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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Mourão alerta que se governo falhar, conta vai para as Forças Armadas; não, vai para Bolsonaro!

Segue reportagem de Raphael Sibilla na Gazeta do Povo sobre a fala do vice-presidente Mourão em Boston (volto em seguida com meus comentários):

Apesar de negar veementemente que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) está sendo comandado pelas Forças Armadas e criticar quem faz o uso do termo “ala militar” ao se referir aos generais da reserva que são ministros, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou neste domingo (7) que as Forças Armadas serão consideradas culpadas se o governo não for bem sucedido. “Se o nosso o governo falhar, errar demais, não entregar o que tá prometendo, essa conta vai para as Forças Armadas”, disse Mourão no encerramento da Brazil Conference, evento organizado por estudantes da Universidade de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston (EUA).

Sobre a responsabilidade de não falhar para não manchar o nome do Exército, Mourão disse que, no dia em que Bolsonaro e ele foram eleitos no segundo turno, o hoje presidente o chamou e disse: “Não podemos errar”. O vice-presidente foi aplaudido de pé e ovacionado por um auditório lotado.

A forte presença de generais da reserva no governo tem sido debatida desde que Bolsonaro assumiu o poder. Em Harvard, Mourão foi questionado por um aluno de PhD sobre se os militares não aprenderam a lição de Ernesto Geisel – presidente militar que, no fim da década de 1970, promoveu de forma lenta a abertura política do país, numa percepção de que governar não era tarefa das Forças Armadas.

“O general Geisel não foi eleito. Eu fui”, respondeu Mourão, que em seguida foi aplaudido de pé por quase um minuto. Nesse momento, houve uma pequena confusão quando alguém na plateia gritou: “Ditadura nunca mais”. Os seguranças do evento agiram de forma rápida para retirar o manifestante do auditório.

Hamilton Mourão concluiu sua resposta dizendo: “As Forças Armadas não estão no poder. O que ocorre é que dois militares foram eleitos. O presidente Bolsonaro, 30 anos fora das Forças Armadas. É um político, mais político do que militar”. O vice-presidente ainda lembrou da demora para a definição do vice na chapa de Bolsonaro e disse que “foi convocado na décima hora para a missão”.

A escolha de generais da reserva como ministros foi justificada por questões de afinidade. “Companheiros que conhecíamos de dentro das Forças foram convocados, mas são todos da reserva”, disse o vice-presidente.

A resposta que Mourão deu ao aluno de PhD viralizou nas redes sociais, pelo poder de síntese: não dá para comparar um militar como Geisel, que foi ditador, com militares agora eleitos pelo voto direto. A legitimidade do regime militar é questionável, para dizer o mínimo, especialmente após 1968. A legitimidade do governo Bolsonaro não pode ser questionada.

Mas claro que o intuito do aluno que fez a pergunta não era o foco na legitimidade em si, e sim na capacidade de os militares governarem o país, eleitos direta ou indiretamente. A resposta de Mourão, nesse sentido, foi uma espécie de fuga pela tangente. Mas o vice, como vimos, admitiu que um eventual fracasso desse governo seria colocado na conta dos militares. É justo?

Em parte, sim. Toda generalização é perigosa e, no limite, injusta com alguns. Não há um grupo monolítico que responde por “militares”, e sim indivíduos com diferentes características. Mas claro que um governo formado por tantos ministros militares será sempre associado às Forças Armadas como um todo.

E aqui mora o perigo: a mentalidade predominante nas Forças Armadas é a do positivismo de Comte, de um dirigismo tecnocrático na economia e um nacionalismo estatizante (vide a resistência na privatização das estatais “estratégicas”). O maior defeito de Geisel não era ser militar, mas sim ser um defensor desse modelo equivocado, criador de inúmeras estatais.

Mourão tem dado sinais de moderação, até para oferecer um contraponto à ala mais radical que apoia Bolsonaro. Acena – talvez demais – para a mídia e a esquerda, numa tentativa de se mostrar equilibrado e prudente, disposto ao diálogo. Gera, com isso, a revolta da ala mais extremista, e os aplausos dos “progressistas”, como vimos em Harvard.

Quando lembramos que, no total, foram oito os vice-presidentes que assumiram o governo no Brasil desde a Proclamação da República em 1889, temos o direito de questionar se Mourão age de olho no cargo do chefe, o que ele nega, afirmando total lealdade ao presidente.

Oito dos 38 presidentes que o Brasil teve ao longo de sua história republicana foram vices que assumiram o cargo: Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Delfim Moreira, Café Filho, João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer. Há precedentes, portanto.

Alguns acham que seria ótima a troca, e o próprio Bolsonaro, ao afirmar em entrevista que não nasceu para ser presidente e que o cargo é só problema, acaba alimentando a especulação. Mas eis o ponto: Bolsonaro foi eleito pelo povo e tem a responsabilidade de governar. Até a escolha do vice foi sua, ou seja, Mourão, alvo de tantas críticas por certos bolsonaristas, também é responsabilidade do próprio Bolsonaro.

