisões e a confiança pública no Supremo.
O jurista alerta ainda que a permanência de Toffoli na relatoria pode gerar consequências processuais graves. “Da forma como o processo está sendo conduzido, há risco concreto de nulidades futuras, o que pode descredibilizar não apenas os órgãos de fiscalização e controle, mas o próprio STF”, afirma.
Saída de Toffoli do caso Master também tem riscos, avalia analista
Paradoxalmente, Marsiglia reconhece que a eventual saída de Toffoli da relatoria também pode beneficiar indiretamente o Banco Master. A substituição do relator tende a provocar uma revisão profunda do processo, o que pode resultar na anulação de provas, apreensões e decisões tomadas até aqui, a exemplo do que ocorreu em casos emblemáticos do passado recente.
“Isso cria uma alternativa indireta para impedir a responsabilização dos envolvidos, não pela absolvição direta, mas pela fragilização processual”, afirma. Ainda assim, ele sustenta que o afastamento do ministro é necessário para preservar minimamente a imagem do STF, mesmo diante desse risco.
Fachin diz que "ataques à Corte representam ataques à própria democracia constitucional"
O presidente do STF, Luiz Edson Fachin, divulgou nota na noite desta quinta-feira (22) em que afirmou que crises não suspendem o Estado de Direito e que situações com impacto no sistema financeiro exigem atuação firme, coordenada e constitucional das instituições. Ele destacou as competências do Banco Central na preservação da estabilidade financeira, o papel da Polícia Federal na apuração de crimes e da Procuradoria-Geral da República na persecução penal, ressaltando que o Supremo deve atuar como guardião da Constituição, respeitando o devido processo legal e os limites institucionais, inclusive durante o recesso, quando decisões urgentes são tomadas nos termos regimentais e depois submetidas ao colegiado.
Fachin enfatizou ainda que o STF não se submete a pressões, ameaças ou tentativas de desmoralização, afirmando que ataques à Corte representam ataques à própria democracia constitucional. O presidente da Corte reiterou que a crítica é legítima, mas não a destruição das instituições, defendendo a colegialidade, a legalidade e o aperfeiçoamento contínuo do Judiciário. Segundo ele, transparência, ética e credibilidade são compromissos essenciais para a preservação do Estado de Direito.
Confira a nota na íntegra:
"Nota da Presidência
Adversidades não suspendem o Direito. É precisamente nos momentos de tribulações que o império da legalidade, discernimento e serenidade demonstra sua razão de ser. É com os olhos voltados para esse dever que miro fatos presentes.
As situações com impactos diretos sobre o sistema financeiro nacional exigem mesmo resposta firme, coordenada e estritamente constitucional das instituições competentes.
A Constituição da República atribui ao Banco Central do Brasil o dever jurídico de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, a continuidade das operações bancárias essenciais, a proteção dos depositantes e a prevenção de riscos sistêmicos. Tais competências, de natureza técnica e indelegável, devem ser exercidas com plena autonomia e sem ingerências indevidas.
A atuação da Polícia Federal é igualmente indispensável, sobretudo na apuração de eventuais práticas criminosas de gestão temerária, fraude financeira, manipulação de informações, lavagem de dinheiro e outros ilícitos previstos na legislação penal e financeira.
Cabe à Procuradoria-Geral da República, no âmbito de suas atribuições constitucionais, promover a persecução penal e controlar a legalidade das investigações. O Ministério Público, como instituição permanente, exerce papel fundamental na tutela da ordem econômica e do regime jurídico de defesa dos consumidores.
A seu turno, a Corte constitucional brasileira se pauta pela guarda da Constituição, pelo devido processo legal, pelo contraditório, e pela ampla defesa, cumprindo respeitar os campos de atribuições do Ministério Público e da Polícia Federal, porem, atuando na regular supervisão judicial, como vem sendo feito no âmbito dessa Suprema Corte pelo Ministro relator, DIAS TOFFOLI.
No tocante ao Supremo Tribunal Federal, registro que o Tribunal Pleno se encontra atualmente em recesso. Nesse período, matérias urgentes são apreciadas pela Presidência ou pelo Relator, nos termos regimentais. Encontra-se regularmente no exercício da Presidência o Ministro Alexandre de Moraes, Vice-Presidente desta Corte. As matérias de competência do Tribunal Pleno ou das Turmas, quando decididas no recesso, serão, oportunamente, submetidas à deliberação colegiada, com observância do devido processo constitucional, da segurança jurídica e da uniformidade decisória. A colegialidade é método.
É legítimo o exercício regular da jurisdição por parte dos membros do Tribunal no período do recesso, sem exceção. Eventuais vícios ou irregularidades alegados serão examinados nos termos regimentais e processuais. Questões tais têm rito próprio e serão apreciadas pelo colegiado com a seriedade que merecem. A Presidência não antecipa juízos, mas tampouco se furta a conduzi-los.
É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça.
O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço.
Transparência, ética, credibilidade e respeitabilidade faz bem ao Estado de direito. Este deve ser compromisso de todos nós democratas.
Brasília, 22 de janeiro de 2026.
Luiz Edson Fachin, Presidente do Supremo Tribunal Federal".







