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Rodrigo Constantino

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É preciso priorizar uma reforma previdenciária séria e fazer política

Sei que meu amigo e editor Carlos Andreazza costuma ser odiado nos meios bolsonaristas. Ele foi um crítico ferrenho de certas atitudes do candidato e fez previsões pessimistas sobre suas chances de vitória. Mas Andreazza faz boa análise política, sem medo da patrulha, de forma independente e apartidária, e por isso merece respeito e atenção. Em sua coluna de hoje, ele toca em pontos fundamentais para o eventual sucesso da gestão Bolsonaro.

Os dois principais são: 1) a necessidade de um projeto de reforma previdenciária sério e claro, sem o qual nenhum legado positivo será possível; 2) a inescapável articulação política para viabilizar tal reforma. A campanha vitoriosa de Bolsonaro adotou um tom antipolítica, contra o “sistema”, que seria corrupto demais. Tudo verdadeiro, mas uma vez no poder, não há escapatória: a democracia representativa é a única saída. Diz Andreazza:

O caminho é simples — o que não quer dizer fácil: se o enfrentamento do drama fiscal for mesmo prioritário para Bolsonaro, caber-lhe-á fechar imediatamente com um projeto reformista, o objeto sobre o qual apregoar, e então ir a campo fazer política. Dá trabalho. No caso de uma reforma que toca no bolso do funcionalismo público, o empenho mobilizará reação corporativa, incompreensão da sociedade e, pois, impopularidade. Mas, afinal, com persistência, colhe-se os frutos. Se serve de consolo, não há alternativa: tudo quanto Bolsonaro deseje como legado de sua gestão só será possível com o controle da praga fiscal.

Quando a liderança tem clareza sobre o que quer, o trânsito fica menos obstruído. Bolsonaro precisa de um projeto de reforma previdenciária para chamar de seu — e que não tenha orgulho se for o caso de perfilhar o de outro. Desconheço quem se comprometa com algo ao mesmo vago e impopular. É uma obviedade. Qual o programa do futuro governo para essa reforma? Havendo um, haverá chance de engajamento. E, havendo um, engajamento só haverá com conversa.

Quem, no núcleo duro do bolsonarismo, baterá perna no Congresso para convencer os parlamentares acerca de um projeto, seja qual for, impopular? Estará Onyx Lorenzoni à altura da missão? Identifico um déficit de articulação política no governo em formação, e também uma incompreensão — a mesma que criminalizou a atividade política — acerca do que seja a democracia representativa. Porque, se é possível e necessário melhorar a qualidade da operação política nesta República, certo é que não haverá República se se prescindir da política.

Andreazza lembra ainda que cada parlamentar eleito representa uma parcela da população, ou seja, o governante da nação, por mais que tenha um viés ideológico chancelado pela maioria nas urnas, precisa conversar e dialogar com todos, em nome da cidadania, sem discriminação.

Como um exemplo de político e gestor hábil, Andreazza cita Paulo Hartung, que tem deixado um bom legado em seu governo no Espírito Santo. Ainda que um estado pequeno, a recuperação é evidente, tanto na luta contra o crime como em outras áreas, como educação. E tudo isso só é possível porque Hartung faz política.

Bolsonaro pode ou não acatar os conselhos de Andreazza, quem é visto com desconfiança por seu núcleo duro. Mas as intenções são as melhores possíveis, e a análise é imparcial. Como até mesmo um Ciro Gomes da vida já reconheceu, estamos todos no mesmo barco, e o piloto é Bolsonaro. Torcer para o fracasso seria irracional ou então demonstraria um espírito de porco que normalmente só petistas possuem.

Querer o sucesso do governo não é o mesmo que concordar com tudo, muito menos adotar postura bajuladora. As críticas construtivas são fundamentais, e todo estadista soube se cercar daqueles que tinham a coragem de fazer análise independente e dizer o que pensavam. Particularmente acredito que os conselhos de Andreazza são valiosos.

Paulo Guedes pode querer “dar uma prensa” nos políticos, e a pressão da opinião pública certamente ajudará. Mas no final do dia será preciso conquistar votos dos parlamentares, e aprovar uma reforma previdenciária séria, decente, que corte na carne do setor público. Sem isso, não haverá legado positivo do governo Bolsonaro. Paulo Guedes, estou certo, sabe disso. Será que Bolsonaro sabe?

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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