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Carta aberta a Marcelo Yuka
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Fonte: Estadão

Prezado Marcelo,

Li sua entrevista no blog da Sonia Racy, no Estadão. Confesso que fiquei espantado com algumas coisas. Pretendo, a seguir, apontar os motivos de meu espanto, na esperança de que isso possa levá-lo a refletir melhor sobre certos pontos.

Antes de mais nada, deixe-me expressar que lamento o que aconteceu com você, e que não posso ter ideia do que isso representa na vida de uma pessoa: ter a liberdade de andar expropriada por bandidos. Há precedentes em que a vítima buscou perdão, talvez uma forma de conseguir continuar vivendo, ou dar algum sentido à tragédia. Mas não posso concordar com essa postura. Você diz sobre os bandidos:

Mas quero chegar um dia, chamar para tomar uma cerveja e perguntar o que aconteceu. Talvez eles me deem esse direito.

É um direito seu tal desejo, claro. Mas será que todos aqueles que são vítimas de criminosos no Brasil – e são milhares – deveriam realmente adotar uma postura tão camarada? Que tipo de sociedade vamos construir, coletivamente, se os marginais que tiram vidas ou, no seu caso, o direito de andar, forem tratados dessa forma? Já pensou se todos resolvessem tomar cerveja com assassinos em vez de lutar por uma punição severa a eles? Sabemos, Marcelo, que a impunidade costuma ser o maior convite ao crime.

Você, entretanto, parece pensar muito diferente. Em sua entrevista, alivia até mesmo para o lado dos traficantes barra-pesadas das favelas, que infernizam a vida da comunidade toda. Você diz:

Há, hoje em dia, um discurso de que existe um inimigo público número um – que é o narcotráfico. E esse inimigo, diz o poder, cria “pessoas matáveis”. O narcotraficante virou uma pessoa matável. Se repararmos, quando tem invasão no morro, fala-se em morte de traficantes e não de pessoas. E a sociedade olha assim: “Não foi uma atitude violenta, só morreu traficante”. Opa, espera aí! Olha o pensamento reaça, uma cadeia de pensamento que vem crescendo e que hoje é exposta de peito aberto. O que significa que, o que está vencendo, é a truculência, o fascismo, a burrice. Vejo tudo interligado.

Gostaria de perguntar o que fascismo tem a ver com isso? Quer dizer que só regimes fascistas são duros no combate ao narcotráfico? Os Estados Unidos são fascistas? É coisa de “reaça” defender o império das leis? Você realmente acha que truculento é o policial honesto que ganha uma mixaria para subir o morro sob tiro de traficante, e não o próprio tráfico que domina como uma máfia tais locais? A UPP seria “reaça” e “fascista”? Você diz:

Parece que toda a luta que eu tinha se resumiu a depois da cadeira. Mas a verdade é que há muitos anos eu já estava envolvido com a questão do desarmamento. […] Além do quê, essa coisa de arma de fogo é medieval. Assegurar o direito à arma é a maior prova do uso do medo como ação política. Cada vez que a gente dá um passo para a frente, continua ainda muito conservador e retrógrado.

Marcelo, como exatamente você acha que desarmar os cidadãos honestos, os civis inocentes, vai acabar com o crime? Há correlação negativa entre posse de armas pela população ordeira e criminalidade, sabia disso? Os estados americanos mais armados têm menos crime. Suíça e Israel possuem mais arma per capita que qualquer outro país, e são pacíficos. Sério que você acredita que o traficante vai entregar suas armas voluntariamente? Sinto muito, mas medieval me parece a crença de que desarmar inocentes resolve o problema do crime.

O cerne do meu ponto de vista é que a arma de fogo é o fim da tolerância. A guerra se dá quando a tolerância termina. E não há regras numa guerra. Isso só acontece a partir do momento em que o Estado assume que terminou o diálogo. E terminar o diálogo é uma posição política absoluta, ditatorial. O Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo, mas, sim, para promover sua importância. Não enxergo as manifestações como causa, mas como consequência. Sou, talvez ingenuamente, um dos últimos que se assume como pacifista.

