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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Importações malvadas!

Fonte: Exame

Costumo dizer que quem tem a Fiesp não precisa da Unicamp. A Fiesp é vermelha! Comentar os artigos do empresário Benjamin Steinbruch na Folha se tornou um hobby para mim. O nacional-desenvolvimentismo do governo Dilma encontra no acionista da CSN um grande aliado. Hoje não foi diferente:

No início deste mês, a indústria nacional teve uma péssima notícia. O governo decidiu não renovar a proteção que vinha concedendo a alguns setores contra a invasão de importações. Cerca de cem produtos básicos fabricados por empresas químicas, petroquímicas, siderúrgicas e de máquinas e equipamentos terão suas alíquotas de importação reduzidas a partir de outubro.

O leitor poderá notar a linguagem de guerra adotada pelo empresário. Invasão! Proteção! Alguém menos atento poderia jurar que ele fala de tanques de guerra, ou quem sabe de alienígenas perigosos, ao contrário do de Varginha, respeitado pela presidente Dilma. Mas não. Ele fala de máquinas e equipamentos produzidos por empresas estrangeiras que chegam às empresas brasileiras por preços menores.

Um absurdo! Um crime! Onde já se viu permitir que as nossas empresas possam adquirir bens de capital a preços menores? Isso é uma invasão! E cabe ao governo proteger nosso mercado, criando barreiras que impeçam a entrada desses produtos.

Curiosamente, quando um país efetivamente entra em guerra, o primeiro ato de seu inimigo costuma ser justamente erguer barreiras que dificultem o acesso aos produtos estrangeiros. Steinbruch quer que nosso governo faça, em tempos de paz, aquilo que inimigos fariam, em tempos de guerra. Quem tem Steinbruch como amigo precisa de inimigos? Ele continua:

A entrada indiscriminada de itens estrangeiros, muitas vezes subsidiados na origem, é uma das principais causas do processo de desindustrialização no país. Há outras, decorrentes de nossos próprios problemas, como a falta de competitividade provocada pelo alto custo Brasil e o câmbio valorizado.

Mesmo que todos esses produtos fossem subsidiados na origem, o que não é verdade, e daí? Se o governo chinês quer forçar os chineses a pagar para que os brasileiros possam comprar máquinas mais baratas, que mal há nisso?

Bastiat, quando escreveu sua sarcástica petição em defesa dos produtores de velas e querosene, derrubou esse tipo de argumento. O inimigo era o sol, que trabalha de graça para fornecer luz por boa parte do dia. Um dumping cruel para os fabricantes de luz artificial. Mas quem diria que ter acesso a esse bem estrangeiro gratuito é prejudicial a nós?

Steinbruch cita en passant o Custo Brasil, nosso maior problema estrutural. Para ele, é mais fácil focar em coisas que o governo pode mudar por decreto, como taxa de câmbio ou alíquotas alfandegárias. Perde o país, que deveria resolver seus problemas estruturais, e não insistir em atacar seus sintomas. Mas o empresário não quer saber disso. Ele quer ver o Banco Central “sentar o pau na máquina”, pois quem olha para inflação é  “conservador”:

Mais do que os efeitos setoriais, medidas como o recuo na proteção tarifária à indústria trazem uma preocupação: a de que o país começa a se render ao discurso conservador que pouco se importa com a redução da atividade econômica.

É o mesmo discurso que defende a política monetária que continua a aumentar juros a despeito do baixo crescimento econômico e da inflação em queda -o IPCA de julho foi de apenas 0,03%, a menor taxa mensal em três anos.

De onde o empresário tirou que o “discurso conservador” não liga para o crescimento? Até onde sei, estamos crescendo muito pouco justamente seguindo o manual desenvolvimentista aplaudido por Steinbruch. Países mais liberais e mais abertos crescem mais com menos inflação. Isso é monopólio dos fins, em vez de debater os meios. Citar o dado mensal fora da curva da inflação beira a desonestidade intelectual. Vale tudo mesmo para garantir ganhos de curto prazo…

Não se pode ceder a discursos derrotistas e a argumentações fundadas em preceitos neoliberais já desacreditados. Contra fatos não há argumentos que se sustentem. É óbvio que alguns setores exigem proteção contra os invasores estrangeiros, como ocorre em qualquer parte do mundo.

Vejam que coisa! A esquerda adora acusar os “neoliberais” por todos os males do país, sendo que o liberalismo – novo ou velho – jamais nos deu o ar de sua graça. Somos governados há mais de dez anos por nacional-desenvolvimentistas, no estilo defendido pelo próprio Steinbruch, mas eis que nossos problemas são causados pelos “neoliberais”. Steinbruch poderia usar uma camisa do MST e frequentar o Foro de São Paulo, que se sentiria em casa.

Também é obvio que o estímulo ao consumo promove crescimento, como ocorreu em 2010 no país. O discurso conservador costuma apresentar a atual situação de baixo crescimento, estimado em 2% neste ano, para sustentar a ideia de que o efeito do estímulo está esgotado.

Pode-se responder a isso com uma pergunta: quanto estaria crescendo hoje o PIB se os estímulos ao consumo não tivessem sido dados? Provavelmente o país já estaria em recessão e amargando alto índice de desemprego, que desagrega qualquer sociedade.

Ah, nada como o argumento contrafactual! Os estímulos todos do governo falharam em produzir o crescimento esperado e prometido? Então é porque faltou estímulo! Se ao menos o governo tivesse dado mais estímulos…

Realmente, com empresários assim, o Brasil pode dispensar até os marxistas. Essa é a maior prova de que livre mercado e grandes empresários nem sempre estão alinhados. O liberalismo é pró-mercado, não pró-negócios, por entender que a livre concorrência é o motor do progresso. Já grandes empresários costumam defender “proteção” estatal contra as “malvadas” importações.

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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