Não dá para se esquivar! Não nasceu para ser presidente? Mas escolheu esse caminho, não? E esse é um dos problemas que vejo com essa ala “jacobina” do governo: estão sempre se esquivando para manter a aura de “pureza” do seu “mito”. O pior exemplo vem de cima, do “guru” Olavo de Carvalho. O filósofo usa sua “dialética” para estar “sempre com a razão”, pois joga uma no cravo, outra na ferradura.

Indicou, por exemplo, dois ministros, entre eles Ricardo Vélez, do MEC, mas já tira o corpo fora, inclusive acusando o intelectual de “traidor” em público. Mas quem indicou o “traidor”? Em outra mensagem, Olavo diz que um governo de direita ser eleito antes da restauração cultural conservadora não é só uma “ejaculação precoce”, mas um “suicídio”. Ora, ele apoia ou não o governo? É preciso se decidir.

Na prática, acende uma vela para Deus e outra para o Diabo. Tem alunos dentro do governo, em cargos importantes, e se o governo “der certo” ele terá os créditos, mas se for uma lambança, ele poderá dizer que avisou. Não há mesmo como errar agindo assim. Seu aluno Filipe G. Martins chegou a dizer que Vélez, “o maior especialista em pensamento brasileiro do mundo”, seria o responsável por “restaurar a educação do nosso país”. Com ele no MEC, o Brasil “volta a sorrir”, afirmou o “chanceler informal”. E agora?

Flavio Morgenstern foi outro que se empolgou demais, e disse que com Vélez no MEC o Brasil seria uma “potência mundial” em cinco anos. Errar é humano, parte da vida de qualquer um que faz previsões. Mas meu ponto é outro: essa turma não costuma admitir erros, vende-se como quase “clarividente”, pois insiste na narrativa do “guru” que estaria “sempre com a razão”. É postura de seita, que não tolera dúvidas ou rachaduras de imperfeições. E eles adoram apontar para os erros alheios, inclusive com uma atitude pérfida típica de assassinato de reputação.

Em suma, Mourão está parcialmente certo: as Forças Armadas como um todo serão cobradas pelo desempenho deste governo. Mas é o próprio presidente eleito, acima de todos, que responde pelos erros ou acertos. Quando Dilma destruiu nossa economia, não culpamos todos os economistas, nem mesmo toda a Unicamp (apesar de esta merecer mesmo a crítica). Foi Dilma, em última instância, quem pagou o pato. E merecido.

Não dá para Bolsonaro se vender como a virgem imaculada do bordel, traído por todos os lados, refém de um Congresso absolutamente corrupto. Ele foi eleito para governar dentro das restrições da realidade. Sabia disso, assim como qualquer pessoa séria. Os “jacobinos” investem num discurso que salva seu “messias” de qualquer deslize, pois ele estaria cercado de crápulas por todos os lados. Mandou a proposta da reforma ao Congresso e nada mais precisa fazer a respeito. Nada de articulação, que é sinônimo de crime para essa turma. Escolheu o vice, mas não tem nada com isso.

Ora, as coisas não funcionam dessa maneira. Bolsonaro foi eleito presidente e cabe a ele, mais do que ninguém, apresentar bons resultados. A grande diferença entre adultos e crianças é a capacidade de assumir responsabilidade na vida. Petistas agem como crianças mimadas pois sempre se negam a fazer isso, e invariavelmente apontam para bodes expiatórios que levam a culpa por seus próprios erros. Alguns bolsonaristas parecem mesmo petistas com sinal trocado. Querem só ser pedra, nunca vidraça, mesmo quando assumem o poder. É postura de eterna oposição.

Se esse governo falhar, e tomara que isso não aconteça!, será responsabilidade de Bolsonaro, e dos milhões que votaram nele. Não há escapatória, malabarismo dialético suficiente para se colocar como responsável pela vitória do “mito” e, ao mesmo tempo, um dos maiores críticos do seu governo. Bolsonaro foi eleito, e agora precisa entregar. Terá maiores chances de fazer isso se parar de escutar certos “gurus”, se ignorar um pouco a bajulação da militância fanática, e se for capaz de se aproximar das pessoas mais prudentes e sensatas.

Seu governo precisa dar certo. A alternativa é a volta da extrema esquerda, o que seria o caos. Alguns revolucionários parecem desejar isso, pois se alimentam dessa situação de constante ameaça comunista. Mas o Brasil não pode brincar com fogo e não tem tempo a perder. Bolsonaro tem que se mexer para aprovar reformas e colocar gestores bons nos ministérios. As indicações do seu “guru”, convenhamos, não foram as melhores, para dizer o mínimo. É hora de escutar gente mais moderada e realmente comprometida com o sucesso do governo, como o ministro Paulo Guedes, por exemplo.

Até porque se o governo falhar, a conta vai para Bolsonaro, e por associação direta, para toda a direita. Isso sim, seria suicídio.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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