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Money Week 2026

EUA x China abre espaço para Brasil ampliar exportações e atrair investimento, avalia economista

Marcos Troyjo, economista e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, durante o Money Week 2026
Troyjo defende que o Brasil tem margem para crescer nas exportações agrícolas e diversificar destinos além da Ásia. (Foto: Morgana Bressiani/Especial para a Gazeta do Povo)

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O avanço das exportações agrícolas brasileiras para a China, impulsionado pela guerra comercial com os EUA, é uma das principais oportunidades abertas ao Brasil pela rivalidade entre as duas maiores economias do mundo, avalia o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Troyjo cita que o país se aproxima dos Estados Unidos na disputa pela liderança global das exportações agrícolas, tendo atingido no último ano um total de US$ 169,2 bilhões — apenas US$ 2 bilhões abaixo dos US$ 171 bilhões norte-americanos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA e do Ministério da Agricultura do Brasil.

Em entrevista à Gazeta do Povo, durante o evento "Money Week 2026"*, realizado em Balneário Camboriú (SC), Troyjo disse que o mundo vive uma espécie de "guerra fria 2.0" entre Estados Unidos e China, mas considera que o grau de interdependência entre as duas potências ainda é bem vasto.

"A corrente comercial entre Estados Unidos e China, mesmo hoje, com todo esse protecionismo, é de praticamente 1,8 bilhão de dólares a cada 24 horas", afirma. Ele lembra que entre 2001 — ano em que a China entrou na Organização Mundial do Comércio — e 2019 — início da pandemia de Covid-19 — os Estados Unidos foram o principal destino do investimento direto chinês no exterior, enquanto a China foi o principal destino do investimento direto norte-americano.

Nesse cenário de disputa, no entanto, o economista identifica pontos de atrito que abrem espaço para países como o Brasil. E aponta que, ao longo de todo o período de abertura econômica chinesa, iniciado em 1978, os Estados Unidos foram o principal fornecedor de alimentos à China — posição que o Brasil assumiu nos últimos cinco anos.

Atribuindo a mudança à necessidade chinesa de garantir abastecimento — com 1,5 bilhão de habitantes e renda crescente —, ressalta que a China é ao mesmo tempo um dos maiores produtores mundiais de alimentos e o maior importador líquido do setor. Troyjo avalia que essa demanda deve se intensificar, com a China reduzindo compras de alimentos dos Estados Unidos, da Austrália, da Nova Zelândia e da Europa, e ampliando as importações brasileiras.

O economista também destaca uma margem de crescimento ainda pouco explorada com os Estados Unidos. "Oscilamos entre 0,8 e 1,1% de tudo aquilo que o mercado americano compra do mundo", destaca, referindo-se à participação brasileira nas importações totais dos EUA. Para o especialista, isso indica espaço para o país diversificar seus destinos de exportação, hoje concentrados na Ásia.

Acordo com bloco europeu impulsiona exportações do Brasil

Outra frente citada por Troyjo é o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE), negociado quando ele ocupou o cargo de secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia.

Em vigor desde 1º de maio deste ano, o acordo zerou ou reduziu tarifas para cerca de 5 mil produtos brasileiros. Nos dois primeiros meses de vigência, as vendas do Brasil à UE cresceram US$ 2 bilhões em relação ao mesmo período de 2025, alta de 26%, segundo levantamento da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A agência estima que o acordo pode ampliar as exportações brasileiras em até US$ 7 bilhões no total.

Troyjo atribui parte da aceleração ao aumento do protecionismo norte-americano, que levou os europeus a buscar novas parcerias comerciais — um movimento que, segundo ele, soma-se ao potencial ainda pouco explorado do bloco europeu como destino das exportações brasileiras. "A União Europeia é um mercado que tem 450 milhões de habitantes e tem um PIB que é 15% maior que o da China, com um terço da população", destaca o economista na comparação.

Deficiências de infraestrutura viram vantagem

O aumento das exportações brasileiras à China e à União Europeia expõe também um desafio conhecido do país: a capacidade de escoar essa produção. Para Troyjo, no entanto, o gargalo histórico da infraestrutura brasileira — irrigação, armazenamento, portos e transporte ferroviário — ganha um significado diferente no cenário atual de tensão comercial entre as grandes potências.

"Em um contexto internacional em que existe uma grave insegurança alimentar, uma grave insegurança energética, esses problemas deixam de ser do Brasil, são problemas do mundo", afirma. Para o economista, essa mudança de percepção é o que torna o setor de infraestrutura brasileiro um alvo mais atraente para investimento estrangeiro nos próximos anos.

O interesse aparece em números: o setor de logística brasileiro deve receber R$ 300 bilhões em investimentos, somando concessões de rodovias, ferrovias e portos, segundo cálculo do Ministério dos Transportes. Entre 2023 e 2025, os leilões desse tipo de ativo resultaram em contratos de R$ 262 bilhões.

Minerais críticos dependem de reforma tributária

Outra oportunidade apontada pelo economista está nos minerais críticos, cuja relevância cresce à medida que se tornam insumo estratégico para setores como tecnologia da informação, defesa, novos materiais e robótica humanoide. Troyjo sustenta que ter reservas desses minerais — o que ele chama de "loteria geológica" — não garante, por si só, ganhos econômicos.

“Mineração e refino exigem grande investimento de capital e têm longo prazo de maturação para gerar retorno contábil”, lembra. A carga tributária, na percepção do especialista, deve ser um dos obstáculos à agregação de valor no território nacional. “Enquanto outros países cobram entre 18% e 19% sobre esse tipo de atividade, o Brasil tributa em até 33%, o que pode desincentivar investidores a refinar esses materiais internamente”, diz.

O economista argumenta que resolver esse entrave tributário é o que definirá se o Brasil vai apenas fornecer a matéria-prima da nova disputa tecnológica entre EUA e China, ou se vai capturar parte do valor que ela gera.

*A reportagem da Gazeta do Povo viajou para o evento a convite dos organizadores.

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