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Rodrigo Constantino

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Desprezar insatisfação com governo pode ser fatal para Bolsonaro

O governo tem menos de cinco meses. Se isso serve para argumento de defesa de quem acha prematuro demais falar em crise, por outro lado alimenta justamente o espanto de muitos: tão cedo e com tantos problemas?

Antes que bolsonaristas acusem os críticos de “trombetas do fracasso”, seria bom lembrar que o próprio Carlos Bolsonaro insinuou uma eventual queda do pai, enquanto o presidente falou em “tsunami”. A crise parece real.

E não adianta falar apenas em esquerdistas arquitetando manifestações com idiotas úteis e massa de manobra. Há crescente insatisfação dentro da direita, liberais que apoiaram Bolsonaro por falta de opção, mas estão assustados com o grau de influência de Olavo de Carvalho, e conservadores que rejeitam essa postura de tudo ou nada, guerra tribal e constante conflito com as instituições.

Na base frágil do governo também se nota movimentações estranhas, bancadas preocupadas com o rumo das coisas. Alguns já começam a falar em Mourão como presidente, o que atenderia ao discurso de golpe militar dos olavetes, que poderiam manter a aura de purismo: Bolsonaro cai porque é honesto em meio a bandidos, e o establishment foi mais forte, com o apoio da imprensa e mesmo dos liberais.

Se esse discurso pode ser reconfortante e manter a militância engajada, ele também é falso. Era óbvio que a visão de que um presidente eleito por vários motivos, sem uma coesão evidente, por um partido nanico, com uma pauta de confronto direto com o Congresso, enquanto depende deste para aprovar suas reformas, não passava de ingenuidade. Achar que bastava “pressão popular” beira ao infantilismo.

Muitos, porém, embarcaram nessa, e não foi por falta de alertas e avisos. Agora o clima é esse, de fim de festa no começo do governo, de um presidente pato manco como se seus ministros militares governassem de fato, e ele fosse apenas figurativo. Temos a esquerda organizada novamente em torno de uma pauta sedutora, a educação, e a direita dividida, fragmentada, parte já na oposição. Era o resultado inevitável da aposta na guerra tribal constante do bolsonarismo.

Danilo Gentili parece ser mais um que se afasta da turma. O humorista postou: “Me lembro da Dilma, e de todos militantes em volta dela (de jornalistas mainstream a MAVs) dizendo que aquele ‘vai tomar no cu’ no estádio de futebol foi apenas a elite e não o povo. Desprezar aquilo foi o início do fim pra ela. Eu entendo que um líder nunca pode subestimar duas coisas: A voz do povo e a voz da oposição pois uma sempre inflamará a outra. Se nessas horas a ação ou a fala não for sábia essas duas vozes podem se tornar uma só. Aí já era”.

Comparar com Dilma? Pois é. E não foi o Andreazza ou o Lobão, mais um que se afastou do olavismo. Outros comparam com Jânio Quadros, da vassourinha moralista, que achou que fosse voltar da renúncia nos ombros do “povo”, ou Collor, o caçador de marajás que enfrentaria os picaretas do Congresso, eleito por um partido nanico.

Muitos nas ruas eram mesmo “idiotas úteis”, e algumas pautas paralelas demonstraram o partidarismo da coisa: “Lula Livre” ou faixas contra a reforma previdenciária, por exemplo. Mas se eu posso dizer isso, um presidente não deveria. “Ah, mas ele é honesto e chega de politicamente correto”, rebatem alguns. Enganam-se: há não só uma liturgia do cargo, como uma função distinta daquela de agitador das redes sociais.

Rodrigo da Silva resumiu bem: “Bolsonaro tem direito de pensar que quem protesta contra ele é idiota. O presidente do Brasil não. Democracia não é apenas poder eleger um presidente. Democracia é poder protestar contra um presidente. Idiota é quem aplaude a truculência de quem deveria valorizar esse exercício”.

O fato é que o governo vem cavando sua própria cova, e isso tem muito a ver com sua mentalidade, inspirada no tribalismo jacobino de Olavo de Carvalho e dos filhos do presidente. Quem achou que fosse mesmo possível fazer uma “revolução” contra tudo e todos usando um presidente eleito e a “pressão popular” estava apenas sonhando com uma utopia. E utopias são sempre perigosas. Costumam produzir o pesadelo real de muita gente.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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