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Rodrigo Constantino

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Bolsonaro chama comunistas de “cocô” e promete “varrer turma vermelha” do Brasil

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O presidente Jair Bolsonaro esteve na cidade de Parnaíba, no Piauí, nesta quarta-feira (14), onde inaugurou uma escola militar do Serviço Social do Comércio (Sesc) que recebeu seu nome. Em discurso, o presidente afirmou que vai “acabar com o cocô do Brasil” e disse que esse cocô seria “essa raça de corruptos e comunistas.”

Aos gritos de “mito”, Bolsonaro ainda afirmou que pretende acabar com o que chamou de turma vermelha, referindo-se aos comunistas. “Nas próximas eleições, nós vamos varrer essa turma vermelha do Brasil. Já que na Venezuela está bom, vou mandar essa cambada para lá. Quem quiser um pouco mais para o Norte, vai até Cuba.”

Os bolsonaristas foram ao delírio! É o presidente dando a ração diária do gado, alimentando sua militância engajada nas redes sociais. Teve até carola elogiando o “retorno da masculinidade” do presidente, que pelo visto voltou a comer bife. Tudo muito divertido, muito empolgante. Mas…

Se a estratégia de Bolsonaro é pautar a imprensa e desviar o foco do restante, parabéns! Ele conseguiu. Joga para a sua plateia enquanto a histórica aprovação da MP da Liberdade Econômica pelo Congresso e a nova denúncia de Palocci sobre propina de R$ 270,5 mi para o PT ficam em segundo plano. Por que isso?!

No mais, como todo cristão deveria saber, odeia-se o pecado, não o pecador. Cocô é o comunismo. Mas essa coisa de desumanizar as pessoas por conta de ideologia não é muito legal, e não costuma acabar bem. Fiz uma resenha de um ótimo livro sobre o assunto, que recomendo. Eis um trecho:

A desumanização é extremamente perigosa justamente porque oferece ao cérebro os meios pelos quais podemos superar as restrições morais contra os atos de violência. Ao verem comunidades inteiras como sub-humanas, os humanos driblam essa ambivalência e podem, agora, exterminar seus inimigos sem remorso, como quem elimina um germe. O processo de desumanização ocorre em situações em que desejamos agredir determinado grupo, mas somos contidos por inibições morais. Isso se dá num nível emotivo, não estritamente racional.

Como efetivamente conter tais impulsos? O autor não oferece um manual. Ele reconhece que não é algo tão simples assim, que não basta “contar histórias boas”, ignorando a questão sobre nossa natureza humana. Mas sem dúvida em nada ajuda a retórica tribal de “nós contra eles”, que retrata “eles” como bichos tidos como inferiores. As “metáforas” que usamos para descrever nossos adversários como ratos, como insetos, como vermes que devem ser eliminados, não contribuem muito para a vitória da civilização sobre a barbárie. São perigosas, para dizer o mínimo.

Apontemos os erros, os absurdos de nossos adversários. Reconheçamos a monstruosidade de certas ideologias. Ataquemos o comunismo, o socialismo, o nacional-socialismo, o fascismo, o radicalismo islâmico. Mas tomemos o cuidado de não transformarmos seus seguidores em bichos sub-humanos, que precisam ser exterminados. São, apesar de tudo, seres humanos. Apesar de, no mundo moderno que muitos deles ajudaram a criar, talvez seja mais valioso ser considerado um animal mesmo, já que seres humanos estão em baixa na escala de valores.

O comunismo é uma praga, uma ideologia nefasta, que venho combatendo desde quando muito bolsonarista era defensor do PT. Mas comunistas, por mais equivocados que estejam, por mais canalhas que sejam, ainda são seres humanos e muitos podem melhorar. Aliás, gostaria de lembrar aos bolsonaristas que o guru Olavo de Carvalho foi comunista. Essa coisa de chamar gente de cocô  deve ser condenada, sempre!

PS: Nos Estados Unidos há uma ala trumpista mais radical que pediu para o presidente “mandar de volta” as congressistas do “esquadrão”, lembrando que são americanas. O conservador Ben Shapiro condenou com veemência tal postura, como muitos outros, e o próprio Trump acabou tendo de rejeitar essa mensagem depois, apesar de ter ficado em silêncio durante o evento. No Brasil, a cópia (muito) mal feita de Trump não espera o povo pedir barbaridades; ele mesmo as prega, com orgulho, mostrando-se um dos mais radicais entre os radicais. É uma retórica inaceitável, ponto.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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