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Rodrigo Constantino

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Demétrio Magnoli ridiculariza Olavo de Carvalho, o “Bruxo de Virgínia”, mas deveria reler seu próprio livro

Olavo de Carvalho pode ser afeito a umas teses conspiratórias e exageros retóricos, mas isso não invalida a essência do que denuncia. Negar que há uma guerra cultural em curso, e que poderosos interesses investem pesado contra os pilares da nossa civilização ocidental, mirando basicamente nas tradições, no Cristianismo e na família, é simplesmente dar atestado de cegueira. Esqueçam Olavo, que não foi quem descobriu isso, e leiam inúmeros pensadores modernos sérios e respeitados, que dizem basicamente a mesma coisa, de forma mais serena.

Mas a tática de quem quer negar o óbvio é justamente focar no mais caricato mensageiro, destacar suas excentricidades mais bizarras, e com isso detonar um espantalho. É o que fez o sociólogo Demétrio Magnoli em sua coluna de hoje no GLOBO. Demétrio investiu pesado contra o “Bruxo de Virgínia”, apontou para seu lado mais voltado para o “ocultismo”, chamou-o de astrólogo e o comparou aos fanáticos sauditas. Tudo isso para ridicularizar a denúncia em si de que o globalismo existe e atenta contra nossos valores numa guerra cultural.

Demétrio afirma que o medo da Ursal, inexistente como instituição e presente em discurso do quase comediante Cabo Daciolo, seria análogo ao medo caipira da Cuca, do Boitatá ou de Curupira. Ou seja, fruto da nossa imaginação criativa, da ignorância, da superstição. Mas troque o nome Ursal por Foro de São Paulo e lembre que essa turma ocupou o poder por mais de uma década em diversos países latino-americanos, inclusive no Brasil, e aí a coisa não parece mais tão ridícula assim, não é mesmo? Quem tem medo do PT, de Chávez, dos comunistas? Ora, mais razoável seria perguntar quem não tem medo, e a resposta é clara: ou um completo alienado, ou um cúmplice. Eis como Demétrio “explica” a coisa:

A Ursal, União das Repúblicas Socialistas da América Latina, ganhou popularidade pela voz do Cabo Daciolo. A evocação da sigla exprime a crença de que uma conspiração comunista internacional ameaça a pátria brasileira. O Bruxo da Virgínia e seus evangelistas compartilham o credo de Daciolo, mas o vestem em peças de estilistas. Na linguagem arcana que preferem, a conspiração é conduzida por uma liga constituída por “liberais globalistas” e “marxistas”. Armados com as teses de Antonio Gramsci, os maléficos conspiradores apropriam-se silenciosamente tanto das chaves do poder quanto das mentes dos indivíduos por meio de uma prolongada guerra cultural. É Ursal, em versão de butique.

E quem pode seriamente desprezar a guerra cultural em curso, ainda mais vendo os resultados perniciosos nas universidades, na sociedade em geral? Alguém vai mesmo negar que “progressistas” enxergam o poder e as escolas como mecanismos para “fazer cabeças” e “mudar o mundo”, detonando as raízes da civilização? É preciso nunca ter lido nada sobre a Escola de Frankfurt para ridicularizar essa denúncia.

O pior é que Demétrio sabe melhor, ou deveria. Afinal, ele destacou a atuação dessa elite globalista de esquerda em seu próprio livro Uma gota de sangue, em que expõe como fundações “progressistas” internacionais agiram para levar pautas como a racial para dentro das nossas escolas. O que Demétrio denuncia no livro é justamente o globalismo e a guerra cultural que Olavo e tantos outros condenam. Já escrevi sobre isso, cobrando coerência do sociólogo, quando ele passou a ridicularizar a direita “paranóica”. Vamos resgatar uma vez mais para ver se a memória de Demétrio melhora:

Diferentemente das nações, que emanam de um processo complexo de fabricação de uma história, uma literatura e uma geografia, as ‘minorias’ da globalização emergem apenas de uma postulação étnica superficial. Nações podem até ser interpretadas como imposturas, mas são imposturas nas quais o povo acredita. As ‘minorias’, em contraste, são imposturas nas quais nem mesmo os impostores acreditam.

[…] as subvenções da Fundação [Ford] replicaram nas universidades brasileiras os modelos de estudos étnicos e de ‘relações raciais’ aplicados nos EUA e consolidaram uma rede de organizações racialistas que começaram a produzir os discursos e demandas dos similares norte-americanos.

A Universidade Estadual do Rio de Janeiro recebeu uma doação de 1,3 milhão de dólares, que figura na lista das maiores da história do escritório, em 2001, quando implantou seu programa pioneiro de cotas raciais. A Universidade de Brasília implantou seu programa em 2004 e nos anos seguintes recebeu sucessivas doações. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul resistiu até 2007, quando instituiu cotas raciais e recebeu 130 mil dólares. A Universidade Federal de São Carlos, outra ‘retardária’, foi contemplada com uma doação excepcional de 1,5 milhão de dólares, em 2007, ano em que aderiu ao sistema de cotas.

Para Magnoli, as elites multiculturalistas que formam essas minorias artificiais “não precisam de apoio popular, pois a sua legitimidade se conquista nos salões suntuosos das instituições internacionais”. Os “povos indígenas” — que Magnoli grafa entre aspas — são parte significativa dessa farsa. Está tudo lá no seu livro sobre o assunto! Na resenha que escrevi para o Instituto Liberal, destaquei justamente essa parte:

Ao expor a história do pensamento racial e suas graves conseqüências, o livro serve como um alerta no momento em que alguns grupos organizados tentam dividir o país em raças. Demétrio mostra como ONGs financiadas por poderosas instituições internacionais, como a Fundação Ford, têm empurrado a nação rumo a uma agenda política que enxerga apenas raças, e não indivíduos. Sem base científica, essas entidades procuram segregar os povos através do critério racial. Trata-se de uma herança maldita do “racismo científico”, dos tempos em que a etnia era vista como um divisor natural entre os homens, visão já devidamente refutada pela ciência.

Ora bolas, se isso não é o tal globalismo em ação na guerra cultural, o que é? Demétrio levou a sério o fenômeno para denunciar o que acontecia nas universidades em relação aos estudos raciais, e agora trata qualquer um que leva a sério o mesmo fenômeno com escárnio, como se fosse um idiota alienado que acredita em bicho-papão. Assim complica…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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