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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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A traição das elites e a reação da classe média

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“O Brasil não tem jeito: o problema é o povo”. Todos estamos cansados de ouvir inúmeras pessoas repetindo isso e alimentando nosso derrotismo. Mas será verdade mesmo? Sou da opinião de que nossas elites representam um problema maior.

O povo – o dito povão – é parecido em todo lugar: relativamente ignorante e voltado para seus interesses imediatos. São as elites que supostamente lideram um país, para o bem ou para o mal, para o progresso ou para o abismo. Já resenhei o imperdível livro de Christopher Lasch sobre a “revolta das elites” e o que isso representa em termos de ameaça para a democracia.

O afastamento entre elites e povo tem sido tema recorrente aqui. É verdade que, no Brasil, as elites são desprezadas pelo povo também, pois a mentalidade invejosa predominante em nosso país odeia o sucesso, e pune os mais ricos e aqueles que se destacam. Muitos abandonam o país cansados desse ambiente hostil.

Mas, por outro lado, essas elites também desprezam o povo e se recusam a assumir o papel de liderança que lhes cabe. Ao contrário: nossas elites são campeãs na arte de trair o povo, a nação, e nossos interesses de longo prazo, em troca de migalhas – às vezes bilionárias, é verdade, mas ainda assim migalhas do ponto de vista moral, transformando essas elites em prostitutas – apenas prostitutas de luxo.

O apoio que boa parte de nossas elites deu ao PT comprova isso. O historiador Marco Antonio Villa citou essa parceria indecente em sua coluna de hoje, ao falar da “falência das elites”:

A seleção dos piores acabou, evidentemente, levando à falência das elites dirigentes. O empobrecimento moral associou-se à mediocridade intelectual. Que cena infame e vil. Meu Deus! Meu Deus! Que horror, como diria Castro Alves (que para os poderosos não passa de uma praça — ponto de partida dos trios elétricos no carnaval baiano). São Paulo é um bom exemplo. Em 1922, a célebre Semana de Arte Moderna teve como patrocinador a família Prado. E diversas ações culturais foram apoiadas pelos potentados locais. Cem anos depois, o quadro é muito diferente. O top é convidar para alegrar as suas festas Anitta, Pablo Vittar ou Jojo Todynho. E, se em 1954, quando do IV Centenário da fundação de São Paulo, William Faulkner, prêmio Nobel de literatura, visitou a cidade como convidado especial; hoje preferem os livros de algum padre de fancaria, um Santo Agostinho da decadência — e haja decadência.

O descaso com os rumos do país é muito claro quando nos aproximamos da elite financeira. Ela está no Brasil mas não vive aqui, apenas habita — há exceções, claro, mas são raríssimas. Seu mundo é, principalmente, os Estados Unidos e, secundariamente, a Europa. Lembra aqueles degredados do século XVI. O sonho é voltar à civilização — viver longe do Brasil. Quando tivemos de enfrentar e vencer o projeto criminoso de poder petista, que queria transformar o país numa Venezuela, o que fez o sistema financeiro? Silenciou, o que já seria um crime de lesa-pátria? Não, fez pior. Manifestou apoio ao PT até o final. Não custa recordar que Dilma Rousseff insistiu muito para que o presidente de um grande banco brasileiro fosse o seu ministro da Fazenda, quando do segundo governo. Só não obteve seu intento porque o banco não tinha um substituto para o cargo. Outro dirigente de banco, três meses antes do impeachment, deu uma longa entrevista a um periódico paulista defendendo de forma envergonhada a gestão petista, isto, volto a lembrar, quando o país já tinha conhecimento pleno do petrolão e as ruas eram ocupadas por milhões de brasileiros exigindo que a nossa bandeira não fosse vermelha. Ah se não fosse a classe média…

A classe média, aquela acusada pela “filósofa” petista Marilena Chaui de “fascista”, de fato salvou o Brasil do destino venezuelano. Se dependesse das nossas elites, em especial de professores, “intelectuais” e banqueiros, já seríamos uma nação bolivariana hoje. Esse fosso entre elites e povo tem aumentado cada vez mais, gerando a enorme crise de representatividade, tema de artigo de Gustavo Muller no GLOBO hoje:

Obviamente a desconexão vem de longe e não seria o caso de recapitular o que já foi tratado por autores como Raymundo Faoro, Sérgio Buarque e outros que descreveram os diversos regimes políticos que atravessaram a história do Brasil, mas tomando como marco temporal a Nova República, podemos dizer que 2013 foi o ponto de referência que marcou a atual desconexão.

Isto não significa que antes de 2013 existisse alguma relação mais enraizada entre representantes e representados, mas que a estabilização econômica de 1994, a transferência de renda promovida pelo governo Lula e o surto desenvolvimentista do primeiro governo Dilma forneceram à sociedade atalhos cognitivos para o estabelecimento de precárias identidades políticas auferidas a partir de desempenhos econômicos.

[…] Mas, ao invés de entender os acontecimentos, o sistema político, diante da Lava-Jato, buscou somente a sua autopreservação e deixou que as políticas públicas falissem ao mesmo tempo em que a crise fiscal, a violência e a sensação de desordem se alastravam.

[…] Quando as elites perdem seu senso de responsabilidade diante do eleitor/consumidor, a propaganda enganosa vira estelionato, e o estelionato gera a desconexão e a falta de legitimidade. Levando esse comportamento ao limite temos o que Levitsky e Ziblatt chamaram de “morte da democracia”.

Não sei se a democracia vai mesmo morrer, mas sei que ela é inviável enquanto as elites agirem de forma tão míope e egoísta, além de imoral. Ancelmo Gois dá um exemplo em sua coluna hoje de como esses representantes das elites, em especial da financeira, insistem em nada aprender com o passado e apostar em nova traição ao povo:

Um acionista de um dos dez maiores grupos nacionais apareceu com uma proposta para afastar o que considera um risco radical: um segundo turno com Jair Bolsonaro e Ciro Gomes. Seria assim: Marina viria como candidata e o PSDB indicaria o vice. Meirelles também voltaria ao governo para segurar o dólar, antes de a moeda americana chegar a R$ 6. Será?

Marina Silva com PSDB e Meirelles só é “salvação” na cabeça desses ricaços desconectados da realidade nacional, que fecham os olhos para o estrago moral causado pela esquerda “progressista”, que desconsideram a necessidade urgente de uma guinada à direita no Brasil.

Com uma elite dessas, o Brasil não corre o risco de dar certo mesmo. Sorte que temos uma classe média cansada e disposta a mudar, ainda que sem lideranças louváveis no papel de guia, o que sempre aumenta o perigo.

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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