Marcelo, é lindo se dizer pacifista, mas como resolver, na prática, a questão da criminalidade? Eis a questão! No meu último livro, dedico um capítulo inteiro ao pacifismo. George Orwell destruiu essa postura um tanto hipócrita ou ingênua. É porque resta combinar com o outro lado. Como tolerar Fernandinho Beira-Mar e Marcola? Você chamaria Hitler para um bate-papo, por exemplo? Acha que os estados ocidentais deveriam ter tido mais tolerância com o nazismo? É sério que você acredita na possibilidade de dialogar com gente que mata inocentes como se fossem moscas?

Não existe nada mais nazista no Brasil dos últimos 20 anos do que a proibição dos rolezinhos. Foi pior até que a proibição do funk aqui no Rio de Janeiro. Já estamos acostumados a ver a agressividade do Estado que mata muito, mas institucionalizar esse tipo de preconceito é outra história. Estamos perto da barbárie mesmo.

Marcelo, se posso te dar um conselho, lá vai: use menos os termos nazista e fascista, pois esse abuso que você faz deles apenas serve para desmoralizar o sofrimento de milhões de vítimas desses regimes nefastos. Nazista proibir rolezinho? Menos, Marcelo. O shopping é uma propriedade privada, um ambiente que famílias frequentam para consumir ou ter lazer, e desejam fazer isso em paz. Não é razoável entrar com mil colegas para fazer baderna ouvindo música alta nesses locais. Não seria aceitável se fossem mil liberais pregando as maravilhas do liberalismo por meio de músicas altas também, entende? Não há absolutamente nada de nazista nisso, apenas o direito de propriedade do dono do estabelecimento e o respeito aos demais ali presentes. O que está mais perto da barbárie: proibir essa bagunça, ou a própria arruaça que desrespeita o próximo? Pense nisso…

Tem ligação com o Freixo?

Quase que homoafetiva. (risos) Quando um homem em um cargo público é procurado pelas mais diferentes pessoas, é louvável. Quer dizer que estabelece um diálogo. No começo dos nossos encontros como candidatos (à prefeitura do Rio, em 2012), ele falou: “Se a gente ganhar, vamos fazer um bom governo, inclusive para o Eduardo Paes e para o Sérgio Cabral. Quero que a rua em que eles moram seja tão boa quanto as ruas na favela. Aí é que é diferente! Temos de esquecer as diferenças partidárias. Administração não tem rancor”. Ou seja, Mandela estava certo. 

Marcelo Freixo, seu xará, é do PSOL, um partido que defende o socialismo em pleno século 21. Pergunto: qual foi a experiência socialista que deu certo? Você poderia nos apontar uma só? O PSOL defendeu o terrorista italiano Cesare Battisti, que matou inocentes em roubos comuns sob o manto da ideologia e foi condenado por uma democracia mais avançada do que a nossa. É isso que você chama de defender o pacifismo? O PSOL defende o regime cubano, do ditador Castro, que eliminou no paredão milhares de inocentes pelo “crime” de pensar diferente. É isso que você chama de “esquecer as diferenças partidárias”?

Marcelo, espero que essas palavras encontrem uma mente aberta, disposta a efetivamente refletir sobre o que se passa em nosso país e no mundo. Afinal, confesso que me espanta alguém conseguir pregar o socialismo após toda a desgraça que essa ideologia trouxe ao mundo. E confesso que também fico confuso quando alguém que foi vítima direta da violência, fruto da impunidade, espalha por aí que a solução é convidar os criminosos para uma conversa no bar da esquina. Muitos diriam que esta é uma postura irresponsável.

Fique em paz e que o restante de nosso povo também possa ficar em paz, o que exige o fortalecimento da instituição chamada polícia, que merece mais respeito, e o combate firme à impunidade.

Abraços,

Rodrigo.

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