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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

Até lixo pode vender no livre mercado, mas alternativa é sempre pior

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Felipe Neto gosta de "causar", de gerar polêmicas e se manter em evidência. Sua mais recente pérola foi a de que é preciso derrotar o "neoliberalismo", que este seria o grande desafio do Ocidente. A frase gerou imediata reação, com muita gente apontando sua escancarada hipocrisia.

Afinal, Neto é rico, e não só isso: gosta de ostentar sua riqueza. Ele ficou rico com seus vídeos na internet, em que imita focas, fala de jogo ou tenta ensinar crianças a driblar restrições parentais. O imitador de focas não é apenas hipócrita por desdenhar do sistema que o enriqueceu; ele é um deslumbrado com a própria riqueza, alguém brega que ostenta o que tem em bem material como sinal de superioridade. É um pobre coitado de espírito. Essa imagem anda circulando por aí:

Faltou a sala de cinema ou ele se gabando de torrar milhares numa só noite. Mas por que perder tempo falando de Felipe Neto, que só a Vera Magalhães parece levar a sério? Explico: o caso suscita um bom debate sobre o livre mercado. E há algumas divergências saudáveis entre os liberais.

Meu amigo Helio Beltrão, por exemplo, utilizou a fala de Neto para trazer as lições de Ludwig von Mises à tona, numa coluna na Folha de SP. Beltrão parte da premissa de que Felipe Neto é competente no que faz, deixa a política para as "tretas" de Twitter, e deveria ler livros liberais. São premissas benevolentes demais, em minha opinião. Partir da ideia de que Neto está realmente interessado num debate sério é apostar numa ilusão. Ele "leu" Chomsky e Galeano pois já premeditava "lacrar" com a esquerda, seu novo público-alvo.

Mas deixo o aspecto da honestidade intelectual do "rapaz" de lado. O interessante aqui é lembrar que, no livre mercado, não é só aquilo que tem valor moral que prospera. E isso não fica claro no texto excelente do Helio. Ele menciona a capacidade de Neto atender sua demanda com competência, o que é verdade. Mas deixa de fora que demanda é essa, e é aqui que eu entro.

Antes, um trecho do que diz o autor, que aborda coisas importantes sobre o liberalismo:

Empreendedores como Felipe devem sua riqueza aos que prestigiam seu produto, clientes e audiência alheios a conceitos abstratos como mérito “verdadeiro” ou valor intrínseco. Os intelectuais e o próprio Felipe podem ter dificuldade para entender como um frívolo canal de games ou de conteúdo para crianças pode gerar tão mais acúmulo de capital que o trabalho de um intelectual esforçado e bem treinado.

O socialismo, pensam, corrigirá tal injustiça do capitalismo; afinal, todos aqueles que trabalham duro merecem ser felizes e iguais. Ignoram que o aumento da renda de todos e o aprimoramento da tecnologia dependem da boa política econômica (liberal), que prestigia o poupador (capital acumulado), a propriedade privada dos meios de produção e a livre iniciativa. E ignoram sobretudo que seu oposto, o socialismo, destrói as bases da prosperidade.

São lições inequivocamente demonstradas, por um lado, por países que eram estéreis e pobres há algumas décadas, como Coreia do Sul, Chile, Singapura, Hong Kong e Dubai (EAU), e, por outro, por aqueles que empobreceram: Venezuela, Argentina, e Brasil desde os anos 1980.

Sim, os intelectuais odeiam aqueles que enriqueceram no mercado com produtos banais, sem ter toda a erudição desses mesmos intelectuais, sua sensibilidade ou estética. Isso é verdade. Mas o mercado é amoral, uma máquina de alocar recursos de acordo com a demanda. E um liberal pode muito bem reconhecer isso sem ter de aplaudir toda a demanda existente.

