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Rodrigo Constantino

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O que João de Deus e Lula podem ter em comum?

Por Rafael Valladão, publicado pelo Instituto Liberal

O médium João de Deus é o assunto do momento. Acusado de assediar e abusar sexualmente de mulheres que buscavam seus tratamentos esotéricos, o líder religioso parece ser mais um caso lamentável de denúncia de abuso de poder espiritual. Após ser denunciado no programa Conversa com Bial, mais de duzentas mulheres foram ao Ministério Público ou à Polícia Civil prestar queixa por abusos sofridos pelo médium. O número elevado de denúncias tem regularidade: indicam fortemente que o médium tirou proveito da vulnerabilidade emocional dessas mulheres e abusou delas, seguro de que sua eminência religiosa o protegeria das investigações. A certeza da impunidade viria da sensação lisonjeira de autoridade com que João de Deus aliciava suas vítimas. Podemos dizer que o culto à personalidade do médium é bastante parecido ao apelo messiânico em torno de Lula, o chefe da quadrilha petista. Separados pelas proporções de suas respectivas funções, João de Deus e o ex-presidente têm em comum a aura de semideuses louvados por seguidores alienados.

João de Deus utilizava de seu centro espiritualista como uma fortaleza narcísica: todas as práticas remetiam à sua figura. Localizada nos rincões de Goiás, a casa Dom Inácio de Loyola era o destino de centenas de fiéis que buscavam a ajuda do médium. Pessoas doentes ou desiludidas vinham em romaria até Abadiânia para buscar a cura espiritual pelas mãos abençoadas do líder religioso. O ambiente misterioso contribuía para seduzir homens e mulheres desacreditados da medicina. Diferentemente de lideranças religiosas normais, como padres ou babalaôs, João de Deus criou um cenário místico em que fosse o protagonista isolado. No site oficial da Casa há depoimentos de pacientes de João de Deus com comovidos agradecimentos. Transcrevemos abaixo o depoimento assinado por “Demar Buchwitz”, datado de 2013. Note-se a imagem messiânica colada ao curandeiro.

“Bendito médium, bendita Casa de D. Inácio, benditos médicos do espaço. É graças a eles que estou aqui escrevendo. Há 10 anos passados fui TOTALMENTE curado de um câncer grave, incurável pela Medicina convencional. Não fossem eles, teria morrido aquele tempo, pois a minha previsão de vida era de, no máximo, seis meses. Não fiz nenhum tratamento através da Medicina Convencional porque de nada adiantaria. QUE DEUS OS ABENÇOE ABUNDANTEMENTE. (tenho biópsia, atestado médico sobre a incurabilidade da doença pela medicina terrestre; exames anteriores e posteriores). Conheço, também, de forma direta, outros casos incuráveis que, na Casa, obtiveram a cura plena.”

É fácil concluir que o médium criou uma seita em Abadiânia, o que não significa dizer que todos os centros espiritualistas ou espíritas sejam adeptos de algum tipo de seita. Há inúmeras instituições do gênero espalhadas por todo o Brasil: muitas voltadas a obras de caridade e ao trabalho de assistência à comunidade – nenhuma menos respeitável por causa da perversão apontada no médium goiano. O patrimônio pessoal de João de Deus cresceu de modo suspeito na medida em que a Casa Dom Inácio de Loyola ganhava fama. Para criar seu pequeno império místico, João de Deus se utilizou do poder espiritual. Uma das particularidades desse tipo de poder é a sedução afetiva com que a liderança religiosa domina seus subordinados. É assim exercido de modo pessoal espiritual. Para tornar possível essa relação de poder, o líder sectário necessita apresentar-se ao público como um homem iluminado pelos céus e movido por sentimentos nobres como a compaixão e a caridade. A obediência ao poder espiritual é tão enraizada na humanidade que antropólogos concordam que as sociedades humanas geralmente começam com vínculos religiosos – foi assim que os índios brasileiros atribuíram autoridade ao pajé, o líder religioso da tribo.

Parece que a obediência ao chefe espiritual é uma inclinação antropológica do indivíduo, uma tendência gravada em nossa genética ao longo da evolução humana. Não por acaso, a política moderna, baseada no exercício impessoal e racional do poder, é uma invenção que contraria as nossas tendências naturais de coletivismo e misticismo. É claro que a religiosidade e o senso de comunidade são traços da natureza humana, e não surpreende que tantos políticos tenham se aproveitado desses traços para aprofundar e consolidar seu poder. Essa relação promíscua entre o poder político e o poder espiritual se tornou mais intensa a partir da modernidade, quando a Coroa se separou da Igreja. Um rei-papa seria terrivelmente poderoso e a separação entre as esferas religiosa e mundana evitou o acúmulo de poder nas mãos do Estado. Não por acaso, o socialismo quer abolir a religião: ele precisa eliminar os fatores afetivos e mentais que separam o indivíduo do Estado. Pois é claro que um homem dominado pela política é um homem cuja religião é a própria política – é a religião civil. O historiador Nelson Lehmann da Silva explorou brilhantemente o tema no livro A religião civil do Estado moderno, um ensaio que nos mostra como a política quis tomar o lugar da religião como um objeto de fé.

