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Rodrigo Constantino

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De mãos atadas e à espera de um milagre

O governo se reuniu em caráter de urgência e anunciou novas medidas para conter a disparada do dólar. A artilharia foi recarregada, e um programa de US$ 100 bilhões foi divulgado pelo Banco Central para tentar acalmar os mercados.

Algum efeito isso produz, sem dúvida. A moeda nacional abriu essa sexta se fortalecendo, mas pouco. O dólar ainda se encontra, neste momento, perto de R$ 2,40, mesmo com o anúncio das novas medidas. Afinal, quase metade do valor divulgado já foi usado em leilões de swap, e isso não impediu a desvalorização acentuada do real.

Fiz uma palestra para um pequeno grupo de empresários nessa quinta e, após explicar meu pessimismo com o quadro econômico, perguntaram o que poderia ser feito. É preciso separar aqui o que deveria ser feito, daquilo que é factível do ponto de vista político, ou desejável pelo partido no poder do ponto de vista das eleições. Mas a reflexão sobre o que pode ou deve ser feito me levou à imagem que dá o título desse texto. Vejamos:

1) Juros: o certo a fazer seria o governo punir a incompetência, demitir os principais nomes da equipe econômica, e garantir, com a presença de alguém acima de qualquer suspeita, a independência do BC na busca da meta de inflação. Isso levaria, sem dúvida, a um choque na taxa de juros, para surpreender o mercado, alterar as expectativas e combater a escalada inflacionária. Alguém acredita que esse governo fará algo assim, em “véspera” (antecipada) de eleição? A alta dos juros tem efeito recessivo no primeiro momento, e o governo não vai aceitar isso. Opção descartada;

2) Gastos públicos: o correto seria acabar com toda a contabilidade “criativa” de uma vez, e anunciar um sério programa de corte dos gastos públicos, que seja crível e verdadeiro. Seria preciso cortar na carne, reduzir o inchaço da máquina estatal, demitir, cortar programas assistencialistas, interromper a “Bolsa Empresário” do BNDES, enfim, o governo deveria ajeitar suas finanças, como faria uma família em vias de cair nas garras de um agiota por excesso de gastos vis-à-vis arrecadação. Esse governo, perto das eleições, fará isso? Próxima alternativa;

3) Tarifas: o governo teria que soltar todas as tarifas, encerrar seu programa de congelamento que produz distorções no mercado e insegurança nos investidores. O ônibus, a gasolina, a energia, os preços administrados em geral teriam que expressar a realidade dos fundamentos econômicos uma vez mais. A conta do congelamento está sendo paga de forma disfarçada, e o cobertor é curto. Quando o governo congela a gasolina, a Petrobras tem rombos bilionários, pois importa combustível, e isso afeta sua capacidade de investimento. Mas e a inflação, que já está alta mesmo com esses malabarismos? Pois é. O governo teria de reconhecer a perda do controle inflacionário, hoje mascarada. Alguém acredita nisso? Próximo item;

4) Concessões: aqui reside alguma esperança ainda, talvez ingênua. O governo interveio tanto nos setores, mudando as regras do jogo e querendo determinar até o retorno dos investimentos, abaixo do padrão de mercado, que a confiança dificilmente retornará da noite para o dia. O governo já sinalizou que pretende flexibilizar um pouco as regras e aliviar para os investidores, mas poucos acreditam no discurso. Os leilões dependem tanto do financiamento subsidiado do BNDES não é à toa. As chances de os leilões serem um estrondoso sucesso e atraírem bilhões de fora para investimentos em infraestrutura não são das melhores. A janela para importar poupança externa se estreitou. O que mais?

Complicado, não? Aquilo que deve ser feito tem um elevado custo de curto prazo, exige o reconhecimento do completo fracasso do modelo econômico adotado por esse governo, e produziria grandes tensões populares e políticas. Imaginar que esse governo fará isso, com a base aliada fragmentada e frágil, com as eleições se aproximando, e com manifestações populistas tomando as ruas em busca de “almoço grátis”, parece sonho de uma noite de verão!

O que resta, então? Administrar o fracasso rezando para a bomba não explodir antes das eleições. É o que o governo vem fazendo. Leilões de swap são medidas paliativas e até certo ponto inócuas, que atacam apenas o sintoma, não as causas dos problemas. O governo tem que acender velas para “São” Bernanke, e torcer muito para que os estímulos monetários do Fed não acabem logo. Tem que acender outras velas para o governo chinês e torcer para que sua economia não desacelere rápido demais.

Eis a triste realidade de nosso governo hoje: está de mãos atadas, à espera de um milagre…

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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