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Indústria de transformação

Santa Catarina quer ampliar mercado com acordo Mercosul-UE e 805 nichos mapeados para exportação

Mapeamento da ApexBrasil aponta 805 oportunidades para empresas de Santa Catarina no acordo Mercosul e União Europeia, com foco em indústria de transformação e agronegócio
Mapeamento da ApexBrasil aponta 805 oportunidades para empresas catarinenses no acordo Mercosul–União Europeia, com foco em indústria de transformação e agronegócio (Foto: Magnific)

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A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) mapeou 805 oportunidades de exportação para empresas de Santa Catarina no contexto do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, apresentadas no fórum Conexões Produtivas em Itajaí. Segundo dados oficiais de comércio exterior, 761 empresas catarinenses já vendem para o bloco europeu, em uma pauta que inclui motores elétricos, compressores, móveis, carnes e produtos de madeira.

De acordo com o estudo da ApexBrasil, a maior parte dessas oportunidades está ligada à indústria de transformação, com destaque para máquinas e equipamentos, motores elétricos, compressores frigoríficos, transformadores, móveis e artigos de madeira. O levantamento indica que esses segmentos concentram boa parte das vendas industriais catarinenses para a União Europeia, enquanto informações do governo estadual apontam carnes de frango e suínos entre os principais itens do agronegócio local direcionados ao bloco.

Na avaliação da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), o desenho do acordo tende a favorecer, em um primeiro momento, as empresas que já dominam as exportações. “As empresas já capacitadas a exportar terão melhores condições, o que deve levar a um aumento de quantum exportador — efeito de curto prazo”, avaliou o economista-chefe da Fiesc, Pablo Felipe Bittencourt, ao comentar os impactos iniciais do tratado.

Bittencourt destaca que a oferta europeia de redução tarifária abrange um conjunto amplo de produtos industriais brasileiros, com peso relevante de máquinas e equipamentos, alimentos processados, produtos metálicos e máquinas elétricas. Para o economista, isso cria um ambiente mais favorável para empresas que já operam nesses segmentos, porque elas passam a competir em condições tarifárias mais próximas às de fornecedores de países que tinham acordos com a União Europeia.

Ele também chama atenção para um segundo efeito no lado das importações: a maior concorrência entre fornecedores de bens de capital e de tecnologia usados pela indústria catarinense. Com a entrada gradual de máquinas, equipamentos e insumos industriais europeus em condições tarifárias mais vantajosas, Bittencourt avalia que produtos hoje importados principalmente de países como China e Estados Unidos podem enfrentar mais competição, o que tende a pressionar os custos desses investimentos no Brasil.

“No curto prazo, quem já exporta tende a se beneficiar mais”, avaliou o economista-chefe da Fiesc. “Mas o acordo abre uma porta para outras empresas, desde que estruturem áreas de comércio exterior, busquem informação sobre mercados e encontrem fontes de financiamento para sustentar uma atuação contínua no mercado europeu”, acrescentou.

Pequenas empresas enfrentam mais obstáculos para aproveitar acordo 

O Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Santa Catarina (Sebrae-SC) faz uma leitura mais cautelosa para as pequenas empresas. “As 805 oportunidades não possuem o mesmo grau de acessibilidade para uma pequena ou média empresa”, avaliou Jefferson Reis Bueno, gestor dos projetos de internacionalização do Sebrae-SC.

Segundo ele, parte desses nichos está ligada a produtos que exigem grande escala industrial, capital intensivo e certificações complexas, o que restringe o acesso de negócios menores. Na leitura dele, o maior potencial para micro e pequenas empresas estaria em segmentos nos quais o estado tem uma base produtiva consolidada, mas onde é possível competir por especialização, flexibilidade, design, tecnologia ou valor agregado — como máquinas e componentes de nicho, madeira e móveis com rastreabilidade, alimentos processados diferenciados e têxteis e calçados de nicho.

Bueno ressalta que uma pequena empresa não precisa necessariamente se tornar exportadora direta para se beneficiar do acordo. “Ela pode se inserir como fornecedora de componentes, insumos ou serviços para empresas catarinenses que já vendem ao mercado europeu”, explicou, ao lembrar que muitas oportunidades passam pela participação em cadeias produtivas lideradas por grandes exportadores.

Na prática, o gestor do Sebrae-SC identifica três barreiras principais para que pequenas empresas transformem o tratado em contratos com a União Europeia:

  • adequação técnica, regulatória e ambiental: cumprimento de normas de segurança do produto, rotulagem, rastreabilidade, certificações, requisitos sanitários e fitossanitários e comprovação de origem exigidos pelo acordo.
  • capacidade interna para exportar de forma contínua: formação de preço internacional, organização da logística, capital de giro, capacidade produtiva, atendimento em outros idiomas e gestão de riscos cambiais e comerciais.
  • acesso a compradores e prospecção: identificação de canais adequados, adaptação da apresentação comercial, participação em feiras e rodadas e manutenção de uma rotina de acompanhamento das negociações, lembrando que encontrar um mercado potencial não significa automaticamente encontrar um cliente.

