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A visita de Lula a José Sarney, em São Luís, poucos dias antes do segundo turno, não foi gesto de cortesia a um ex-presidente de 96 anos. Foi o retrato, em cores vivas, do que ainda governa partes do Brasil: o coronelismo arcaico abraçado ao populismo de Estado. Lula, acompanhado de Janja, Roseana Sarney e outros aliados de sempre, foi prestar homenagem ao patriarca de um clã que por décadas tratou o Maranhão como propriedade privada. O encontro, registrado em fotos de sorriso largo, ocorreu depois de ato de campanha e à beira de uma eleição em que o petista precisa de cada voto do Nordeste. Não é nostalgia. É cálculo.
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Sarney personifica o Brasil velho: o senhor que controla eleitores, cargos e favores, e que, quando conveniente, se alinha a quem está no poder. O PT de Lula que um dia se apresentou como antítese desse mundo, há muito tempo convive com ele. No Maranhão, as alianças com o sarneysismo já atravessaram governos e oposições. O populismo atual apenas modernizou o método: em vez de cabresto puro, combina a estrutura oligárquica local com a distribuição massiva de benefícios federais. O resultado é o mesmo de sempre – a perpetuação da dependência.
O Brasil não precisa de mais abraços entre o velho coronelismo e o novo populismo. Precisa de ruptura com essa política suja – a que compra voto com recurso público, protege clãs locais e neutraliza a Justiça Eleitoral quando convém. Sem isso, o desenvolvimento continuará a ser promessa e a dependência, realidade
Os números do Maranhão mostram o preço dessa política. O estado tem o menor IDHM do país (0,745 em 2024) e o menor PIB per capita, em torno de R$ 22 mil – menos da metade da média nacional. A extrema pobreza (renda inferior a US$ 2,15 por dia) atinge cerca de 10% da população, a mais alta do Brasil; a pobreza (US$ 6,85) chega a quase 46%. Quatro dos cinco municípios com menor PIB per capita do país estão no Maranhão. Décadas de domínio familiar e de clientelismo federal não produziram desenvolvimento; produziram eleitorado cativo e elites locais que se renovam no poder.
Esse modelo só se sustenta porque as instituições que deveriam fiscalizar o uso da máquina pública e a igualdade eleitoral estão aparelhadas ou paralisadas. A coluna de Roseann Kennedy no Estadão descreveu com precisão o esvaziamento do TSE neste período eleitoral: o tribunal, que deveria ser protagonista, tem seu poder reduzido enquanto ministros do STF alinhados a interesses do governo tendem a neutralizar decisões de Nunes Marques e André Mendonça. O resultado é previsível – condutas que em tese violam a legislação passam sem consequência efetiva.
A reportagem da Gazeta do Povo deixa o quadro ainda mais claro. Especialistas em direito eleitoral, como Alexandre Rollo, apontam que o pacote de bondades anunciado por Lula às vésperas da eleição – reajuste do Bolsa Família, subsídios a combustíveis, Desenrola 3.0, Pix MEI, perdão de dívidas de MEIs e outras medidas – fere o artigo 73 da Lei 9.504/97, que proíbe condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos. O impacto fiscal estimado pela Instituição Fiscal Independente do Senado beira R$ 300 bilhões. Há ainda risco de abuso de poder político (Lei da Inelegibilidade) e descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal. O governo nega; o TSE, até agora, tem sido leniente. A ação do Novo pedindo cassação já está no tribunal, mas o histórico recente sugere pouca disposição para enquadrar o ocupante do Planalto.
O voto de cabresto, portanto, não morreu. Apenas mudou de instrumento. Onde antes havia o coronel e o jagunço, agora há o cartão do Bolsa Família, a antecipação de pagamento, o crédito subsidiado e a propaganda institucional disfarçada de política social. Tudo isso em um Estado cuja estrutura política local continua sob influência das mesmas famílias. O TSE, cego ou amordaçado por composições políticas superiores, não enxerga – ou não quer enxergar – a assimetria. A igualdade de armas na disputa eleitoral vira ficção.
O Maranhão é o caso extremo, mas o método se espalha. Onde a pobreza é profunda e o Estado é o principal provedor, o populismo eleitoral encontra terreno fértil. A combinação de oligarquia tradicional e máquina federal clientelista não é acidente; é o modelo de poder que ainda rende votos e cargos. Enquanto as instituições de controle permanecerem submetidas a cálculos partidários, o ciclo se renova.
O Brasil não precisa de mais abraços entre o velho coronelismo e o novo populismo. Precisa de ruptura com essa política suja – a que compra voto com recurso público, protege clãs locais e neutraliza a Justiça Eleitoral quando convém. Sem isso, o desenvolvimento continuará a ser promessa e a dependência, realidade. A libertação começa quando o eleitor deixa de aceitar o cabresto, seja ele de couro ou de benefício social.

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




