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Rodrigo Constantino

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A tendência é o tempo jogar contra mitos: o que isso significa para Bolsonaro?

No filme “O Mestre”, Paul Thomas Anderson expõe o poder de sedução que uma personalidade forte e carismática exerce em alguém frágil, fraco e desesperado. Quem está sofrendo, sentindo dor, física ou espiritual, costuma ser presa mais fácil para oportunistas de plantão ou doidos varridos, que efetivamente se julgam messias. Mas o tempo costuma jogar contra esse tipo de guru.

O embuste, cedo ou tarde, torna-se mais aparente. O fim pode ser trágico, como o de Jim Jones e seus seguidores fanáticos, ou libertador, como vemos em testemunhos de gente que conseguiu se livrar do controle do seu guru, no documentário da Netflix sobre Osho. Mas o ponto central é que mitos não sobrevivem tanto tempo assim.

Normalmente critico as colunas de Ascânio Seleme, mas hoje ele acertou ao falar desse tema. O jornalista usou como gancho o caso de João de Deus, e fez um paralelo com a política, lembrando de Collor. E claro, aproveitou para alfinetar Bolsonaro:

Há quem acredite em médiuns. Houve quem acreditasse em João de Deus. Há quem acredite em salvadores da pátria. E houve quem acreditasse em mitos. Enganar crédulos é tarefa aparentemente fácil, sobretudo quando para estes resta pouca ou nenhuma esperança. Seja qual for a dor, do corpo ou do espírito, haverá sempre quem se apresente com a fórmula mágica para curá-la. Foi assim que o canastrão de Abadiânia enganou milhares de pessoas por 40 anos, oferecendo soluções “milagrosas” para doenças que a medicina e a ciência não conseguem curar. Em troca de apalpadelas aqui e ali.

[…]

No plano político ocorreu o mesmo com o ex-presidente Fernando Collor, que encantou o Brasil anunciando que limparia o país de funcionários públicos com supersalários. Depois, aproveitando-se da péssima fama do então presidente José Sarney, jurou que higienizaria o país da corrupção e que mandaria prender todos os políticos corruptos. Foi assim que consolidou a imagem de que era mesmo o homem fadado a levar o Brasil para o lugar de glória a ele reservado no panteão das nações. Foi o primeiro presidente a ser afastado por corrupção.

[…]

O que temos hoje, a duas semanas da posse do presidente Jair Bolsonaro, é um país que novamente acredita ter encontrado o homem que vai limpá-lo de um passado repleto de políticos de velhas práticas, de corruptos, do jeito petista e emedebista de governar, roubar e prestar favores. O Brasil pariu um novo mito. Mais da metade dos eleitores votou em Bolsonaro com a esperança de que ele cumpra o papel que pregou na campanha, que governe com pessoas honestas e que exerça o seu mandato de maneira ilibada e transparente.

O problema é a desilusão que ele pode causar. Pessoas que geram grandes expectativas, como foi o caso de João de Deus, Abdelmassih e Collor, causam grande decepção em seus seguidores fiéis quando caem trançados em suas próprias pernas, atrapalhados em seus malfeitos. Bolsonaro corre enorme risco de desiludir os brasileiros. Antes de tomar posse, já se viu enredado na questão dos repasses do assessor de seu filho Flávio Bolsonaro com dinheiro coletado de outros funcionários do gabinete. Se fosse só o filho, já seria grave, mas parte desse dinheiro foi parar na conta da sua mulher, o que é gravíssimo.

Não acho que todos, ou sequer a maioria, encaravam Bolsonaro como um mito mesmo. Mas é fato inegável que uma ala de sua base fomentou tal crença. E esses vão ou se decepcionar muito com a realidade, ou se transformar em hipócritas, em petistas com sinal trocado, que passam pano em tudo de ruim que surgiu sobre “seu” líder, atacando o mensageiro para fugir da mensagem.

Felipe Moura Brasil, que tem feito um ótimo trabalho como jornalista, atacou essa postura em certos eleitores de Bolsonaro por meio de dois tweets:

Nada contra quem encontrou em eleger um candidato ou uma candidata o sentido de sua vida, ou um meio de conseguir um cargo público, mas minha prioridade é o saneamento do ambiente cultural, sem vínculo com um projeto de poder, por mais saneador que seus apoiadores o julguem.