Como as pequenas empresas do estado estão sendo preparadas 

Para tentar aproximar as empresas catarinenses do mercado europeu, a ApexBrasil lançou em junho o Painel de Oportunidades do Acordo Mercosul–União Europeia, ferramenta digital que cruza produtos, países, tarifas e prazos de redução em cada nicho identificado. O Sebrae-SC incorporou o painel ao Programa de Qualificação para Exportação (Peiex), executado em parceria com a agência federal, e passou a usá-lo como referência padrão com empresas interessadas em exportar para o bloco.

Segundo Bueno, todos os técnicos do programa no estado foram capacitados para operar a ferramenta e a utilizam para tornar mais objetiva a escolha de mercados. “O painel ajuda a analisar oportunidades por produto e país, ver valores exportados, tarifas atuais, prazos de redução tarifária e se o mercado é de abertura, manutenção, consolidação ou recuperação”, explicou, ao destacar que o objetivo é evitar decisões baseadas apenas em percepção ou afinidade pessoal com determinados países.

O gestor pondera, porém, que o instrumento ainda é recente e não pode ser visto como atalho para vendas imediatas. Até o momento, o painel não está associado a casos concretos de pequenas empresas catarinenses que tenham se aproximado de compradores europeus exclusivamente por meio da ferramenta, segundo o Sebrae-SC.

A instituição define o recurso como um componente de inteligência comercial e priorização de mercados, que orienta a decisão, mas não substitui a preparação interna nem a prospecção ativa. Essa preparação é organizada na jornada "Acelera mercados – global", estruturada pelo Sebrae para acompanhar pequenos negócios desde o primeiro contato com o tema exportação até a aproximação com compradores e parceiros internacionais.

A trilha inclui uma fase de sensibilização, uma etapa de qualificação técnica com o programa e um momento de conexão com rodadas de negócios, missões e feiras, em que empresas como a Carbon Smart, de Chapecó, participaram de eventos como a Hannover Messe, na Alemanha, após passarem pelo processo de qualificação.

Para economista, acordo aprofunda dependência de poucos setores

As assimetrias no cronograma de redução de tarifas e o desenho do acordo Mercosul-União Europeia provocam pontos de atenção para parte dos analistas em Santa Catarina. O Acordo Provisório de Comércio entre Mercosul e União Europeia, em vigor desde 1º de maio de 2026, prevê eliminação rápida ou gradual das tarifas sobre mais de 5 mil produtos brasileiros, sobretudo industriais, ao mesmo tempo em que concede ao Brasil prazos de até 10 ou 15 anos para reduzir tarifas sobre milhares de itens europeus.

Em alguns setores sensíveis, como automotivo e novas tecnologias, o prazo pode chegar a 30 anos, segundo análises do Senado Federal. Para o economista Nildo Ouriques, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente do Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (IELA), esse desenho tarifário consolida uma abertura assimétrica desfavorável ao país.

“O Brasil fez um acordo em que abre o mercado interno para produtos industriais europeus, enquanto tenta ampliar vendas de produtos agrícolas e minerais”, avaliou. Na leitura dele, os prazos de 10 a 15 anos para redução de tarifas não significam necessariamente uma janela de preparação, mas podem funcionar como “sentença” para setores industriais que não contem com uma política de fortalecimento estruturada ao longo desse período.

Ouriques também chama atenção para o papel das chamadas barreiras não tarifárias, como exigências de sustentabilidade, rastreabilidade e condições de trabalho, que vêm sendo destacadas por entidades empresariais europeias e brasileiras como elementos centrais do acordo. Ele argumenta que, mesmo com tarifas mais baixas, o cumprimento dessas regras tende a depender de estruturas técnicas e burocráticas mais robustas, o que pode ser mais acessível a grandes grupos internacionais do que a pequenas e médias empresas brasileiras.

Na avaliação do economista, o risco é que, sem uma política industrial consistente, o acordo contribua para aprofundar a especialização do Brasil — e de Santa Catarina — em alguns poucos clusters exportadores, como carnes, madeira e determinados bens industriais, enquanto amplia a exposição a produtos manufaturados europeus no mercado interno. “Se não houver uma estratégia clara de diversificação produtiva e de investimento em tecnologia, a tendência é reforçar a dependência de setores primário-exportadores e tornar mais difícil o desenvolvimento de uma base industrial mais ampla”, ponderou.

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