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Santa Catarina colocou o Índice de Complexidade Econômica (ICE) no centro de sua estratégia de desenvolvimento até o ano de 2035. A ferramenta deverá orientar decisões sobre qualificação profissional, atração de investimentos, inovação e fortalecimento de cadeias produtivas de acordo com as características de cada região do estado.
A iniciativa integra o "Avança SC", estratégia coordenada pela Secretaria de Estado do Planejamento (Seplan). A proposta é usar indicadores econômicos, sociais, territoriais e de infraestrutura para identificar capacidades existentes, gargalos e possibilidades de diversificação em municípios e regiões catarinenses.
Para o economista Nildo Ouriques, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o desafio é transformar esse diagnóstico em resultados concretos. Santa Catarina reúne alguns dos melhores indicadores socioeconômicos do país, porém, ele aponta que o desenvolvimento não ocorre de maneira uniforme: renda, infraestrutura, oferta de empregos qualificados e diversificação produtiva variam entre as regiões.
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Como o ICE mede a sofisticação de uma economia
O ICE é um indicador desenvolvido a partir de estudos dos pesquisadores Ricardo Hausmann e César Hidalgo, ligados ao Center for International Development (CID), da Harvard Kennedy School. Em linhas gerais, ele busca medir a sofisticação da estrutura produtiva de um país, estado ou região a partir da diversidade de atividades que uma economia consegue desenvolver e do grau de raridade desses produtos ou setores.
Em Santa Catarina, a gestão estadual afirma utilizar o índice baseado no emprego, conhecido como ICE-R. Segundo Felipe Pasqualin, diretor de Políticas Públicas da Secretaria do Planejamento catarinense, o cálculo usa principalmente a distribuição de vínculos formais por setor registrada na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), complementada por dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A premissa é que a capacidade de produzir bens e serviços diversos e pouco disseminados revela conhecimentos, tecnologia, mão de obra especializada, fornecedores, infraestrutura e instituições integradas. Mais do que o volume produzido, o indicador observa a variedade das capacidades econômicas existentes em cada território.
Uma região que se limita à produção primária de gado, por exemplo, tem uma estrutura econômica diferente de outra que também processa alimentos, desenvolve produtos de couro, logística, máquinas, biomateriais e serviços especializados associados à cadeia.
“Cada novo elo produtivo exige mais tecnologia, qualificação e integração entre setores, elevando o nível de sofisticação econômica do território”, afirma Pasqualin. A secretaria pretende usar essa leitura para identificar atividades próximas das capacidades já instaladas em cada região e políticas que possam viabilizar novos elos produtivos.
Os mapas econômicos de Santa Catarina
O "Avança SC" prevê a elaboração de 21 cadernos de diretrizes estratégicas regionais, organizados conforme as associações de municípios do estado. A Seplan aponta que os documentos devem reunir diagnósticos e projeções sobre a economia local, além de organizar projetos e metas em quatro frentes: atração de investimentos, infraestrutura, capacitação de mão de obra e fortalecimento de cadeias produtivas locais.
A estratégia reúne mais de 200 indicadores econômicos, sociais, territoriais e de infraestrutura. A validação das informações é feita com participação de representantes de associações de municípios, prefeituras, entidades empresariais, universidades, centros de inovação e sociedade civil.
“Os técnicos aplicam conceitos de complexidade econômica diretamente sobre os bancos de dados estaduais para checar a aderência dos números à realidade local”, conta Pasqualin. Segundo a classificação da Seplan, regiões de Joinville, Jaraguá do Sul e Blumenau estão entre as mais avançadas em complexidade econômica.
Florianópolis, Criciúma e Chapecó aparecem em um grupo em ascensão; já áreas como São Lourenço do Oeste, Xanxerê, Araranguá e Canoinhas são classificadas pela pasta como regiões com potencial de desenvolvimento e maiores desafios de diversificação.
A pasta afirma que as oportunidades identificadas serão avaliadas segundo a proximidade com as capacidades já existentes em cada região, bem como o esforço técnico e financeiro necessário para viabilizá-las. As propostas devem passar por validação com representantes do setor produtivo, prefeituras e redes de inovação, incluindo análise de demanda de mercado, logística e capacidade de execução.
“Estimular a complexidade econômica nos territórios, além de ter um objetivo social, trará como consequência direta o equilíbrio econômico nos territórios”, afirma o secretário de Estado do Planejamento, Arão Josino.
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Qualificação depende de investimento, diz economista
A estratégia prevê articulação com órgãos e programas estaduais. Entre eles estão a InvestSC, responsável pela atração de investimentos, e o CaTec, programa voltado à formação técnica de estudantes da rede estadual.
A Seplan afirma que a estratégia deve ser integrada aos instrumentos de orçamento público, como o Plano Plurianual (PPA). O "Avança SC", contudo, não possui orçamento próprio. A pasta informou que sua função é servir como referência para orientar a alocação de recursos em programas de governo, investimentos públicos e privados e políticas estaduais já existentes.
Para Ouriques, a formação profissional precisa estar vinculada a uma política de investimentos capaz de criar demanda local por trabalhadores. Sem essa conexão, avalia, cursos técnicos podem preparar profissionais para vagas que não existem em suas regiões ou levá-los a buscar oportunidades em outros centros. “Vamos formar força de trabalho em eletrônica, em computação, técnico em informática, em TI. Para trabalhar onde? Vai formar aqui, e depois eles vão para São Paulo trabalhar”, afirma.
“O planejamento precisa considerar que várias das chamadas vocações regionais já são conhecidas. Agricultura no oeste, indústria têxtil no Vale do Itajaí e polos de móveis e metalmecânica no norte”, opina o professor, sobre os exemplos de atividades que marcaram a economia catarinense em diferentes períodos.
O desafio, segundo ele, é entender por que algumas dessas cadeias perderam dinamismo e quais condições seriam necessárias para renová-las. “As vocações já estão identificadas. Mas o problema é que essas vocações estão decadentes”, diz.
Embora critique a capacidade do indicador de orientar o desenvolvimento sem instrumentos de indução, o economista concentra sua cobrança na execução da estratégia: para ele, o risco é que o plano permaneça restrito a diagnósticos sem recursos, crédito e investimentos associados.
As metas que definirão o resultado do plano
Para acompanhar os resultados, a Seplan explica que utilizará dados de emprego e renda, PIB regional, distribuição de renda, desenvolvimento humano, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura e sustentabilidade. Segundo a pasta, os primeiros resultados são esperados entre 2027 e 2028, após a conclusão dos cadernos regionais e o início de programas alinhados às diretrizes.
Para Ouriques, a questão decisiva é saber quais ações decorrerão do diagnóstico e qual será a capacidade financeira do estado para realizá-las. A avaliação da estratégia, para ele, dependerá não apenas da evolução do ICE, como também da execução de investimentos e de sua capacidade de ampliar oportunidades de trabalho e renda nos territórios.
O secretário Josino afirma que os cadernos deverão servir de base para decisões de gestores públicos e do setor privado. “A ideia é que prefeitos, empreendedores e investidores usem esse documento para tomar decisões mais assertivas, baseadas em dados, indicadores e inteligência econômica”, diz.









