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Um projeto-piloto de transporte aquaviário entre o continente e a Ilha de Florianópolis está sendo articulado entre o governo catarinense e as prefeituras da região da capital. O serviço prevê ligações de Palhoça e Biguaçu ao Centro de Florianópolis, com possibilidade de parada em São José. Ainda não há data para o início das viagens.
Conduzida pela Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias do estado, a proposta busca oferecer uma alternativa de deslocamento para pedestres e ciclistas. A operação terá subsídio estadual e deverá funcionar como um teste para reunir informações sobre a demanda e orientar futuras operações na região.
As reuniões com os municípios permitiram identificar áreas potenciais para os terminais, que ainda passarão por validação técnica. Segundo o secretário Ivan Amaral, os acordos de cooperação estão em análise para posterior assinatura, enquanto o estado avança na estruturação do projeto.
O piloto deverá produzir dados sobre demanda, custos e regularidade. Além de viabilizar a infraestrutura, o desafio será demonstrar se o barco oferece vantagens na viagem completa, considerando o acesso ao terminal, a espera e o deslocamento depois do desembarque, avalia o professor do departamento de Automação e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Werner Kraus Junior.
Como deve funcionar o transporte aquaviário
Nesta primeira fase, os barcos deverão transportar apenas passageiros a pé e ciclistas, sem espaço para automóveis. A intenção do governo catarinense é atender tanto quem já anda de ônibus quanto quem utiliza outros meios de transporte. O tipo de embarcação e a forma de contratar a operação ainda serão definidos.
“Por se tratar de um projeto-piloto, o objetivo também é de coletar dados sobre a movimentação real de passageiros e outros indicadores para subsidiar futuras estruturações de operações sobre o transporte aquaviário intermunicipal”, afirma Amaral.
A previsão é testar o serviço por pelo menos 12 meses, embora essa duração ainda dependa de validação jurídica e legal. Segundo a secretaria, o período permitiria observar como a procura muda ao longo do ano.
Durante o teste, serão acompanhados itens como a ocupação dos barcos, o cumprimento dos horários, as variações no número de passageiros, as interrupções provocadas pelas condições do tempo e os resultados financeiros. Para tornar a passagem acessível, o serviço contará com subsídio estadual, mas o preço ainda não foi definido.
Também está em discussão como o passageiro pagará pela viagem quando precisar combinar o barco com ônibus antes ou depois da travessia. Florianópolis já está em conversa com o estado sobre uma proposta de integração tarifária.
Segundo Amaral, o governo tem estimativas preliminares de quanto será necessário investir em infraestrutura e gastar com a operação. Os valores, porém, não foram divulgados porque ainda passam por análise e validação.
Rotas previstas
As viagens deverão percorrer entre 11 e 20 quilômetros e durar de 20 a 35 minutos. A estimativa da secretaria estadual inclui o tempo para a embarcação encostar no terminal e para os passageiros embarcarem e desembarcarem.
Pela rota sul, os barcos sairiam de Palhoça rumo ao centro de Florianópolis. Pelo norte, o ponto de partida seria Biguaçu, também com destino ao centro da capital catarinense. Nos dois percursos, há possibilidade de parada em São José.
A localização dos terminais ajudará a definir os trajetos e como o atendimento será organizado. As prefeituras indicaram áreas que poderiam receber os pontos de embarque e desembarque, mas nenhum local está confirmado. Segundo Amaral, a escolha leva em conta as condições e possibilidades de cada município, e as sugestões ainda passarão por avaliação técnica.
Estar perto de linhas de ônibus é um dos critérios considerados desde o início. A intenção, de acordo com o secretário, é facilitar tanto a chegada dos passageiros ao barco quanto a continuação da viagem depois da travessia.
Os intervalos entre as saídas também dependerão da organização final do serviço. “Prevemos periodicidade a cada 30 minutos ou menos nos horários de pico, com intervalos maiores nos demais períodos do dia”, afirma Amaral.
Transporte pelo mar pode melhorar os deslocamentos?
Para o professor Kraus, pesquisador de sistemas de transporte da UFSC, o desafio será fazer do barco uma opção vantajosa para quem precisa se deslocar todos os dias. Na avaliação dele, o tempo gasto para chegar ao terminal, esperar a saída e seguir viagem depois do desembarque pode reduzir a vantagem da travessia em relação ao transporte por terra.
Para o pesquisador, essas etapas reduzem o público que poderia se interessar pelo serviço e dificultam, principalmente, a atração de quem hoje utiliza carro. Para quem dirige, há ainda a necessidade de conciliar o deslocamento com outras tarefas, como buscar os filhos na escola ou passar no mercado, paradas que, segundo Kraus, são mais difíceis de encaixar no transporte coletivo.
O preço também pesa nessa escolha. O professor defende que combinar ônibus e barco não custe mais do que o passageiro pagaria pelo trajeto correspondente por terra. “Acrescentar uma passagem de barco ao custo dos ônibus, além das esperas e dos transbordos envolvidos, comprometeria a atração de usuários”, afirma.
Mesmo sem cobrança adicional, a integração não resolveria sozinha os desafios de atrair passageiros e financiar o serviço. Seria preciso definir como a arrecadação seria dividida entre os operadores e de onde viriam os recursos para cobrir a diferença entre o dinheiro recebido e os custos da operação. Para o pesquisador, os benefícios precisam ser comparados também ao que seria possível alcançar aplicando os mesmos recursos na melhoria do transporte coletivo por terra.
O que falta para o projeto começar a operar
Antes de colocar os barcos em circulação, o estado precisará verificar as condições de navegação, detalhar as reformas e as novas estruturas, obter as licenças e executar as obras. Segundo a secretaria responsável pela proposta, só depois dessas etapas será possível avançar para a licitação que contratará a operação do serviço.
O planejamento também terá de prever como manter as viagens seguras e regulares. Werner aponta a necessidade de definir em quais condições de vento, ondas e visibilidade os barcos poderão navegar e com que frequência o mau tempo poderia levar à suspensão das saídas.
Para cumprir os horários, será necessário considerar a manutenção preventiva, a disponibilidade de barcos de reserva e equipes suficientes para cobrir os turnos e os afastamentos dos profissionais. “Para o passageiro cotidiano, a confiança no cumprimento dos horários e na disponibilidade da viagem de volta é essencial”, diz o professor.











