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A turma que prefere Tarcísio a Flávio Bolsonaro ainda não jogou a toalha. No começo, chegaram a acreditar que a indicação do filho era um "balão de ensaio" ou uma "chantagem". Agora percebem que a coisa é mais séria, e usam pesquisas para vender a ideia de que Tarcísio de Freitas é um nome mais competitivo, ignorando a distância das eleições e a necessidade de uma saudável desconfiança com tais pesquisas.
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Em sua coluna de hoje no Globo, o tucano Merval Pereira chega a afirmar que Bolsonaro prefere Flávio mesmo sabendo das chances maiores de derrota, pois assim poderia manter o domínio sobre a direita, mesmo que na oposição. Merval é um dos que defendem a ideia de que o país precisa de um CEO no governo:
Dificilmente Bolsonaro mudará de ideia, porque está convencido de que é melhor perder com seu filho do que ganhar com Tarcísio. O raciocínio é simples, ou simplório: um candidato vitorioso que ele não possa controlar criará um líder de direita que, se exitoso no governo, deixará o bolsonarismo a ver poeira da estrada. Um presidente de direita não precisa ser radical para satisfazer ao eleitorado antipetista. Precisa ser um bom administrador. Por isso a frase de que o país precisa de um CEO é uma crítica indireta a Jair ou a Flávio, que não têm esse perfil.
A escolha de Flaávio Bolsonaro vai muito além da disputa pelo controle da direita ou de um filtro com base em quem seria o melhor CEO do país. É uma escolha política que, ao preservar o sobrenome Bolsonaro na urna, escancara ao Brasil e ao mundo o regime de exceção
Essa ideia de CEO é bobagem, porém. Dilma foi vendida pela imprensa como "gestora eficiente", e João Doria foi tratado como "o CEO de São Paulo". Deu no que deu. A função de um presidente ou de um governador vai muito além da "gestão eficiente", até porque ele pode indicar quadros técnicos para seus ministérios ou secretarias, como fez Jair Bolsonaro, aliás. Paulo Figueiredo rebateu bem essa ideia do CEO:
O Bolsonarismo não quer um CEO. Isso é positivismo estúpido típico de milico. País não é empresa e presidente não é gestor de planilha. CEO pensa em eficiência, custo e lucro; presidente tem que lidar com valores, soberania, identidade nacional e com um povo real, diverso e cheio de conflitos legítimos. Essa ideia de “governo técnico, não ideológico” serviu para tirar decisões da mão da população e entregá-las a burocratas, especialistas e elites que se dizem neutras, mas impõem sua própria visão de mundo. Foi assim que, em nome da eficiência e do livre mercado, destruíram indústrias nacionais, enfraqueceram o Estado-nação e concentraram poder em organismos e reguladores não eleitos. A pandemia escancarou isso: um bando de gestores decidindo como as pessoas podiam viver, trabalhar e circular, sem debate político real. O bolsonarismo nasce da antítese disso, como reação a essa lógica — não contra ordem ou competência, mas contra a ideia de que o povo deve ser permanentemente tutelado por uma elite tecnocrática que trata a nação como se fosse uma empresa mal administrada.
A esposa de Tarcísio curtiu uma mensagem que fala dessa tese do CEO, mas ignora que o próprio Tarcísio surgiu na política justamente como ministro de Bolsonaro, ou seja, um presidente que soube identificar um talento e deu autonomia para seu ministro tocar a pasta. A ascensão do próprio Tarcísio, portanto, prova que não é necessário que um presidente tenha o perfil de CEO. Basta ele se cercar de bons gestores.
A escolha de Flávio Bolsonaro vai muito além da disputa pelo controle da direita ou de um filtro com base em quem seria o melhor CEO do país. É uma escolha política que, ao preservar o sobrenome Bolsonaro na urna, escancara ao Brasil e ao mundo o regime de exceção em que os brasileiros vivem hoje. Flávio na disputa lembra de Clezão, da Débora e tantos outros que o sistema gostaria de apagar da memória do eleitor.
O argumento da maior rejeição pode até fazer algum sentido, mas ignora que Flávio não é exatamente o pai e pode sinalizar uma moderação maior, como já vem fazendo. O argumento do CEO, como vimos, é extremamente falho. Logo, a turma que insiste tanto em Tarcísio no lugar de Flávio quer mesmo é eliminar Bolsonaro da política.
No fundo, não ligam para os abusos supremos ou deixam a ojeriza que sentem pelo bolsonarismo falar mais alto do que o patriotismo. Os grupos ficam se digladiando com ataques mútuos, em vez de focar na necessária união para derrotar não só o petismo, mas o consórcio PT-STF em conluio com a velha imprensa.
Isso vale para os que criam intrigas pois ainda não desistiram de Tarcísio candidato, mas vale também para alguns bolsonaristas. Com tanta coisa acontecendo, é estranha a escolha de pauta de alguns de ficar atacando a revista Oeste, a Michelle Bolsonaro, o Novo e até o Tarcísio. Não precisamos de união e de todo apoio possível ao candidato Flávio Bolsonaro? Sua candidatura não precisa dos mais moderados para vencer? Ou acham que só a bolha bolsonarista será suficiente?
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos





