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Saindo do armário: o voto envergonhado em Bolsonaro
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Conversava com um médico, morador da Tijuca, Rio de Janeiro. Ele, sabendo que sou economista, trouxe à tona o assunto política. Quis saber minhas opiniões sobre o cenário atual. Incorporei o Leandro Karnal e disse apenas platitudes para começar, tateando o ambiente. Falei do concurso de feiura, da necessidade de escolher o menos pior por eliminação, da grave crise nacional.

Ele, então, assumiu o protagonismo, e passou a falar da decepção com os políticos em geral, e mencionou que, perto de sua casa, onde pega o ônibus do condomínio de sua mãe para atender no consultório da Barra, vive tendo assaltos, com pivetes abusados que atormentam os moradores sem qualquer preocupação com as autoridades.

Ali eu já tinha percebido que o médico estava doido para “sair do armário”, mas não estava seguro da minha opinião, e certamente temia meu julgamento. Sair declarando voto em Jair Bolsonaro, em certos meios, pode ser algo perigoso, um atestado de “boçalidade”, um carimbo de “reacionário”.

Por isso ele foi comendo pelas beiradas, colocou o tema da segurança no ar, e quando eu dei a deixa ele pegou o gancho, aliviado: “Vou de Bolsonaro mesmo! Votei com convicção no passado e só me ferrei. Dessa vez voto sem tanta convicção, mas vai que dá certo, não é mesmo?”

Trago essa experiência pois estou certo de que ela se repete aos milhões Brasil afora. Após tanta campanha difamatória da imprensa, e declarações realmente bizarras do próprio candidato, o fato é que muitos potenciais eleitores morrem de medo de assumir seu voto em alguém tido como “extremista”, “tosco”, praticamente um Hitler estuprador de mulheres que espanca gays.

Só que essa gente toda está revoltada com o establishment, esgotada do sistema atual corrupto, indignada com a violência e desconfiada de tudo que sai na imprensa, claramente parcial. Por outro lado, Bolsonaro já virou uma ideia, um símbolo, e o que ele representa – sendo verdade ou não – é o que atrai tanto apoio, ainda que envergonhado em muitos casos.

Ele representa um grito de desespero, um basta, um “outsider” em relação ao establishment, não importa que em seu sétimo mandato como deputado. Representa, também, um protesto contra esses corruptos todos, e uma reação ao esquerdismo que destruiu nosso país. É o anti-Lula por direito, é a mosca na sopa da mídia “progressista”, é a reposta ao desarmamento fracassado.

Tudo isso fala às emoções mais do que à razão, e daí o desespero de quem tenta expor eventuais incoerências do candidato, ou seu passado efetivamente tosco, com declarações estúpidas. Mas há, com Paulo Guedes, também a possibilidade de uma guinada liberal na economia, o que justificaria a adesão dos mais moderados.

O grosso do apoio até aqui, porém, dá-se mais pela questão do simbolismo de sua candidatura em termos de resposta ao caos em que o Brasil mergulhou após décadas de esquerdismo. Só que em ambientes mais “civilizados” e elitistas, não pega bem confessar que vai embarcar nessa “aventura”, que jogou a toalha e chutou o balde, e agora quer uma reação dura e “partir pro pau” contra essa cambada de vagabundos e marginais. Não pega bem dizer, mas é o que cada vez mais gente está pensando…

Sair do armário era sinônimo de se assumir gay, mas isso não exige mais coragem alguma em determinados lugares. No Projaquistão, por exemplo, ser gay assumido conta créditos extras. Mas vai declarar apoio a Bolsonaro para a GNT people! Isso sim, demanda coragem. Daí o silêncio de muitos eleitores.

Fenômeno similar ocorreu nos Estados Unidos com Trump. Como ele é fanfarrão e a imprensa toda, à exceção da Fox News, massacrava o sujeito o dia inteiro, com rótulos extremamente depreciativos, era praticamente suicídio social ou profissional declarar-se um simpatizante do republicano. Guga Chacra chegou a afirmar que Trump seria derrotado pois não conhecia ninguém que votaria nele, confundindo sua bolha com a nação, e ignorando o fator “voto sigiloso e envergonhado”, nada desprezível.

Fazendo análise em vez de torcida, contudo, podemos avaliar que algo parecido deve acontecer nessa eleição brasileira. Muitos estão tímidos, acanhados, receosos de abrir ao público sua escolha pessoal, pois sabem que aquela tia “progressista” vai lançar um olhar no almoço de domingo como quem está diante de um Hannibal que acaba de confessar que pratica canibalismo.

Nem todos têm o perfil de comprar essa briga, e às vezes falta saco mesmo. Melhor ficar quieto e tascar 17 na urna eletrônica, na esperança de ela efetivamente computar essa escolha, já que o voto é secreto. O médico admitiu, mas nem todos têm essa coragem. E esse apoio silencioso não é capturado pelas pesquisas feitas pessoalmente.

Podemos estimar, então, que Bolsonaro, que já lidera as intenções de voto, tem ainda mais do que as pesquisas apontam. E também é razoável supor que cada novo assalto, cada novo crime, produz novos eleitores para ele. É mais gente vítima do caos que passa a enxergar no capitão um brado retumbante contra “tudo isso que está aí”.

Se uma eventual vitória sua vai mesmo resolver o problema é outra história. Eleição não se trava no âmbito da razão pura e das propostas concretas, e sim do imaginário popular e das emoções. Mas, justiça seja feita, àqueles mais exigentes que cobram argumentos sólidos e uma agenda de reformas concretas, Bolsonaro oferece o selo de qualidade Paulo Guedes. Votar nessa agenda liberal não é motivo de vergonha alguma em círculos mais esclarecidos…

Rodrigo Constantino

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