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Em entrevista à BBC News há alguns dias, o ex-embaixador dos EUA e especialista em América Latina, John Feeley, avalia a relação entre Donald Trump e Jair Bolsonaro (PL). Segundo Feeley, o presidente norte-americano abandonou o aliado brasileiro após ele deixar de ser politicamente útil, passando a vê-lo como um "perdedor".
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Bolsonaro não é um "loser", e sim o político mais querido pelo povo brasileiro, principal cabo eleitoral da direita mesmo depois de toda perseguição que sofreu. Levou uma facada que quase o matou, e até hoje sofre consequências disso. Preso injustamente numa cela da PF, é tratado em condições desumanas, sofrendo da falta de atendimento adequado e com o barulho insuportável da máquina de ar condicionado.
Mas uma coisa é certa: a forma de chamar a atenção hoje para o caso Bolsonaro é apelar para seu lado de vítima, de "coitadinho". É o que vem fazendo sua família, em especial o filho Carlos. São relatos comoventes e revoltantes, mas é inegável que tem esse aspecto do apelo emocional a essa perseguição a um "idoso com saúde frágil". E isso talvez crie sim um abismo entre como os americanos enxergam Trump.
Os americanos, via de regra, gostam de quem luta sem parar, nunca desiste, não esmorece. Os brasileiros admiram a vítima, o coitadinho, o bom moço injustiçado
A cultura brasileira sempre gostou do "coitadinho". Emil Farhat chegou a escrever na década de 1960 um livro interessante chamado justamente O país dos coitadinhos. Em um trecho, ele diz: "O que leva as nações para a frente é a divina obsessão dos que amam competir, dos que incansavelmente constroem, dos inquietos criadores, dos que rompem a inércia; dos que rasgam os pantanais humanos ainda que espadanando a preguiça; dos que desabam dilúvios de atividades ainda que estas perturbem a placidez do vazio e a esterilidade do nada".
Chamava minha atenção, nos primeiros Big Brother Brasil que eu ainda acompanhava, o fato de que era sempre um "coitadinho" que levava o prêmio. O brasileiro gosta de uma vítima. Mas o americano tende a preferir homens duros, ainda que com uma ética mais flexível. Basta ver os heróis das séries e filmes que fazem mais sucesso nos Estados Unidos: Yellowstone, Landman etc.
Quando Trump foi fichado pela polícia e teve de tirar aquela "mug shot", todos lembram da cara que ele fez. Uma cara de pouquíssimos amigos, de "preparem-se para o troco, a vingança". Vocês mexeram com a pessoa errada, dizia seu olhar.

Quando ele sofreu um atentado que só por milagre não ceifou sua vida, Trump levantou com sangue escorrendo da orelha e gritou: "Lute! Lute! Lute!". Outra imagem icônica de um guerreiro incansável, de alguém que não deixa nada abalar seu empenho nessa missão.
O Bolsonaro que gritava "canalhas" de cima de um caminhão de som ou falava "acabou, porra" era um líder com esse perfil. O Bolsonaro fragilizado, preso, calado, transmite outra imagem. O Bolsonaro que "brinca" convidando Alexandre de Moraes para ser seu vice também parece muito diferente do estilo Trump, sempre durão com seus adversários, com tom de ameaça.
Entendo que existem diferenças de cenários, de Suprema Corte e tudo mais. Chamo apenas a atenção para esses perfis distintos e o lado cultural da coisa. Os americanos, via de regra, gostam de quem luta sem parar, nunca desiste, não esmorece. Os brasileiros admiram a vítima, o coitadinho, o bom moço injustiçado.
Não quero ser injusto com Bolsonaro, quem deu o próprio sangue pelo país. Ele aceitou enfrentar o sistema e pagar o preço, mesmo quando muitos diziam que ele não deveria ter voltado dos Estados Unidos. Era óbvio que ele seria preso e, de certa forma, passaria pelo que está passando. Moraes é um psicopata que odeia Bolsonaro.
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Eu era da turma que achava que o ex-presidente poderia fazer mais como resistência democrática de fora do Brasil, mas ele resolveu ficar no país e arcar com as consequências. Isso serviu para escancarar o lado desumano do sistema, mas a um alto custo pessoal para o ex-presidente.
Particularmente, prefiro o grau de liberdade que tem hoje Eduardo Bolsonaro, para denunciar com firmeza o estado de exceção no Brasil. Meu lado americano costuma falar mais alto do que meu lado brasileiro nessas horas: Lute! Lute! Lute!





