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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Quem se diz traído por Alexandre Frota tem culpa no cartório

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Alexandre Frota é um oportunista traidor. Isso, agora, está claro para os bolsonaristas. A questão é: como não estava claro antes?! Acharam mesmo que Frota era um sujeito sério, um patriota lutando pelo Brasil, e acharam de bom tom ignorar sua postura e seu passado?

Recordar é viver: nessa época de campanha, Frota tinha “moral”, segundo Eduardo Bolsonaro. “Destaco ainda que Alexandre Frota não é ficha suja, logo, tem muito mais moral sim do que vários ministros corruptos que já tivemos”, escreveu o futuro embaixador brasileiro nos EUA, se o Senado cochilar na sabatina.

Não era um “ex-ator pornô”, um boçal, como agora os bolsonaristas se referem a ele? Sem dúvida. Mas não eram oportunistas os que defendiam ele naquela época, por conveniência eleitoral e pragmatismo? Frota era um “mal necessário” pois mobilizava militância, subia em palanques com Bolsonaro, e xingava os adversários. Era um ídolo da turma.

Hoje bancam as vítimas de traição. “Se minha mulher dizia que me amava e me traiu, devo continuar com ela?”, pergunta um leitor. Minha resposta: se você casou com uma ex-atriz pornô claramente oportunista, tosca e barraqueira, e acreditou nas suas juras de amor eterno, então lamento, mas você merece ser corno!

Outro leitor, incomodado, rebateu: “Pela sua resposta então concluo que o Frota é um mau caráter que enganou a todos e o Eduardo Bolsonaro é culpado por ter sido enganado por ele? Quer dizer: a vítima é culpada? Me lembrou a Maria do Rosário”. Expliquei: se você for subir a favela de noite com um Rolex de ouro no pulso e for roubado, você será vítima, mas terá culpa sim, ou ao menos responsabilidade por ter sido otário, negligente.

Eis meu ponto: o bolsonarismo não se deixa guiar por princípios, mas sim por lealdade pessoal, como toda tribo. Bolsonaro é o cacique, e é a ele que todos devem obediência e reverência. Ele é o “mito”, afinal de contas. Quando Frota era puxa-saco de Bolsonaro, seus defeitos, já visíveis, eram ignorados.

Ele era tosco, tinha passado condenável especialmente para moralistas que pretendem “resgatar a alta cultura”, soava um tanto oportunista, e mesmo assim era o queridinho do clã, o “futuro ministro da Cultura”, em tom de brincadeira. Mas Frota detonava qualquer um que ousasse tecer uma crítica ao chefe!

Sei disso pois fui alvo do baixo nível dele. Eu e tantos outros. Mas na ocasião ele era defendido pelos bolsonaristas fanáticos. Estamos numa “guerra” e “vale tudo”, ou seja, precisamos de nossos soldados brutamontes também, eis a lógica do raciocínio bolsonarista. Frota era o máximo! Sua tosquice não era defeito, mas qualidade, pois direcionada contra os adversários de Bolsonaro.

Notem que a traição a qual bolsonaristas se referem não é a princípios ou valores, mas ao bolsonarismo! Frota continua o mesmo. Mudou apenas de lado, de discurso, mas sua essência continua a mesma. E ele era condenado por mim e outros liberais por isso, mesmo que defendendo causas razoavelmente alinhadas.

O que o caso da expulsão de Frota e da reação bolsonarista, que hoje lembra de seu passado como ator pornô, demonstra é como o bolsonarismo se parece com um movimento tribal. E por bolsonarismo não quero dizer, naturalmente, todo aquele que apoia o governo em linhas gerais, mas o perfil típico de seita, de gado que passa pano em qualquer deslize do presidente e só vive para puxar seu saco. Não é o caso, por exemplo, do governador de SC, que mostrou independência nessa entrevista:

Quando falei ‘não sou um mini Bolsonaro’, causou um estresse. Porque achavam que podia prejudicar a campanha. O que quis dizer é que o que a gente vê nas redes sociais são militâncias extremas, ou extrema-direita ou extrema-esquerda, o pessoal da arminha. Para mim é muita sandice essas coisas. Não vejo um homem público com esse tipo de comportamento ou copiando. Cada um faz o que quer, enfim. Não preciso copiar comportamento. Tenho as minhas próprias ideias. A essência da declaração foi dizer que não irei repetir comportamentos, terei ideias próprias, com convicções.

O líder do PSL na Câmara também foi na linha de pregar mais tolerância às divergências, para não virar o PT da direita. Um dia após a expulsão do deputado federal Alexandre Frota (SP) do PSL, o líder do partido na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (GO), negou que o partido seja intolerante ou intransigente. Segundo ele, as divergências são naturais e ocorrem inclusive no âmbito pessoal ou familiar.

“A gente não pode ser intransigente, querer puritanos no PSL. Se não, vamos virar um PT à direita”, disse Waldir em entrevista à Rádio Eldorado. “Temos de respeitar as diferenças. O que não queremos é extremista de esquerda. Agora dizer que queremos (pessoas) 100% de direita é exagero político, essa não é a pretensão do PSL”.

Frota passou dos limites nos seus ataques e merecia a expulsão. Mas isso gera um problema: qual o critério? Janaina Paschoal também vem criticando bastante certas posturas do presidente. Vai ser expulsa? A fidelidade exigida é partidária, ideológica ou pessoal? Há espaço para ser do partido, apoiar o governo de forma geral, mas tecer críticas construtivas ao presidente ou aos seus filhos?

No caso do PT, o que sempre vimos foi total lealdade a uma pessoa. Lula sempre foi a estrela, o guia, o cacique cuja mão todos deveriam beijar. Nesse aspecto, como em outros, o bolsonarismo se assemelha ao petismo. Se o próprio Bolsonaro trair algum princípio conservador ou promessa de campanha, se tentar colocar panos quentes nas investigações para proteger seu filho, se desistir de privatizar estatais, ele vai ser acusado ou defendido pelos bolsonaristas?

Quem sempre alivia sua barra, passa pano em todos os erros e detona qualquer crítico não é fiel aos princípios que Bolsonaro supostamente incorpora, mas sim ao próprio Bolsonaro. E lealdade a uma pessoa, em vez de valores, é coisa típica de tribo radical. Não é saudável para a política ou a democracia.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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