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Rodrigo Constantino

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Trump errou mesmo ao se encontrar com Putin nesse momento?

Estão quase todos caindo em cima do presidente Trump desta vez. A esquerda, claro, não conta, pois é isso que faz desde sempre, por torcida partidária, por ideologia ou pura patologia. Se Trump pular em baixo de um trem para salvar uma criança desconhecida, essa turma vai dar um jeito de coloca-lo como o vilão da história. Ou seja, a crítica dos democratas e jornalistas não vale nada. Mas tem muito republicano atacando ele dessa vez.

O timing, ao menos, teria sido infeliz para esse encontro com Putin, e alguns estão chegando ao ponto de afirmar que Trump “abriu as pernas” para o líder autoritário que está sendo acusado de tentar manipular as eleições americanas. Mesmo simpatizantes de Trump o criticaram. No Brasil, meu amigo Leandro Ruschel condenou a postura do presidente, ainda que tenha apontado a hipocrisia da mídia “progressista”:

Trump deveria ter cancelado o encontro com Putin após o indiciamento feito contra russos pelo Departamento de Justiça no ataque a servidores do Partido Democrata. É óbvio que o Deep State queria boicotar o encontro, mas ele acabou ocorrendo no pior momento possível.

Ao fazer o encontro, Trump errou ao colocar em pé de igualdade a responsabilidade pelos dois países estarem distantes diplomaticamente. A Rússia é praticamente uma ditadura e chegou ao ponto de invadir um país europeu. O fraco Obama deu as condições, mas Putin é o agressor.

Obama e o Partido Democrata instrumentalizaram o Departamento de Justiça para proteger Hillary e atacar Trump, isso ficou evidente. Mas Trump não pode dar munição aos seus inúmeros opositores, inclusive aqueles dentro do seu próprio partido.

Trump está correto em buscar uma aproximação com a Rússia, mas creio que a forma de fazê-lo não foi a melhor. Tanto é assim que ele mesmo utilizou o Twitter para se justificar, algo incomum.

Feita a observação sobre os erros de Trump na coletiva com Putin, mais uma vez fica evidente a cobertura falsa e canalha da imprensa em geral. Afirmam que o comportamento do presidente demonstra que ele “se vendeu” aos russos, um exagero absurdo.

Hillary Clinton autorizou a venda de urânio americano para empresas russas após a fundação Clinton receber milhões de dólares de empresas ligadas ao negócio. Obama foi pego em microfone aberto dizendo que poderia atender interesses de Putin após eleições. Imprensa não falou nada.

O duplo padrão da imprensa é conhecido, mas pergunto: será que Trump errou mesmo ao manter o encontro e ser “diplomático” com Putin? Logo ele, que é acusado de não ter diplomacia alguma e ameaçar sempre a explosão de alguma guerra? Se Trump agiu de forma indevida, isso quer dizer que ele deveria ter virado as costas a Putin? E o que, de fato, isso traria de bom para a América?

É o que questiona Roger L. Simon, lembrando dessa característica peculiar de Trump, bem descrita por Greg Gutfeld, da Fox News: o presidente é o good cop e o bad cop ao mesmo tempo, na mesma pessoa. Normalmente a diplomacia usa a tática do “stick & carrots”, ou seja, alguém fala grosso e outro acena com contemporizações. Ameaça e incentivos. Mas Trump parece reunir nele mesmo esses dois lados, e isso confunde muito analista.

O good cop em Trump procura usar o lado cristão de ver no outro alguma coisa positiva, mesmo que seja Putin, ou mesmo Kim Jong-un. Gestos e palavras suaves desarmam espíritos e reduzem a resistência. Mas o bad cop vem com as ações duras, e esses ditadores sabem que são as ações que importam. É o que Trump efetivamente faz de concreto que pode intimidar tais líderes, e nesse sentido ele é bem mais firme do que seu antecessor Obama, que demonstrava fraqueza perante ditadores com suas ações. Simon conclui:

Barack Obama – embora o New York Times queimasse seu próprio prédio em vez de admitir – fez um péssimo trabalho com Putin e foi, de fato, aquele que realmente foi “dominado” pelo russo. E não foi apenas o bobo botão de reset e o vídeo embaraçoso de Barack sussurrando no ouvido de Medvedev para dizer a Vlad que ele – Barack – seria mais flexível sobre os mísseis após a eleição. Ainda pior, em seu ardor Chamberlainesco para fazer um acordo com os mulás do Irã, Obama deixou Putin engana-lo na Síria, concordando em não honrar sua linha limite contra o uso de armas químicas por Assad, a fim de não pôr em perigo o negócio. Trump nunca fez nada tão patético. Na verdade, ele se mantém forte.

