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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Michel Temer preso: o que isso significa?

A força-tarefa da Lava-Jato prendeu na manhã desta quinta-feira o ex-presidente Michel Temer e seu ex-ministro das Minas e Energia Moreira Franco. Agentes da Polícia Federal cumprem 10 mandados de prisão – oito preventiva e duas temporárias em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Brasília.  A ordem dos mandados de prisão é do juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro. A ação é um desdobramento da Operação Radioatividade, que investiga desvios nas obras da Usina de Angra 3 e tem como base a delação do empresário.

A colaboração de Funaro, homologada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava-Jato no STF, à qual o GLOBO teve acesso, tem 29 anexos que narram em detalhes como teria funcionado o esquema de corrupção no Congresso, chefiada por caciques do antigo PMDB como os ex-presidentes da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, preso em Curitiba, e Henrique Eduardo Alves, além dos ex-ministros Geddel Vieira Lima (preso há 6 meses), Moreira Franco e do ex-vice governador do Distrito Federal Tadeu Filippeli, que foi assessor especial do gabinete de Temer.

A prisão de mais um ex-presidente pegou o país de surpresa, ainda que o próprio Temer sempre temesse esse dia. O Brasil não carece de fortes emoções! Os mercados já sentem o golpe, pois a prisão do sogro de Rodrigo Maia, um dia após sua “briga” pública com Sergio Moro, certamente não ajuda na tramitação da reforma previdenciária, necessária e urgente para o país. A prisão gerou reações nas redes sociais, muitos memes e brincadeiras, mas alguns comentários sérios de gente preocupada com o andar da carruagem:

A prisão de Michel Temer marca o contra-ataque do jacobinismo jurídico. Que os bolsomijos não se animem pois muitos deles serão os próximos na lista. Não sobrará ninguém para contar essa história. – Martim Vasques da Cunha

A prisão de um ex-presidente – sem condenação, com base na palavra de delator – é mais um investimento do lava-jatismo contra a atividade política, a ter duro impacto sobre qualquer agenda reformista. Comemorar esta barbaridade é, pois, luxo para quem não precisa de trabalho. – Carlos Andreazza

A prisão de Temer, por outro lado, enterra de vez a narrativa de golpe dos petistas, e coloca a esquerda numa situação delicada, até porque ninguém sairá às ruas para gritar “Temer Livre”. Alguns comentaram nesse sentido:

A esquerdalha está numa posição difícil. Comemora a prisão de Temer, o “golpista”, chancelando assim a Lava Jato, ou protesta, defendendo o “golpista”. Como bom hipócritas que são, devem comemorar, afirmando que Temer sim é bandido, mas Lula não. – Leandro Ruschel

Esse golpe e tão louco que prendem até os golpistas, que coisa! – MBL

Era uma vez a narrativa de golpe… – Gustavo Nogy

Como se sabe, a Lava Jato só prende petistas. – Guilherme Macalossi

E houve quem celebrasse a notícia como avanço institucional contra a impunidade:

Juiz de primeira instância, Marcelo Bretas, da Lava Jato, manda prender Temer, tirando de Lula a condição singular de ex-presidente preso. Com Dilma também prestes a ter idêntico destino, o Brasil tinha mesmo de arquivar hábitos que Congresso e STF insistem em manter. Até quando? – José Nêumanne

Mais uma vez a Lava Jato deixa claro que a lei é para todos e demonstra como a renovação política é fundamental para termos o Brasil que queremos. – João Amoedo, Partido Novo

Michel Temer foi preso e a direita não sairá às ruas contra a sua prisão. Nós já estamos cansados de dizer, mas é sempre bom repetir e afirmar com base em fatos: não temos bandidos de estimação. – Fernando Holiday

Mais um ex-presidente preso. Michel Temer. Já não existe aquela história de estar acima da lei. A Lava-jato mostra isso. Por um novo Brasil! – Alexandre Garcia

Já eu trago para reflexão um pensamento: por mais que o combate à corrupção seja ótimo e necessário, há que se levar em conta outros aspectos. Por exemplo: o timing das prisões. Prestes a se votar uma reforma previdenciária, um dia após “briga” de Maia com Moro. Seria totalmente absurdo pensar em outros interesses por trás disso, mais corporativistas?

Quando aquela armação do Joesley e Janot com ajuda global “pegou” Temer numa gravação pouco republicana, qual foi o resultado prático? O Brasil ficou menos impune? Não. A reforma previdenciária foi impedida. Achar que todos da Lava Jato são apenas patriotas puristas combatendo a corrupção generalizada, sem qualquer interesse corporativista, parece um tanto ingênuo. Os puristas jacobinos vão descobrir, “the hard way”, que uma revolução devora todos, inclusive seus pais.

Não dá mais para voltar com o gênio para dentro da garrafa. O jacobinismo está à solta. São todos corruptos, e ninguém mais precisa falar em provas, devido processo legal, nada. Todo poder aos procuradores da Lava Jato! Dane-se a reforma, a guerra política em curso entre os poderes, abusos de poder. Alertar para isso é ser o novo Reinaldo Azevedo, um “isentão” defensor de corruptos.

Sim, todos sabemos quem são esses caciques do PMDB. Só há um problema nessa narrativa: isso não importa para a Lava Jato! Ou estamos contra corruptos – todos os corruptos – ou não. Não há meio-termo possível aqui. Ou seriam os “puristas” os pragmáticos, de forma incoerente e paradoxal? Vamos atrás de Temer e Moreira porque sabemos quem são, mas não vamos atrás de Queiroz e do Flávio? Por quê?

Os jacobinos só ignoram que a revolução devorou seus pais, até mesmo Robespierre. Alguém vai restar livre? Haverá democracia após implosão da economia? Perguntas bobas para quem quer limpar a sujeira de toda e política e sabe que são todos corruptos…

Detalhe: a prisão deve ter sido preventiva, e claro que o STF vai soltar Temer. E isso deveria ser previsto por Bretas. Um grupo de juízes ao qual tive contato constatou, em unanimidade, que a prisão parece um tanto irresponsável mesmo. Há evidências de que Temer estava destruindo provas ou intimidando testemunhas? Mesmo quem é pró-Lava-Jato entende que há limites institucionais para a ação da Justiça. O efeito líquido será mais desmoralização institucional. Talvez seja muito cedo para comemorar a prisão…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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