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Rodrigo Constantino

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Pregando no deserto: mais uma homenagem a Roberto Campos

Seguindo nas homenagens ao nosso aniversariante de hoje, Roberto de Oliveira Campos, segue o texto que escrevi como depoimento para o livro O homem mais lúcido do Brasil, organizado por Aristoteles Drummond e com depoimentos de Meira Penna e Francisco Mussnich e prefácio de Ives Gandra Martins:

Pregando no Deserto

“Os riscos da incompetência privada são limitados; os erros da incompetência pública, ilimitados.” (Roberto Campos)

O economista e diplomata Roberto Campos foi, sem dúvida, uma das grandes figuras públicas brasileiras no século passado. Detentor de uma rara objetividade, de uma visão imparcial dos fatos e de um grande senso de humor, Campos participou dos mais importantes acontecimentos históricos da nação em uma posição privilegiada de observador próximo, muitas vezes como agente ativo inclusive. Seu denso livro de memórias, Lanterna na Popa, acaba sendo um livro da história do país durante o período de sua vida, contada por uma mente lúcida, que teve a oportunidade de vivenciar vários fatos relevantes, e que infelizmente não foi capaz de influenciá-los mais. Ele tentou, usando de sólidos argumentos. Lamentavelmente, a racionalidade não era esporte predileto abaixo da linha do Equador.

Logo no começo do livro, Campos afirma que o igualitarismo, que trouxe como inevitável conseqüência o dirigismo estatal, busca socializar os resultados da produção, gerando em sua forma extrema o comunismo, que socializa os meios de produção. Isso gera somente pobreza e miséria. Essa visão hoje é amplamente aceita, até porque negá-la seria fechar os olhos para toda a nefasta experiência que deixou um rastro de milhões de mortos, fora outros tantos milhões de miseráveis. Mas, na época de Campos, essa visão era a predominante por aqui, conquistando muitos adeptos. Em sua forma moderada, o igualitarismo produz o welfare state, que ainda é visto por muitos como um ideal a ser alcançado. Roberto Campos, ao contrário, já compreendia que esse modelo é infinitamente mais ineficiente que aquele de livre mercado.

Um ponto em que Campos sempre concentrou seus esforços de persuasão foi a visão de que nossos males têm causa exógena. Ele fez de tudo para mostrar que nossa pobreza “não pode ser vista como uma imposição da fatalidade”. Ela é resultante de um “mau gerenciamento e negligência na formação de capital humano”. O Brasil conviveu muitos anos – e ainda convive – com a busca por bodes expiatórios que pudessem ser responsabilizados pelos nossos fracassos. Os Estados Unidos, o FMI, a globalização – muda-se o alvo, mas se mantém a mesma desculpa esfarrapada de sempre, evitando uma autocrítica que permita um aprendizado através das falhas. Eis o caminho de permanecer na mediocridade. E eis o que Roberto Campos sempre combateu.

Os modismos ideológicos sempre incomodaram muito Roberto Campos. Ela menciona que em uma determinada época a moda era enaltecer o totalitarismo de direita, na imagem de um déspota esclarecido, apenas para virar moda depois o totalitarismo de esquerda, sob a capa das “democracias populares”. O que faltou sempre foi bom senso, respeito à lógica e apreço pela liberdade individual. Dependendo da fase do modismo, o rótulo usado para descrever Campos mudava. Os esquerdistas, por exemplo, gostavam de chamá-lo de “reacionário”, enquanto a defesa do verdadeiro progresso vinha justamente dele, contra o retrocesso pregado pelos seus detratores.

A revolta dos falsos nacionalistas foi uma constante na vida de Campos. Entre os principais motivos, estava a criação da Petrobrás. Ele sempre defendeu a competição no setor, através de empresas privadas, inclusive as de capital estrangeiro. De onde vinha o dinheiro não lhe preocupava, mas sim ter a produção do importante produto. Eis o modelo americano, país onde o petróleo não poderia ser mais estratégico! Mas os devaneios nacionalistas falaram sempre mais alto que a lógica, e um monopólio estatal foi criado, com enormes custos para a população, muitas vezes ignorados pela visão míope que olha apenas um lado da moeda e esquece-se dos custos de oportunidade.

O mesmo princípio iria levá-lo mais tarde a combater duramente a famosa Lei da Informática, de 1984, que rejeitava capitais estrangeiros nesse setor fundamental para o avanço econômico. O resultado não poderia ser diferente: condenar o país ao atraso tecnológico. Na Constituinte de 1988, lutou também contra a exigência de maioria de capitais nacionais na exploração mineral. O colosso em que a CVRD se transformou após a privatização não deixa dúvidas sobre o que o próprio Campos constatou: “Em todos os três casos, estava redondamente certo”. Infelizmente, foi derrotado em todos. O Brasil perdeu.

O exemplo do sucesso asiático, quando comparado com o fracasso brasileiro, expunha a enorme oportunidade perdida, que tanto angustiava Roberto Campos. Um dos alvos era o câmbio artificialmente fixado, enquanto ele defendia uma livre flutuação. Mas para ele, a diferença relevante estava entre o desenvolvimento orientado para a exportação, que “impõe o constrangimento da eficiência”, ou o desenvolvimento introvertido, que “acoberta ineficiências através do protecionismo”. Que país poderia ser o Brasil hoje se as idéias de Campos tivessem tido eco naqueles dias!

Enquanto ainda hoje são poucos os economistas que leram – quiçá absorveram – as idéias da Escola Austríaca, nos tempos de Campos essa quantidade era ainda menor. Ele afirma no livro que “verificou-se que as objeções dos liberais austríacos às economias planificadas, proferidas na década dos vinte, eram absolutamente válidas e incrivelmente proféticas”. Quanto absurdo poderia ter sido evitado se figuras como Hayek e Mises fossem mais estudadas! Na contramão da história, os economistas brasileiros adoravam as idéias da CEPAL, que fracassaram em todos os países latino-americanos que revolveram aplicá-las. Preferiram, em suma, acreditar nas “veias abertas da América Latina”, mas acabaram seguindo o “manual do perfeito idiota latino-americano”.

O livro de memórias de Roberto Campos conta o filme do Brasil no século passado, um filme que poderia ter um final muito feliz, tivesse tido como roteirista Roberto Campos. Talvez não seja tarde demais para isso. Não se pode voltar no tempo, mas se pode mudar o futuro. A tragédia bate à porta, com uma inacreditável insistência nos mesmos erros antes cometidos. Muito daquilo que ainda se discute no país já possui resposta em Roberto Campos. Analisar o que poderia ter sido serve para alterar o que vai ser. A lanterna na popa que Roberto Campos acendeu pode ainda ser uma luz na proa, iluminando nosso futuro. Basta vontade para tanto!

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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