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Rodrigo Constantino

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Os intermediários: a democracia representativa é lenta e corrupta, mas necessária

Ao ser diplomado presidente eleito, Bolsonaro fez um discurso de união, alegando que governará para todos os brasileiros, sem distinção de origem social, raça, sexo, cor, idade ou religião. Foi uma sinalização boa, apesar da indelicadeza da ministra Rosa Weber, que achou prudente dar “aula” sobre direitos humanos e democracia àquele que teve quase 60 milhões de votos nas urnas.

Mas, em outra fala, Bolsonaro deixou transparecer um viés populista: “As eleições revelaram uma realidade distinta das práticas do passado. O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram relação direta entre eleitor e seus representantes”. O futuro presidente tem um ponto: se dependesse só do establishment e da mídia tradicional, alguém como ele jamais teria vencido.

Venceu, e justamente graças a um discurso contra a política tradicional, turbinado pelas redes sociais. A insatisfação popular com as instituições democráticas tem sido combustível para mudanças radicais mundo afora, como os fenômenos Trump e Brexit atestam. Não fosse um distanciamento cada vez maior entre governantes e governados, e um instrumento capaz de mobilizar os revoltados, isso não seria possível.

Há, portanto, um lado positivo inegável no que Bolsonaro descreve. Mas há um lado negativo também, que não pode ser ignorado. Quase todo aquele que se colocou como representante direto do povo contra as elites poderosas descambou, historicamente, para um populismo autoritário, ou viu como resultado desse clima de revolta o surgimento de revoluções sangrentas.

James Madison, nos escritos federalistas, reconhecia a importância da república para impedir brigas de facções. É um modelo imperfeito, sem dúvida. Mas isso não significa que alternativas sejam melhores. Se cada um falar direto com o Messias, poderemos terminar com uma tremenda cacofonia. Os intermediários servem para filtrar parte desse barulho e organizar a bagunça, definindo prioridades e, supostamente, agregando conhecimento específico aos temas debatidos.

Ou alguém acha mesmo saudável um governo por meio de plebiscitos constantes sobre tudo que é pauta em discussão? Vamos decidir medidas econômicas complexas por meio de enquetes no Twitter? Essa é a própria definição de populismo. A democracia representativa, por sua vez, exige concessões e negociações entre os eleitos, o que pode até reduzir o dinamismo do processo, mas costuma ser mais pacífica e segura do que a “democracia direta” de um “déspota esclarecido”.

Às redes sociais cabe a missão descrita por Paulo Guedes: dar uma “prensa” nos representantes eleitos. Ou seja: cobrar deles, mas não os substituir. Os intermediários, numa democracia, continuam sendo vitais.

Artigo originalmente publicado na revista IstoÉ

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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