
Pai é pai. Podemos compreender que um filho tente enxergar o próprio pai por uma lente mais benevolente. Até o filho de um mafioso deve acabar fazendo isso. Mas há limites. O limite é não transformar um criminoso em um herói nacional. Neste caso, há cumplicidade, ou seja, o filho incorporou os “valores” do pai. Foi o que fez Zeca Dirceu.
Em artigo publicado hoje na Folha, o deputado petista e filho de José Dirceu teceu loas a seu pai, transformou-o em vítima de perseguição política, atacou o presidente do STF Joaquim Barbosa, que seria o perseguidor arbitrário do pobre Dirceu, afirmou que no futuro ficará provada a inocência de seu pai, e alegou que as privações pelas quais sua família passa talvez sejam necessárias para a “verdadeira revolução” que beneficiará todos.
É muito escárnio. É muita ousadia. É muita afronta a todos os brasileiros decentes. É a cara do PT! Zeca tenta rescrever o passado também, com aquele velho mito batido de que seu pai lutava pela democracia e pela liberdade nos anos 1960. Aquelas existentes em Cuba, onde Dirceu ganhou codinome e foi treinado pela ditadura comunista?
Zeca tem orgulho de seu pai. Cada um tem orgulho do que quiser. Talvez alguns tenham orgulho do Marcos Valério, vai saber. O que é absurdo, até inadmissível, é um jornal como a Folha ceder esse espaço para algo tão indecente, uma escancarada apologia ao crime.
Dirceu, afinal, foi julgado e condenado, com amplo direito de defesa, por um STF composto por ministros indicados pelo próprio PT, em uma democracia com o PT no governo. Chamar isso de perseguição política no jornal de maior circulação nacional é cuspir nas instituições de nossa democracia. Zeca, por coerência, deve considerar Marcos Valério um injustiçado!
O que me remete a esta sugestão que agora faço aos proprietários do Grupo Folha: por que não convidam também parentes do “carequinha” para escrever uma ode em sua defesa, condenando o STF? Por que só Dirceu tem esse privilégio? Por que só alguns bandidos recebem tratamento VIP?
Uma coisa é pluralismo de ideias e debate livre; outra, bem diferente, é manchar as folhas do jornal com a defesa do indefensável, com a mais abjeta peça mitológica de vitimização de criminosos julgados, condenados e presos.
Joaquim Barbosa é que estava certo quando disse que esses bandidos presos mereciam o ostracismo. Mas a própria imprensa prefere tratá-los como dignos de “resposta” (alguns deles apenas, que fique claro), o que é reconhecer-lhes um mérito indevido e cair em seu jogo de pintar o julgamento do mensalão como uma perseguição política. Uma bola muito fora!
Rodrigo Constantino



