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A morte do tripé macroeconômico

Antes de constatar a morte do tal tripé macroeconômico, vamos rapidamente compreender o que ele é e por que é tão importante. O tripé é composto de três pilares, como o nome já diz: 1) meta de inflação com autonomia do Banco Central para persegui-la; 2) câmbio flutuante; 3) responsabilidade fiscal. Por que essas três coisas são tão relevantes para a solidez da economia?

Comecemos pela meta de inflação. A inflação, grosso modo, é vista como a alta generalizada dos preços na economia. Para alguns economistas, em especial os austríacos, isso já seria um sintoma, não a própria inflação. Esta seria, na verdade, a alta dos agregados monetários, que por sua vez produziriam uma elevação nos preços aos consumidores.

O importante aqui é ressaltar que quem controla os agregados monetários que causam a inflação é o governo. E isso é uma tentação e tanto, pois ele pode se apropriar de recursos de terceiros de forma disfarçada e indireta, usando o tal “imposto inflacionário”.

Com receio do uso e abuso político dessa poderosa ferramenta – que a história comprova ser mais que legítimo – os países desenvolvidos criaram bancos centrais independentes com a missão de cumprir a meta de inflação definida pelo Congresso. O Brasil não chegou a esse grau de evolução, mas o governo FHC garantiu certa autonomia operacional ao BC, mantida no começo do governo Lula, com Henrique Meirelles no comando.

Pois bem: eis o primeiro pilar abandonado pelo governo Dilma. A nossa meta de inflação é de 4,5% ao ano, patamar elevado para padrões internacionais, incluindo outros países emergentes. Tal meta nunca foi cumprida. Eis a inflação medida pelo IPCA, lembrando que vários preços administrados pelo governo foram represados:

IPCA. Fonte: Bloomberg IPCA. Fonte: Bloomberg

Reparem que coloquei a linha vermelha no patamar de 4,5% ao ano, a meta oficial do governo. Nossa inflação jamais ficou perto dela durante a gestão Dilma. O que podemos observar é um índice de inflação acima até do topo da meta, de 6,5%, existente apenas para casos esporádicos e temporários. Não resta dúvida: o governo Dilma abandonou este pilar do tripé.

O segundo pilar é o câmbio flutuante. Por que seria tão importante? Ora, a taxa de câmbio é um preço como tantos outros, e sua função, portanto, é transmitir informações relevantes aos agentes tomadores de decisões. No caso do câmbio, isso é ainda mais relevante, pois ele é o resultado da interação de inúmeros fatores que sinalizam tendências cruciais para os empresários e investidores.

Se o país como um todo está importando muito mais do que conseguindo exportar, por exemplo, e se nossa conta-corrente está negativa, então o natural seria o real se desvalorizar frente ao dólar, para atrair mais investimento externo e estimular mais as exportações. Quando o governo intervém nesse processo, segurando artificialmente a taxa de câmbio, ele distorce todo o mecanismo de alocação de capital na economia.

Pois bem: o BC já realizou mais de US$ 100 bilhões em “swaps” cambiais nos últimos meses para tentar segurar nosso câmbio, com medo do impacto de uma desvalorização nos índices de inflação. Com isso, o real permanece fora de seu preço de equilíbrio, caro demais, o que prejudica bastante nossa indústria. Eis o resultado do câmbio que não chega a ser fixo, mas tem “flutuação suja”:

Taxa de câmbio: real x dólar. Fonte: Bloomberg Taxa de câmbio: real x dólar. Fonte: Bloomberg

Não resta muita dúvida aqui também: esse pilar foi abandonado, e muitos analistas acreditam que o dólar já valeria quase R$ 3,00 não fosse a intervenção do governo.

Por fim, temos a questão das contas públicas, uma das maiores conquistas da era FHC, com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse pilar é talvez o mais importante e é simples entender o motivo: governo que gasta mais do que arrecada inevitavelmente terá problemas à frente, e ou vai ter de gerar inflação para fechar o buraco, ou ficará nas mãos de “agiotas” e colocará o país em risco de calote. Qualquer família entende isso.

Pois bem: acaba de ser divulgado o superávit primário, aquilo que o governo poupa antes de incluir o pagamento do serviço da dívida acumulada. Um desastre! O resultado do primeiro semestre foi o pior em 12 anos! Foi uma queda de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Fonte: GLOBO Fonte: GLOBO

Na margem, não há sequer superávit, mas sim déficit primário, ou seja, o governo não conseguiu nem economizar antes de incluir os gastos com juros. A dívida pública, que já é enorme, aumenta dessa forma. Isso mesmo com os “malabarismos contábeis”, ou seja, mesmo maquiando números com artimanhas. Não resta muita dúvida: o governo Dilma abandonou esse último pilar do tripé macroeconômico também.

Qualquer um que compreende a importância do tripé macroeconômico tem todos os motivos do mundo para alimentar grande pessimismo em relação ao futuro de nossa economia, especialmente se a equipe econômica atual permanecer no poder.

Rodrigo Constantino

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