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Rodrigo Constantino

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Seriam os caminhoneiros uma espécie de MST do bolsonarismo?

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O governo anunciou nesta terça-feira (16) uma série de medidas para atender às demandas dos caminhoneiros e evitar uma nova greve da categoria.

As ações incluem desde crédito via BNDES e melhor fiscalização da tabela do frete até a construção de espaços para descanso dos motoristas nas estradas e obras de infraestrutura para melhoria das condições das rodovias.

À tarde, o presidente Jair Bolsonaro vai se encontrar com a diretoria da Petrobras. Dessa reunião pode sair a definição de uma política de preços para o óleo diesel.

Uma das principais medidas anunciadas na manhã desta terça é o lançamento de uma linha de crédito específica para o caminhoneiro autônomo. Eles vão poder captar até R$ 30 mil para aquisição de pneus e manutenção dos seus veículos. A linha será subsidiada pelo BNDES, que vai liberar até R$ 500 milhões nesta primeira fase. O programa está restrito a dois caminhões por CPF.

Na coletiva de imprensa que detalhou as medidas, os ministros presentes foram questionados se o lançamento do pacote demonstrava que o governo está refém dos caminhoneiros. Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Tarcísio Gomes de Freitas (Insfraestrutura) negaram.

“Não se tratar de ficar refém. Eles estão pedindo tão pouco. Eles querem condição de estrada boa, eles querem poder descansar. O que custa atender esse pleito? É vontade. E a gente tem essa vontade”, afirmou Tarcísio.

Pode ser. Ou não. Pode ser que o governo de fato esteja refém dos caminhoneiros, pelo estrago de uma eventual greve e pela ligação entre categoria e bolsonarismo, já que o apoio dos motoristas foi relevante para a vitória na eleição. O editorial do Estadão fala disso:

Na campanha eleitoral do ano passado, o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro manifestou apoio à greve dos caminhoneiros que emparedou o governo, fez a sociedade de refém e causou imensos prejuízos econômicos a todo o País. Agora na condição de presidente da República, Jair Bolsonaro continua a agir como se fosse representante dos interesses dessa categoria profissional, em detrimento dos interesses dos demais brasileiros. “O presidente está do nosso lado”, comemorou Wallace Landim, vulgo “Chorão”, líder dos caminhoneiros.

“Chorão” tem acesso direto ao gabinete do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e foi graças a esse trânsito que, na semana passada, fez chegar ao presidente Bolsonaro a ameaça de nova paralisação caso a Petrobrás consumasse o anunciado aumento de 5,7% no preço do óleo diesel. Como se sabe, no mesmo dia Bolsonaro telefonou para o presidente da Petrobrás e mandou suspender o reajuste.

[…]

É bastante incômodo saber que líderes sindicais desse calibre têm tamanha influência sobre a cúpula do Executivo federal. Num passado recente, durante os governos lulopetistas, eram as centrais sindicais ligadas ao PT que desfrutavam da atenção incondicional do governo, gerando uma casta de privilegiados que impôs sua agenda retrógrada e economicamente danosa ao País. O mesmo parece estar acontecendo agora no governo de Bolsonaro, que, ao justificar a ordem para sustar o aumento do preço do diesel, se disse “preocupado” com os caminhoneiros, a quem prometeu tratar “com o devido carinho e atenção”. Pouco importam os efeitos desastrosos que esse “carinho” terá sobre o País e o conjunto da Nação.

[…]

O problema é que, ao premiar com “carinho” a truculência dos líderes daquela categoria, o presidente sinaliza que está vulnerável a todo tipo de pressão, especialmente daqueles que julgam estar na base eleitoral de Bolsonaro.

É tarefa do presidente da República preocupar-se com um movimento grevista que já se provou extremamente danoso para o País. Mas não cabe ao presidente, em nome desse imperativo, servir como porta-voz das reivindicações dessa ou de qualquer outra categoria profissional. Ao fazê-lo, Bolsonaro não só demonstra desconhecer a natureza do cargo que ocupa – ele não é procurador de interesses sindicais nem recebeu delegação para entregar a Nação, como refém, aos grupos que acreditam ter chegado com ele ao poder.

Em artigo publicado em seu blog, o economista Alexandre Schwartsman condena aqueles que tentam “passar pano” nas medidas do governo, que ferem a liberdade econômica, e lembra, como já fiz também, da postura bem diferente de uma Thatcher e um Reagan ao lidarem com ameaças sindicais corporativistas, mencionando que até mesmo FHC foi mais firme no Brasil:

Em maior ou menor grau a desarrumação dos preços traz consequências graves, o que já deveríamos ter aprendido, mas, como notei, vivemos em um país cujas elites políticas (quando não as empresariais) permanecem imunes ao aprendizado econômico. 

Sim, sim, há os “passadores de pano” de sempre, que defendem a decisão com base na lógica política de “acalmar” os caminhoneiros para que eventuais manifestações não prejudiquem o avanço da reforma da previdência. Algo assim na lógica de “salvar a economia, mesmo que sejamos forçados a destruí-la no processo”, um raciocínio de rara e atilada inteligência. 

Para quem testemunhou Margaret Thatcher encarar os mineiros de carvãoRonald Reagan os controladores de voo e Fernando Henrique Cardoso domar os petroleiros em 1995 só resta lamentar que haja ainda quem defenda a atitude servil para com certos grupos de pressão que pretendem manter privilégios à custa do resto da sociedade. Mas cada um tem o líder sindical que merece.

Diante disso tudo, alguns já começam a questionar: seriam os caminhoneiros uma espécie de MST do bolsonarismo? Claro que a comparação parece injusta quando lembramos que os caminhoneiros querem melhores condições de trabalho, e realmente dão duro na vida, enquanto os membros do MST vivem de invasões criminosas.

Mas a analogia pode fazer algum sentido quando analisamos os métodos de pressão para se obter vantagens do governo. Se vale tudo para evitar uma greve, então o corporativismo que faz ameaças ao país já venceu…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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