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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Simbolismo da visita de Bolsonaro aos EUA é importante, mas resta aguardar resultados concretos

A visita do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos foi, de forma geral, muito positiva. Não só por ser a primeira viagem oficial, após poucos meses de governo e com uma cirurgia no meio, como pelo tom amigável entre os dois líderes, estreitando um relacionamento que já deveria ser maior faz tempo. O antiamericanismo presente em nossa academia e imprensa sempre jogou contra os verdadeiros interesses nacionais.

O Brasil e os Estados Unidos compartilham de diversos traços culturais, apesar das diferenças, e o simbolismo de uma aproximação com o “farol da liberdade” do Ocidente, especialmente após a diplomacia ideologizada do petismo no eixo “sul-sul”, deve ser visto como importante. O Brasil tem muito a ganhar com isso, não só comercialmente falando, mas em termos mais intangíveis e até morais, para quem entende a guerra cultural em curso.

Claro, palavras são baratas, e tanto Trump como Bolsonaro gostam de falar, de prometer, de abusar da retórica. O mais importante é entregar resultados. A promessa de ajuda do presidente americano para colocar o Brasil na OECD, por exemplo, pode render bons frutos ao país, caso se concretize. Há, porém, contrapartidas exigidas, e não ficou claro até onde vai o grau de compromisso de Trump.

Tem também a questão da Venezuela, uma das que mais afligem o continente hoje. Ambos subiram o tom, Trump não descartou, uma vez mais, a alternativa militar, e Bolsonaro foi educado ao sair pela tangente e afirmar que são pontos estratégicos, que devem ser mantidos em sigilo. Uma ala do governo Trump, assim como uma ala do governo Bolsonaro, quer mesmo seguir na rota militar, ao que tudo indica.

Mas mesmo quem acha essa opção temerária deve entender que a ameaça crível tem papel importante na diplomacia. Maduro precisa acreditar que Trump e Bolsonaro podem mesmo partir para uma medida desesperada dessas, pois assim as sanções econômicas e a pressão internacional podem surtir mais efeito.

A retórica anticomunista também serve para efeitos da guerra cultural e para animar a militância engajada. Dizem que Trump estaria de olho no eleitorado latino, mas não é só isso. O Partido Democrata está cada vez mais radical, com socialistas assumidos como pré-candidatos. Ao rechaçar veementemente que a América será socialista algum dia, Trump está reforçando os valores liberais que fizeram desta uma grande nação. Há simbolismo relevante aqui também, como Reagan fazia nos tempos da Guerra Fria.

Dito isso, parece inegável que tanto Trump como Bolsonaro sejam um tanto fanfarrões, ou seja, adoram discursos, mas não necessariamente entregam o que prometeram. É verdade que Trump vem fazendo um bom governo, melhor do que razoável, mas muitas promessas ficaram no papel.

O muro no México, por exemplo, o que fez Ann Coulter, uma das principais apoiadoras de Trump na campanha, autora do livro Adios America, bastante influente na eleição, e também de outro livro In Trump we Trust, detonar o presidente republicano. O Obamacare continua valendo, outra promessa ignorada. Há conquistas, sem dúvida, como na parte tributária e na redução da burocracia, mas em geral o governo deixou a desejar até aqui. É bom, mas não é fantástico.

Trump e Bolsonaro venceram com discursos inflamados contra a mídia e a política tradicional, e precisam de inimigos o tempo todo, para mobilizar essa militância mais engajada. O problema é que no final do dia só os resultados vão importar, ao menos para os independentes. E os resultados, ainda que satisfatórios, não são essa maravilha toda que poderíamos imaginar ao observar a empolgação da base militante. Essa turma parece ligar mais para as “mitadas” do que para os dados concretos. Querem ídolos, não bons gestores.

No Brasil, por exemplo, Bolsonaro precisa entregar a reforma previdenciária, para começo de conversa. Eis a prioridade número um! Tweets polêmicos podem agitar a militância, fotos com troca de camisas de futebol com Trump podem render vários likes, mas ainda será preciso obter mais de 300 votos no Congresso para passar a reforma. E é isso – basicamente isso – que interessa de fato para o governo. Não os discursos revolucionários de Steve Bannon e Olavo de Carvalho…

Por fim, há uma preocupação legítima dos conservadores, americanos e brasileiros, com a postura de ambos os líderes em termos institucionais. Trump apelou para a “emergência nacional” na questão do muro, após fracassar nas negociações com o Congresso, e muitos alertaram para o perigoso precedente disso. Não deu certo, como era esperado, e ficou a mancha institucional. Bolsonaro declarou apoio a Trump na reeleição, o que não é correto para um presidente de outro país. É errado quando Lula faz com Maduro, e também quando Bolsonaro faz com Trump.

Mas eis o ponto: cada vez mais gente na direita populista faz vista grossa para essas “bobagens”, como se o conservadorismo não estivesse umbilicalmente ligado ao fortalecimento das instituições. Eles partem para um personalismo perigoso, para um “pragmatismo” exacerbado, que ecoa o slogan marxista de que os nobres fins justificam quaisquer meios. Estamos numa guerra, dizem, então vale tudo, ou quase tudo. Para o inferno com a liturgia do cargo, o respeito a certas tradições e instituições! O que importa é vencer, e ponto. Essa mentalidade, revolucionária e jacobina, não ajuda em nada a solidificar as instituições republicanas, meta primordial do conservadorismo de boa estirpe.

Em suma, tanto Trump como Bolsonaro podem ser bons presidentes, muito melhor do que as respectivas alternativas, sem dúvida, mas não devem ser cultuados, tornando-se “mitos”, pois outra característica fundamental do conservadorismo é o ceticismo com a política e o governo – qualquer governo. Os dois precisam ser constantemente cobrados, de forma séria e com críticas constitutivas, pela direita. Que a esquerda e a mídia vão apenas ataca-los de forma injusta e até pérfida, isso nós já sabemos. Mas não é por isso que “o lado de cá” deve fechar os olhos para erros, falhas e quebras de promessas. Ainda falta muito para que os dois sejam mesmo considerados estadistas. Discursos são fáceis; queremos ver resultados!

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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