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Vitrine comercial

Corretores viram marca pessoal no disputado mercado imobiliário de Santa Catarina 

Em Balneário Camboriú, a imagem do corretor passou a dividir espaço com os empreendimentos na estratégia de atrair compradores e proprietários.
Em Balneário Camboriú, a imagem do corretor passou a dividir espaço com os empreendimentos na estratégia de atrair compradores e proprietários. (Foto: Fernanda Latronico/Pexels)

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Quem faz o trajeto do centro de Balneário Camboriú (SC) em direção à Praia Brava, em Itajaí, pela primeira vez, percebe um detalhe na paisagem um pouco incomum se comparado a outros grandes centros de investimento imobiliário: rostos de corretores de imóveis dividem espaço com fachadas de edifícios e apartamentos de frente para o mar em outdoors instalados em avenidas e acessos da região.

Nas redes sociais, os mesmos profissionais se transformaram em verdadeiros influencers digitais, mostrando empreendimentos em vídeos capazes de decidir uma compra antes mesmo de uma visita ao imóvel.

A cidade de Balneário Camboriú tinha 4.663 corretores e 599 empresas imobiliárias registrados no Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Santa Catarina (Creci-SC) em 2025. Em todo o estado, eram 48.371 profissionais e 10.544 empresas, segundo o conselho.

No país, o Sistema Cofeci-Creci reunia cerca de 650 mil corretores e 74 mil empresas imobiliárias no mesmo ano. Em 2026, o número passou de 700 mil, segundo dados do Conselho Federal de Corretores de Imóveis (Cofeci). O conselho atribui a transformação do setor a mudanças na prospecção, na abordagem, na angariação e na venda de imóveis.

Nesse mercado, com milhares de corretores e produtos que podem ser ofertados por diferentes profissionais, parte da disputa se deslocou para o nome de quem faz a venda. Guilherme Pilger e Bruno Cassola, dois corretores que atuam no mercado catarinense, seguiram caminhos diferentes para transformar a própria imagem em ativo de negócio.

Um deles chegou à cidade em 2020 e ocupou outdoors para ser conhecido. O outro concluiu, depois de quase duas décadas de carreira, que seu nome convertia mais negócios do que a marca da própria imobiliária.

Essa nova vitrine comercial explorada por ambos mistura publicidade de rua, conteúdo digital, relacionamento e uma disputa por confiança em negociações de alto valor. Como esse modelo se consolidou no litoral catarinense e os limites que ele impõe à profissão são questões que ajudam a explicar a transformação em curso.

Como corretores de imóveis transformam a própria imagem em marca

Pilger começou a produzir vídeos imobiliários em 2016, quando ainda morava em Sapiranga (RS). Ele conta que enxergou no meio digital uma oportunidade para apresentar imóveis e, ao mesmo tempo, se tornar reconhecido por quem acompanhava os conteúdos.

“Os vídeos imobiliários, além de aproximarem o cliente e ajudarem a vender os imóveis, me trouxeram mais visibilidade, mais autoridade”, conta. Quando se mudou para Balneário Camboriú, em 2020, Pilger decidiu repetir a estratégia em escala maior.

Ele instalou 20 outdoors entre a cidade e a Praia Brava, incluindo pontos nas rotas de entrada de visitantes que chegavam do Rio Grande do Sul e do Paraná. O corretor também produziu conteúdo profissional de 20 imóveis de alto padrão. De cada um, produziu um vídeo longo para o YouTube, uma versão para reels e um carrossel de fotos para o Instagram.

A intenção era que quem o visse em um painel pudesse encontrar, depois, uma sequência de conteúdos ligados a imóveis de alto valor. “As pessoas me viam nos outdoors, pesquisavam meu nome no Google e me encontravam nas redes sociais como um corretor de alto padrão”, conta.

