
Ouça este conteúdo
O Supremo Tribunal Federal (STF) não está passando por uma crise. Está passando por um balanço. E o balanço, como sempre, é de quem tem poder e não quer perder. Daniel Vorcaro, do Banco Master, transformou o tribunal numa espécie de caixa eletrônico com toga. As mensagens extraídas do celular dele mostram um sistema de transferência fenomenal: dinheiro, influência e acesso fluindo para ministros e familiares como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Whatsapp: entre no grupo e receba as colunas de Rodrigo Constantino
O caso mais revelador, claro, é o contrato com o escritório da família de Alexandre de Moraes. São 131 milhões de reais, além de outro contrato separado de 50 milhões. A explicação – um trabalho de compliance – chega a debochar do público. Todos compreendem que era puro tráfico de influência, consultoria privilegiada a um bandido: “Vai bloquear?”; “Devo sair do país?”
No caso de Kassio Nunes Marques, o diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, tratava o filho do ministro, o jovem advogado Kevin, com um pagamento mensal de quinhentos mil reais. “Esse aqui – R$ 500 mil por mês – mantém?”, perguntava Rennó. Vorcaro respondia com risadas. A Consult Inteligência Tributária recebeu mais de seis milhões do banco. Kevin diz que prestou serviços tributários e não tem nada a ver com o STF. Claro. Ninguém tem nada a ver com nada.
Só uma faxina ampla pode resgatar a credibilidade da Corte agora. A alternativa é Moraes assumir a presidência do STF em 2027, apesar de tudo, e lançar a instituição num abismo total
No Metrópoles, Tácio Lorran informa que Vorcaro reservou uma mansão de R$ 250 milhões para o ministro “KN” no carnaval. As conversas revelam tratativas de Vorcaro para acomodar ministro em imóvel de luxo no Rio, e o serviço previa Macallan aos convidados. Que obsessão é essa por tal marca de uísque?
Gilmar Mendes, o decano, recebeu Vorcaro no gabinete em abril de 2024. O ex-cunhado do ministro, Chiquinho Feitosa, chamava o banqueiro de “irmão” e aconselhava: “Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro!”. Feitosa cobrava quinhentos mil por mês da Super Empreendimentos. Vorcaro pediu voto favorável numa causa bilionária de precatórios de usinas. Gilmar votou contra. Mas o acesso estava lá. O canal estava aberto. Será que essas ligações explicam a postura nervosa do ministro naquela sessão histórica, em que agiu como um mafioso?
A briga entre Gilmar e Nunes Marques virou pública. O decano mandou mensagens exigindo que o colega “abra as contas” e saia dos processos. “Assumam que estão ferrados.” Nunes Marques bloqueou o colega. Luiz Fux respondeu: “Cuide de não encher meu saco!”. O tribunal virou um grupo de WhatsApp tóxico com foro privilegiado. A toga dá um ar de seriedade que o comportamento nos bastidores trai.
O que está em jogo não é a moralidade de um ou outro ministro. É a credibilidade de uma instituição que se acha acima de tudo e de todos. Quando o banqueiro preso consegue chegar ao gabinete do decano, quando o filho de um ministro aparece em planilhas de pagamento, quando milhões garantem o acesso direto ao poderoso ministro, quando o próprio tribunal trava em brigas internas por causa de um celular, o problema não é o Vorcaro; o problema é o sistema que permitiu que ele operasse desse jeito.
VEJA TAMBÉM:
A transferência fenomenal não é só de dinheiro. É de poder. É de impunidade. É de um tribunal que julga os outros enquanto se julga a si mesmo e sai sempre inocente, não importa a quantidade de evidências contrárias.
Como mostra reportagem de Omar Godoy na Gazeta do Povo, essas “crises” não chegam a ser novidade. Antes do caso Master, foram ao menos dez crises que marcaram o STF. A Corte já foi palco de vários bate-bocas bastante chulos, de um nível que mais parece um boteco do que um tribunal constitucional. Joaquim Barbosa chegou a lembrar que não era um dos “capangas” de Gilmar Mendes, e Barroso se referiu ao mesmo colega como “uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”.
No entanto, como o próprio repórter admite logo no começo, o momento atual da Suprema Corte não tem paralelos históricos. Trata-se de uma “crise” sem precedentes, pois as entranhas da instituição estão expostas em praça pública e poucos se salvam. Vorcaro tentou corromper a república toda, e, pelo visto, havia muita gente disposta a aceitar o acordo indecoroso, inclusive no STF. Só uma faxina ampla pode resgatar a credibilidade da Corte agora. A alternativa é Moraes assumir a presidência do STF em 2027, apesar de tudo, e lançar a instituição num abismo total.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Rodrigo Constantino é economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja, O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