Como o próprio Mises reconhecia - e destaquei isso em meu livro Economia do Indivíduo, lançado pelo Instituto Mises comandado pelo Helio, que me deu a honra de escrever o prefácio - o mercado não faz julgamento de valor moral. Diz Mises:

É verdade que a Economia é uma ciência teórica e, como tal, ela se abstém de qualquer julgamento de valor. Não é sua tarefa dizer às pessoas a que fins elas devem visar. Ela é uma ciência dos meios a serem aplicados para o alcance dos fins. As decisões últimas, as avaliações e escolhas e fins estão além do âmbito de qualquer ciência. A ciência nunca diz ao homem como ele deveria agir, ela simplesmente mostra como alguém deve agir se ele deseja atingir dados fins.

Essa passagem é fundamental para nosso debate aqui. Tenho para mim que a noção equivocada de que o resultado no livre mercado será sempre maravilhoso - do ponto de vista estético ou moral - seja uma das premissas mais perigosas e que afasta tanta gente da defesa do liberalismo.

Sim, Felipe Neto é competente... em produzir lixo! E lixo também vende no livre mercado, eis a realidade da qual não podemos fugir. Michael Moore é milionário com "documentários" mentirosos e ideológicos, assim como o linguista Chomsky, supostamente lido por Neto, fez fortuna e fama não com suas teorias frágeis sobre o "hardware" da linguagem, e sim com seu antiamericanismo canalha.

Há muita demanda por porcaria, eis o fato. E sempre haverá gente habilidosa - e imoral o suficiente - para atendê-la. Muito intelectual desdenha do sistema por enxergar esse resultado, e isso é um erro. Mesmo com embusteiros fazendo sucesso ou explorando a fraqueza humana no mercado, a verdade é que esse sistema é o mais eficiente, o que gera mais riqueza em termos geral, mais empregos e, acima de tudo, o único que preserva a liberdade de escolha do indivíduo!

Devemos defender o liberalismo não porque ele sempre vai beneficiar o melhor do ponto de vista moral, mas sim porque ele é o único que permite um ambiente de trocas voluntárias, mesmo que muitas vezes elas sejam entre quem demanda e quem oferta porcaria. Da mesma forma que a democracia vai invariavelmente levar ao poder péssimos políticos, mas a alternativa - o "despotismo esclarecido" - acaba sendo muito pior.

Helio conclui seu texto com um toque de otimismo acerca do youtuber: "Felipe sempre gostou de ler, preza a boa educação e prosperou no ambiente liberal da internet, usufruindo do capital acumulado pela tecnologia de seu iPhone, computadores e softwares, servidores da Amazon, serviços do Google etc. Ignora, no entanto, que o Brasil está longe de ser liberal, o que explica nosso atraso. Se deseja combater a pobreza e melhorar o Brasil para todos, deve se familiarizar com o que a ciência econômica diz sobre o tema".

Não nutro tais esperanças, e discordo dos elogios. Felipe Neto não demonstra ser um leitor voraz, e sim alguém que busca holofotes com "lacres", fazendo "resenhas" antes mesmo de acabar o livro e já concluindo que é preciso implodir todo um sistema. É, portanto, arrogante e ignorante, uma combinação explosiva. Sua "educação" é servir de péssima influência aos mais jovens. Em suma, podemos continuar considerando-o um completo bocó, apesar de sua fortuna conquistada no livre mercado, que ele desdenha.

Diante da repercussão de seu comentário, ele preferiu dobrar a aposta: "A verdade é que dói nos neoliberais quando alguém q saiu da merda, ficou rico e entrou no estômago do monstro neoliberal decide se colocar contra esse sistema de merda. Aí começam a jogar sua riqueza na sua cara e gritar que vc é um socialista hipócrita, pq não sabem o q fazer".

Sabemos exatamente o que fazer: mostrar que o sistema está longe de ser "uma merda", que é o mais eficaz para alocar recursos escassos, que permite o enriquecimento geral já que não se trata de um jogo de soma zero, e que nele até mesmo idiotas que vendem porcaria podem ter sucesso material, o que jamais será sinônimo de valor moral. Ou seja, podemos continuar denunciando a tremenda hipocrisia de um Felipe Neto da vida, possível graças ao liberalismo, e ainda assim defender o mesmo liberalismo. Ter um Felipe Neto rico e usando sua riqueza para espalhar bobagens é um preço pequeno que pagamos para preservar nossa liberdade e produzir riqueza para a imensa maioria.

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