Outdoor de Guilherme Pilger em Balneário CamboriúAo chegar a Balneário Camboriú em 2020, Guilherme Pilger usou outdoors e vídeos para construir reconhecimento em uma cidade onde ainda não tinha rede de contatos. (Foto: Guilherme Pilger/Divulgação)

Hoje um dos nomes mais relevantes na corretagem do estado catarinense, Pilger soma pouco mais de 500 mil inscritos em todas as suas redes sociais (Youtube, Instagram e Tiktok) e diz ter em torno de 3 a 4 milhões de visualizações mensais. Ele revela que os contatos mais qualificados chegam pelo YouTube, “depois que a pessoa acompanha mais de um vídeo, busca contato pelo WhatsApp”. Já os outdoors têm maior efeito entre proprietários que pretendem colocar imóvel à venda.

Cassola construiu sua marca por outro caminho. Ele entrou no setor em 2007, trabalhou em incorporadoras consolidadas no mercado da região, como FG e Embraed e, depois, decidiu montar uma operação que lhe permitisse comercializar imóveis de diferentes empresas e atender clientes também na revenda. Há cerca de três anos, o corretor decidiu criar um novo site com o próprio nome e diz ter percebido com a mudança para marca pessoal que passou "a ter mais vendas do que a marca institucional”.

“Quando uma pessoa vê repetidamente o nome, o rosto e o posicionamento de um corretor em determinado território, essa marca começa a gerar familiaridade”, explica a especialista em marketing e branding Thaisa Vieira, professora da Uniavan. Ela diz que a presença do corretor na comunicação não substitui os demais canais, mas acrescenta uma camada de familiaridade à relação comercial. Para Vieira, é justamente isso que pode contribuir para a confiança quando vem acompanhada de conteúdo consistente e conhecimento de mercado.

Por que o outdoor ainda vale no mercado imobiliário

Bruno Cassola acredita que a publicidade exterior, como o outdoor, ganha importância na região justamente porque muitos profissionais trabalham com ofertas semelhantes. O comprador pode escolher com quem falar antes mesmo de decidir qual apartamento visitar.

“Se aqui todos têm, basicamente, os mesmos imóveis, por que a pessoa vai me escolher e não outro? Porque me acompanha, vê meu outdoor e me reconhece”, diz. Segundo ele, o formato também é a melhor escolha para alcançar quem chegou há pouco tempo à cidade e ainda não conhece os corretores locais.

A lógica ajuda a explicar por que o rosto do profissional, e não a imagem do empreendimento, aparece nos painéis. Cassola diz que o outdoor produz impacto e funciona como parte de um conjunto de ações que inclui presença em portais imobiliários, site, tráfego pago, redes sociais e relacionamento presencial. “Acredito que o melhor resultado vem do mix”, ressalta.

Outdoor de Bruno Cassola em Balneário Camboriú, um dos corretores imobiliários de Santa CatarinaBruno Cassola acredita que em um mercado no qual diferentes corretores podem oferecer os mesmos imóveis, a publicidade exterior ajuda o cliente a reconhecer o profissional antes de definir com quem vai negociar. (Foto: Bruno Cassola/Divulgação)

Vice-presidente de Comunicação e Marketing do Secovi (órgão que reúne empresas do setor imobiliário) de Florianópolis e Tubarão, Luiz Fernando Pasin afirma que o outdoor ainda tem peso na formação da imagem de quem anuncia. A propaganda aproxima a função dos painéis a da lógica das placas instaladas em imóveis: na avaliação dele, ambas ajudam a tornar o profissional reconhecível por pessoas que circulam na região.

“Se a placa, que seria muito mais arcaica, ainda funciona, o outdoor também forma marca”, aponta Pasin. “As pessoas gostam de saber com quem estão lidando.”

A função do painel, porém, não termina na rua. Diretor comercial, de marketing e experiência do cliente da FG Empreendimentos, Alex Brito acredita que, em Balneário Camboriú, o impacto pode começar na mídia exterior e continuar quando o potencial comprador pesquisa a marca, o empreendimento ou o corretor no celular.