Mas os David Gergens do mundo reclamam que Trump está fazendo tudo errado. Ele certamente está fazendo algumas coisas erradas – todos nós fazemos – mas ser gentil com Putin pessoalmente enquanto se opõe ativamente ao que o russo faz em suas ações pode ser exatamente o caminho para obter resultados. Mas os adversários de Trump não se importam com os resultados. Preocupados com o ódio, prefeririam ver o presidente ferido e cassado a ter sucesso com Putin e trazer um mundo mais seguro do armagedon nuclear. Se Trump conseguir isso, no entanto, será seu melhor momento. Seria para qualquer presidente.

O autor toca no cerne da questão: resultados. Trump parece sempre obcecado com resultados, e era assim em sua vida profissional antes. Os métodos às vezes podem incomodar, ele sabe explorar sua imagem a seu favor, usa a fama de maluco para conquistar bons negócios com sua imprevisibilidade. É alguém que flerta com o caos e assume grandes riscos de olho no prêmio à frente.

É o que Martim Vasques da Cunha disse sobre Trump: “E nunca é demais repetir: a característica essencial de Trump, durante toda a sua carreira, foi a da imprevisibilidade. Ele só consegue trabalhar direito impondo o caos no mundo todo. E deste caos sempre surge alguma espécie de (nova?) ordem”. Martim compartilhou o artigo de Roger Kimball sobre o assunto, concluindo que o presidente seguiu a máxima de Churchill, de que é melhor um encontro garra com garra do que uma guerra, e que sua tática de expor o Deep State tem funcionado:

Donald Trump está se movendo para desmantelar o estado administrativo e restaurar a ordem internacional com uma ousadia e eficácia não vistas desde Ronald Reagan, se então. A cada dia que passa, o que ele chama de “caça às bruxas” sendo conduzida contra ele por burocratas apavorados como John Brennan, Rod Rosenstein, James Comey e Peter Strzok parece cada vez mais absurdo. É, como disse o presidente Trump em Helsinque, “uma desgraça para o FBI, uma desgraça para o condado”.

O establishment não está sabendo lidar com alguém como Trump, e a podridão tem emergido do pântano de Washington com frequência. Mas o presidente, focado em resultados, segue com seu trabalho e sua ousadia imprevisível, assumindo altos riscos, sem dúvida, mas sem aceitar as amarras burocráticas do “sistema”. O senador Rand Paul, crítico do establishment, foi um dos poucos que ficou ao lado de Trump no caso russo, atacando justamente os republicanos motivados por interesses ou preconceito contra o presidente.

“Ficou tão ridículo que alguém tenha que se levantar e dizer que devemos tentar engajar até mesmo nossos adversários e abrir nossas linhas de comunicação”, disse Paul ao Politico após a polêmica coletiva de imprensa. “Vamos conversar com o presidente sobre alguns pequenos passos para tentar descongelar as relações entre nossos países”, acrescentou o senador, lembrando que ele deve viajar para a Rússia no início do próximo mês para continuar o diálogo iniciado por Trump.

A viagem, na sua opinião, permitirá que os Estados Unidos comecem a trabalhar com a Rússia para acabar com a guerra civil na Síria, desnuclearizar a Coréia do Norte e tirar as forças armadas russas da Ucrânia. Sobre o “fogo amigo”, Paul foi direto ao ponto: “Os republicanos que estão fazendo as críticas são ou os republicanos pró-guerra como McCain e Graham ou os anti-Trump como Sasse. Eles são motivados por sua persistente e consistente antipatia ao presidente”.

Enfim, o encontro entre Trump e Putin nesse momento delicado de acusações oficiais contra interferência russa nas eleições americanas dividiu opiniões mesmo dentro do Partido Republicano e do universo conservador, mas talvez seja cedo para detonar tanto o presidente americano. Ele não joga o jogo convencional com o qual estamos acostumados. Ele não é previsível, e ele tem obsessão por resultados.

Afetações mais estéticas simplesmente não são levadas em conta pelo frio magnata. Ele foi CEO antes, ele continua CEO agora. Como a “empresa” que gere é a América, com seu arsenal nuclear, isso tira o sono de alguns. Mas, no caso, a atitude de Trump serve justamente para esfriar ânimos e permitir algum acordo com Putin, em vez de jogar mais lenha na fogueira de um líder autoritário que tem seu próprio arsenal nuclear e parece mais disposto a usa-lo.

Será que Trump errou mesmo ao manter o encontro e ser “cordial” com um suposto inimigo? O tempo dirá. Mas, em se tratando de Trump, eu teria mais paciência ao julgar e certamente não levaria em conta os cansativos ataques da mídia…

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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