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Após um ano sem pisar por aqui, estou de volta ao meu querido Rio de Janeiro, à cidade maravilhosa onde nasci, cresci e vivi por 38 anos. Sempre que volto é uma sensação mista de sentimentos. Nostalgia e saudades, misturadas com uma leve tristeza. Esta bate justamente porque escolhi sair, e pelas causas dessa decisão.

O potencial do Rio é incrível. E essa tristeza vem exatamente da clara noção de que tínhamos tudo para arrasar. O turismo, para começo de conversa, era para ser muito, muito maior. Temos as mais belas praias, com montanhas, serra, clima bom, povo animado e receptivo. A beleza natural é imbatível, qualquer gringo fica louco. Angra, Búzios, Copacabana, Itaipava: alguém pode passar o mês todo passeando e ficará encantado a cada dia.

Mas não usamos nem uma fração do nosso potencial. E aí vem aquela lista de motivos pelos quais muita gente cansa e, quando pode, se manda. E a cada vez que venho visitar, noto que pouco ou nada mudou quanto a isso. Trânsito caótico, ruas esburacadas, motoristas afoitos e sem educação. Sensação constante de perigo, pois a criminalidade é elevada e somos obrigados a atravessar locais hostis mesmo nos bairros mais nobres. E o mais grave, ainda que compreensível: o carioca é adaptado a isso, banalizou o absurdo como mecanismo de sobrevivência.

É preciso viver num lugar diferente por um tempo para se dar conta de que nada disso é razoável ou aceitável. Mas o "malandro" não só absorve o bizarro, como tira proveito dele. O problema, claro, é que tem malandro demais para otário de menos, e o resultado é um concurso de oportunismo que reduz os benefícios gerais. Os anglo-saxões são mais "certinhos" ou "caretas", sem dúvida, mas será por isso que foram capazes de construir sociedades mais estáveis, prósperas? O tecido social depende de alguns valores básicos disseminados, entre eles a boa fé quanto ao próximo, para se consolidar uma sociedade de confiança. No Rio isso está basicamente ausente.

E quando falo do Rio, falo do Brasil. Foco no Rio por dois motivos: 1. conheço melhor; 2. representa a capital nacional desse nosso jeitinho. Cheguei a escrever um livro sobre o assunto, e quando retorno e percebo a lentidão da mudança necessária, dá um cansaço e tanto. O que poderíamos ser e o que somos são dois pontos separados por um abismo, e quem tem essa clara noção não consegue impedir uma pontada de tristeza.

Mas somos brasileiros, e não desistimos jamais! Até porque não se trata só de lentidão no progresso, mas sim do enorme risco de retrocesso! Basta lembrar que a esquerda caviar se cria é no Rio mesmo, onde o PSOL tem seu eleitor cativo nos bairros ricos, onde o PT costuma vencer nas eleições presidenciais. A depender dos "institutos de pesquisas", o ex-presidiário e "descondenado" Lula será presidente novamente. Só de aventar essa hipótese, por mais que desconfiemos dessas pesquisas fajutas, já bate desespero. Só de essa possibilidade ser real já temos a prova de como as coisas mudam pouco em nosso país, de como ainda temos esses bolsões de ignorância e desonestidade espalhados por aí.

É verdade que as manifestações este domingo foram um fiasco, e isso é alvissareiro. O povo não parece interessado na volta do ladrão. Banqueiros, jornalistas, intelectuais, esses sim, lutam pelo pior. Mas quero crer que o povo brasileiro acordou mesmo. É preciso olhar para os países mais avançados para entender como chegaram lá. Não precisamos inventar a roda. Basta endireitar aquilo que ainda é sinistro. Basta começar a valorizar as virtudes e rejeitar os vícios. Aí sim, teremos uma cidade maravilhosa digna de atrair para visitar e morar o mundo inteiro. Aí sim, teremos um país decente. É sonhar muito?

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