Militantes à esquerda e à direita não se acostumam com o tratamento realmente jornalístico (não militante) a esquemas direta ou indiretamente ligados a seus políticos (ou bandidos) de estimação. O foco é a busca da verdade sobre TODOS os casos, com análises dos fatos disponíveis.

Essa imparcialidade, essa isenção real, pode soar estranha àqueles que buscam mitos, gurus, guias espirituais. Mas não só o jornalista sério, como todo cidadão sério deve ser cético, ainda mais quando se trata de político. Quem crê mesmo em mitos, em messias, em santos, em gente acima do bem e do mal atuando como político, certamente irá se frustrar. É inevitável.

E o que isso significa para o governo Bolsonaro? Ora, como ele foi eleito com discurso purista contra corruptos, todo o “sistema podre”, é questão de tempo até que a realidade se imponha. Cansei de alertar que isso aconteceria, e que os “jacobinos de direita” se decepcionariam. Robespierre também acabou degolado pela turba que ajudou a incitar.

As implicações disso para seu governo foram bem descritas pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg em sua coluna de hoje. Bolsonaro montou um ministério bom, temático e com base em meritocracia, sem toma-lá-da-cá. Mas como implementar as reformas, que dependem do Congresso? Eis o desafio. Bolsonaro pretende usar sua popularidade para pressionar os políticos por meio das redes sociais. Sardenberg questiona:

Como obter maiorias para isso tudo? Apelando diretamente às bases via redes sociais — essa foi a clara indicação de Bolsonaro no discurso de diplomação. Ou seja, em vez de oferecer cargos e dinheiro aos parlamentares, o presidente eleito acena (ameaça?) com pressão exercida de fora.

Vai funcionar? — já perguntaram a Bolsonaro. A resposta dele foi interessante. Mais ou menos assim, em livre interpretação: ainda não sabemos, mas sabemos que o jeito antigo de fazer política não funcionou.

Observando a cena do lado dos deputados e senadores, a questão prática será a seguinte: aceitar a pressão e aprovar a agenda do governo ou resistir, emparedar o presidente e obrigá-lo a sair no varejo negociando votos?

Políticos experientes sempre tratam de adivinhar para que lado o vento sopra. E neste momento, e por um bom tempo, sopra a favor de Bolsonaro. Além dos recentes milhões de votos, sua popularidade melhorou das eleições para cá e uma boa maioria acha que ele fará um bom governo.

Tudo considerado, não é bom negócio — para usar a linguagem adequada — tentar emparedar o presidente. Melhor para a sobrevivência política, ao menos por ora, é votar a agenda do presidente, deixando claro que é agenda dele nos casos de temas mais controvertidos. Algo assim: olha pessoal, a gente não gosta muito dessas reformas, mas o presidente está pedindo. . .

Vai daí que Bolsonaro começa em boas condições para aplicar suas propostas. Mas não tem o tempo todo. Se demorar a definir suas prioridades, se ficar enrolando em debates internos, enfim, se não entregar algo concreto logo de saída, a popularidade e a força eleitoral vão se diluindo. E, na proporção inversa, aumenta o poder da velha política.

Eis a equação que temos posta: Bolsonaro conta com elevada aprovação e a força não só dos quase 58 milhões de votos, como da imagem de “incorruptível” que veio limpar a sujeirada no poder. Mas como isso é a construção de um mito, o tempo, que é amigo da razão, deve desconstruir essa fantasia e expor um homem comum, que atuou na política por três décadas, pertencendo ao baixo clero e a partidos suspeitos.

Logo, e aqui está a mais importante lição, Bolsonaro precisa agir muito rápido para aproveitar seu capital político e emplacar as reformas necessárias. O tempo joga contra ele, pois o verniz messiânico tende a ir derretendo a cada nova investida da imprensa investigativa. E não tenham dúvidas: os jornalistas vão trabalhar como nunca fizeram antes!

Bolsonaro corre contra o relógio. Ele tem boas chances de se tornar um estadista, aquele que estancou o processo de socialização do Brasil e iniciou um trabalho libertador, para reverter o quadro de hegemonia esquerdista e trazer mais liberdade e prosperidade ao povo.

Só que, para tanto, não pode perder tempo. Tem que promover uma agressiva agenda reformista logo no começo de seu mandato. Caso contrário, corre o risco de ver o mito afundar antes de o estadista ter chance de emergir.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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