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O império das massas: a atualidade de Ortega y Gasset
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“As massas são governadas mais por impulso que por convicção.” (Wendell Phillips)

O livro clássico de José Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, apesar de escrito há décadas, parece não caducar nunca. Um alerta ao povo europeu sobre os perigos do surgimento do novo “homem-massa”, que continua bastante válido atualmente. Pretendo aqui, de forma bem resumida, expor os principais pontos abordados pelo autor.

Para Ortega, a sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência espontânea. A idéia da sociedade como união contratual é, para ele, algo insensato, uma tentativa de colocar o carro na frente dos bois. Desta forma, a Europa seria justamente isso, um pluralismo de idéias e costumes, um enxame com muitas abelhas, mas um só vôo. O enriquecimento humano ocorre graças à existência de uma variedade de situações. E com isso em mente, o nascimento do “homem-massa”, homogeneizando tudo, apresenta enorme risco para a sobrevivência da própria civilização.

“Foi o chamado ‘individualismo’ que enriqueceu o mundo e a todos no mundo, e foi esta riqueza que fez proliferar tão fabulosamente a planta humana”. São as palavras do próprio autor, alertando para o fato de que os demagogos têm sido os grandes “estranguladores de civilizações”, ao ignorarem aquilo que permitiu o avanço humano. Para o nosso continuado progresso, é fundamental a memória dos erros passados. E quando não há conhecimento histórico, para a compreensão dos pilares que sustentam a civilização, o retorno à barbárie é uma ameaça real.

O autor explica seu conceito de massa, que independe da classe social. As minorias seriam grupos de indivíduos especialmente qualificados, enquanto a massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. O “homem médio” é um tipo genérico, sem diferenciação do resto. Somente razões especiais, relativamente individuais, podem separar indivíduos do restante, e formar assim as minorias. O homem especial não é o petulante, que se julga superior, mas o que exige mais de si mesmo que a maioria. A massa, ao contrário, vive sem esforço para o aperfeiçoamento de si mesma, como “bóias que vão à deriva”.

Segundo Ortega, esse tipo de “homem-massa” passa a dominar a Europa. A alma vulgar, sabendo que é vulgar, passa a ter coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe. Quem não for como “todo mundo”, poderá ser eliminado. As massas se tornaram indóceis diante das minorias. “Vivemos sob o brutal império das massas”. O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues explicou o mesmo fenômeno de forma mais direta: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”. Quais seriam as causas disso? O que possibilitou tal mudança no controle do destino do mundo?

Para o autor, o triunfo das massas aconteceu na Europa por razões internas, após dois séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. Do século VI até o ano de 1800, a Europa não conseguiu ultrapassar a cifra de 180 milhões de habitantes, enquanto de 1800 a 1914, em pouco mais de um século, a sua população cresceu para 460 milhões! E o grau médio de conforto e segurança do mundo novo explicita como a vida era mais dura no passado, até mesmo para os mais abastados. A democracia liberal fundada na criação da técnica, ou seja, as experiências científicas e o industrialismo, possibilitou tal crescimento e prosperidade.*

O homem vulgar, ao se encontrar com esse mundo, pensa que foi criado pela Natureza. Não entende os esforços individuais que sua criação pressupõe. Assim, o “homem-massa” apresenta uma livre expansão de seus desejos vitais, ao mesmo tempo que mostra ingratidão radical para com tudo que tornou possível tal situação. Os traços claros de uma típica criança mimada, que passa a exigir mais e mais como se fossem direitos naturais. O homem novo tem a postura de um tolo, que não desconfia de si, e com invejável tranqüilidade se planta em sua própria estupidez. Ele tem “idéias” taxativas sobre tudo, mas perdeu sua audição, sua capacidade de ouvir. Ele quer impor suas “opiniões”, sem entretanto se dispor a querer a verdade dos fatos através da razão. Seu procedimento único resume-se à “ação direta”, colocando a violência como prima ratio.

Quando a massa atua por si mesma, só o faz de um modo, porque não tem outro: lincha. E o meio utilizado para tanto passa a ser o próprio Estado. Ortega conclui: “O estatismo é a forma superior em que se transformam a violência e a ação direta constituídas em norma”. Através do Estado, máquina anônima, as massas atuam por si mesmas. O bolchevismo e o fascismo são exemplos claros disso. E a civilização, construída pela espontaneidade social, acaba sob o império das massas, ou seja, a barbárie!

* Hayek trata do tema da revolução industrial em Capitalism and the Historians, derrubando o mito histórico de que o capitalismo gerou riqueza para poucos à custa da exploração e miséria de muitos. A população ficara estagnada por muitos séculos, até começar a aumentar vertiginosamente. O proletariado que o capitalismo é acusado de ter “criado” não era uma proporção da população que teria existido sem este sistema e que foi degradado por ele; era um adicional populacional que pôde crescer justamente pelas inúmeras oportunidades de empregos que o capitalismo possibilitou. O capitalismo trouxe consigo, portanto, enorme avanço material para a maioria. O que um operário pode desfrutar de conforto material hoje era algo inimaginável até para nobres no passado. Máquinas não são inimigas do emprego, como os ludistas achavam. Pelo contrário: são seus grandes aliados! Alguns sofrem pela obsolescência de suas tarefas no curto prazo, mas os benefícios gerais são enormes ao longo do tempo. Claro que a vida dos novos operários não era nada fácil. Ninguém ousaria negar este fato. O ponto é que poucos se questionam sinceramente como era a vida antes da revolução industrial. Como vivam de fato os camponeses? Ainda que as várias horas trabalhadas nas fábricas fossem degradantes – especialmente vistas pelo conforto do progresso atual – a verdade é que a migração era vista como vantajosa para aqueles que abandonavam o campo. Entre trabalhar várias horas e morrer de inanição, não resta muita dúvida qual a escolha preferível. Não parece honesto comparar uma realidade dura com uma alternativa inexistente, utópica, fantasiosa. Muitos dos que podem condenar os abusos nem sequer estariam vivos, não fosse o progresso da industrialização. Por ingratidão, cospem no prato que os alimentou. Um outro bom exemplo é analisar a revolução industrial que ocorre atualmente na China, com milhões de camponeses abandonando voluntariamente os campos em busca de empregos nas fábricas, que pagam mais. Esses chineses trabalham muitas horas, mas por opção, pois a alternativa é muito pior. Se salários fossem elevados por decreto estatal, e não pela sua produtividade, não haveria mais miséria no mundo. A realidade é dura mesmo. O capitalismo industrial ajuda a suavizá-la, e muito.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

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