O conceito de religião civil aparece em Hobbes e Rousseau, principais filósofos do Estado moderno. Quando consultamos a história da civilização, vemos que um dos produtos centrais da modernidade é a laicização da atividade política. Ao longo de acontecimentos tortuosos e sangrentos como as guerras travadas entre católicos e protestantes, a política pouco a pouco deixou de ser considerada matéria de fé. Os poderosos se viram obrigados a laicizar seu poder, ou seja, legitimar racionalmente o exercício de suas atribuições. Foi assim que o governo moderno tornou-se uma instituição voltada à execução de tarefas mundanas como a administração dos serviços públicos. Esse processo de laicização da política se encaixa no conjunto de transformações formais e mentais que caracterizou a modernidade. Para o sociólogo alemão Max Weber, toda essa transformação formal-mental representava a racionalização da vida em sociedade. Quando a fé cedeu lugar à razão na gestão dos negócios políticos, ocorreu o que Weber chamou de desencantamento do mundo. Na contramão da evolução histórica, o socialismo pinta seus líderes como profetas que respondem aos apelos por redenção espiritual e ao clamor por mudança social. Lula é o profeta – os petistas são os fiéis.

A resposta à pergunta-título deste texto é simples: ambos se utilizam de elementos religiosos para ampliar seus poderes mundanos. Pois não é difícil concluir que João de Deus não tinha nenhuma preocupação propriamente religiosa com seus fiéis, se o médium tiver abusado sexualmente das mulheres e provavelmente extorquido o dinheiro dos demais. Dizer que um tal charlatão goiano seria um religioso comum significaria insultar todos os líderes religiosos que, do Oiapoque ao Chuí, ajudam tantos brasileiros a cultivar sua fé. O interesse de João de Deus talvez fosse apenas criar um círculo idólatra em seu louvor. Já o ex-presidente Lula, um profissional da política, realizou o percurso inverso: foi colher na religião os ingredientes espirituais de que necessitava para temperar seu poder político. É preciso dizer que o lulopetismo se transfigurou em seita mais precisamente no momento em que o PT entrou em crise: com o impedimento de Dilma e as denúncias de corrupção contra a cúpula do partido, incluindo o patriarca petista. Enquanto esteve no comando da presidência da República, Lula tentou se fazer de bom republicano e não estimulou tanto o culto à sua personalidade. Quando se viu no caminho da prisão, porém, Lula acionou a máquina ideológica do PT e se afirmou como o profeta carismático da inclusão social. Se é verdade que um dos efeitos da crença cega é a negação da realidade, então alguns exemplos podem ser úteis.

Quando o escândalo estourou em Abadiânia, os seguidores fiéis de João de Deus se sentiram perplexos. Parecia-lhes absurdo que o mesmo homem caridoso das curas espirituais fosse capaz de descer à baixeza moral do abuso sexual. Em entrevista concedida ao programa Fantástico, algumas visitantes alemãs da Casa Dom Inácio de Loyola disseram não acreditar nas denúncias contra o médium. Como essas turistas, outras pessoas provavelmente se sentiram desconfiadas – afinal João de Deus era incorruptível. O mesmo poderia ser dito de líderes evangélicos como Silas Malafaia, que, investigados por crimes de lavagem de dinheiro, ainda se apresentam ao público como homens limpos e moralmente inquestionáveis. Todo esse culto à personalidade é incomum nas religiões em geral, mas é frequente nas seitas – entendidas como religiões pervertidas.

As seitas geralmente se compõem de fanáticos vinculados espiritualmente pela prática de rituais e pela observância estrita de códigos de conduta. Não raro encontramos seitas em que o líder espiritual é o chefe pessoal de seus membros. Nelas é frequente a confusão entre o material e o imaterial. O lulopetista também arrebanhou fiéis devotados. Quando foi preso, Lula recebeu o apoio sectário de seus seguidores na forma da greve de fome por justiça no STF, em que alguns militantes fizeram um pacto de não-alimentação até que Lula fosse absolvido pelos ministros do Supremo. A greve foi acompanhada pelo jornal Brasil de Fato, linha-auxiliar do PT, que produziu reportagens sobre o estado de saúde dos militantes, como se se tratasse de coisa banal. Parecia-lhes legítimo ameaçar o próprio organismo em favor de um criminoso contumaz como Lula. Entre os militantes envolvidos, o depoimento de um deles é interessante e o transcrevemos abaixo:

“Quem tá na militância pode dizer: não temos muito tempo para ter medo. Do ponto de vista pessoal, estou muito seguro. Se for preciso, a gente coloca a vida em disposição. Se eu não voltar, não tem problema. A gente cumpriu uma tarefa. Quem tá na militância pode dizer: não temos muito tempo para ter medo”.

Note-se que o militante põe a própria vida à disposição de Lula. Não interessa se ele daria ou não a própria vida em favor do patriarca petista – as ideias persuadem mais que a prática. Lula foi o político profissional que ascendeu ao poder com base na militância sindical e que, no poder, se corrompeu e arrastou o Brasil à crise econômica que explodiu em 2015. Para os fiéis do lulopetismo, porém, Lula se transformou em mártir dos pobres e sua santidade não poderia jamais ser questionada por tribunais mundanos ou homens de pouca fé. Deificado pela grande mídia, admirado por artistas e cultuado por movimentos sociais, o ex-presidente se sentiu encorajado a manter-se acima do bem e do mal, intocável pelas leis e imune a críticas. Seu senso de impunidade se parece com o verificado no caso João de Deus. O médium teria dominado seus seguidores como Lula hipnotizou seus fiéis – ambos abusaram do poder.

Agora devemos esperar e ver se João de Deus, caso seja preso, terá à sua disposição uma horda alucinada de militantes dispostos a dar a própria vida em favor do líder.

Referências

  1. Casa Dom Inácio de Loyola, Depoimentos. Disponível em http://joaodedeus.com.br/plus/modulos/conteudo/?tac=depoimentos

2.  Jaime Amorim: greve de fome em nome da esperança. Disponível em http://www.mst.org.br/2018/08/08/jaime-amorim-greve-de-fome-em-nome-da-esperanca.html

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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