Para ele, medir o outdoor apenas pelo contato direto deixa de fora sua função de presença e familiaridade. É nessa passagem entre rua e tela que o outdoor ganha um papel diferente do anúncio imobiliário tradicional: em vez de levar o comprador apenas a um imóvel, pode levá-lo primeiro a um nome.

O limite da marca pessoal para os corretores de Santa Catarina

Pasin afirma que a construção de marca pessoal pelo corretor é uma tendência nacional e não exclusiva do mercado de alto padrão. Para ele, o profissional atua como uma espécie de empresário individual, que pode trabalhar de forma independente ou se alinhar a uma imobiliária por parcerias.

“O corretor é um empresário, ele funciona como uma empresa própria. Então, ter uma marca própria é importante”, acrescenta ele. Na avaliação do dirigente do Secovi, corretores conseguem competir com imobiliárias porque ocupam um espaço de relacionamento pessoal que empresas nem sempre conseguem reproduzir.

“As imobiliárias acabaram deixando um espaço no mercado, que é justamente o do contato olho no olho, de não ser só uma marca. Nas redes sociais, as pessoas se conectam com pessoas”, aponta.

Pilger diz ter vivido essa autonomia no início de sua operação na cidade. Sem os benefícios de uma imobiliária, trabalhando em home office, afirma que não precisou de uma grande estrutura física para fechar vendas de alto valor.

O escritório veio depois, segundo ele, para reforçar o relacionamento presencial. “Primeiro fiz com que a minha marca se tornasse conhecida. A partir disso, consegui acessos e informações privilegiadas”, afirma.

Mas o modelo tem um limite prático, reconhecido pelo próprio Pasin. “Às vezes, se o corretor está sozinho, ele vai ter que praticamente começar uma imobiliária com a marca dele”, diz, explicando que este profissional precisa acumular produção de conteúdo, prospecção, captação de imóveis, atendimento, cadastro, gestão administrativa e negociação.

Sócia da Imobiliária Felicità, Bruna Eleutério concorda com esse ponto. Ela conta que o trabalho com o próprio nome, quando investiu em vídeos na internet, melhorou seus resultados, mas era sustentado pela estrutura da empresa onde trabalhava.

Hoje, replica a receita na própria imobiliária, que reúne carteira de imóveis, três unidades físicas, profissionais dedicados exclusivamente para cadastro de imóveis, apoio administrativo e acesso a informações sobre lançamentos e condições comerciais. Além disso, especialista em fotografia, vídeo e marketing disponível aos corretores para incentivar que trabalhem o próprio nome como marca pessoal.

Ela pontua que “um corretor autônomo não consegue ter essa estrutura com facilidade”, o que, em sua opinião, acaba dificultando para um profissional em começo de carreira. “Ele teria de ser seu próprio jurídico, financeiro, fotógrafo, cadastrar o imóvel no site e fazer tudo. É quase impossível.”

Pasin acredita que a associação entre corretor e imobiliária amplia, e não reduz, o potencial de ambos. “Quando a imobiliária oferece estrutura para o corretor e ele pode se concentrar naquilo em que é bom, o potencial se expande”, afirma.

Seguidores não bastam para vender imóveis de alto padrão

Na construção dessa tendência apontada por Pasin, a transformação do corretor imobiliário em marca pessoal não elimina a diferença entre alcance e credibilidade.

Cassola acredita que a exposição digital não permite ao consumidor saber, isoladamente, se o corretor é um bom negociador. Para ele, a comunicação precisa ser acompanhada de conhecimento técnico e de responsabilidade sobre as expectativas criadas.

Para a FG Empreendimentos, “o número de seguidores não determina a escolha de parceiros comerciais”. O indispensável para a empresa, afirma Brito, é conhecimento de mercado, qualidade de atendimento, postura comercial, transparência e capacidade de representar corretamente os empreendimentos.

“Para imóveis de alto padrão, dez relacionamentos efetivamente qualificados podem valer mais comercialmente do que centenas de milhares de visualizações”, acrescenta Brito.

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