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A cidade paulista Araraquara se posiciona como um polo estratégico para o setor ferroviário no Brasil, ganhando força na cadeia nacional de logística e mobilidade urbana. Três fatores principais tornam o município um polo ferroviário: localização estratégica, infraestrutura industrial e incentivos governamentais.
A cidade fica a 270 quilômetros da capital e ocupa o centro da malha paulista, ligando o agronegócio do Centro-Oeste ao porto de Santos. Essa posição privilegiada, somada à mão de obra qualificada da região, garante a concentração de fábricas, centros de manutenção e inovação tecnológica no município.
Para o economista Claudio Frischtak, diretor da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, a crise de mobilidade no país cria uma demanda crescente por sistemas de transporte de média e alta capacidade, movimento que ajudou a consolidar Araraquara como polo ferroviário.
“Uma das consequências desse surto de investimentos é a atração de indústrias de equipamento ferroviário, como a chinesa CRRC, instalada em Araraquara pela centralidade da expansão desses sistemas e pela tradição industrial da cidade", explica o economista.
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Chegada da CRRC consolida Araraquara como polo ferroviário
A CRRC Brasil iniciou oficialmente suas operações em Araraquara em outubro de 2025. A estatal chinesa, fabricante de suprimentos ferroviários, ocupa a antiga planta da Hyundai Rotem, onde investiu R$ 50 milhões na modernização das instalações.
O governo paulista firmou um contrato de R$ 3,1 bilhões com a CRRC no ano passado para a aquisição de 44 novos trens destinados às linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha do metrô paulistano. A fabricante prevê entregar as primeiras composições no primeiro semestre de 2027. O cronograma estabelece a conclusão do fornecimento e a liberação para operação comercial até 2030.
Segundo o vice-presidente da CRRC Brasil, Jay Jie Zeng, a escolha de Araraquara se deve à estrutura industrial já existente, à localização estratégica e à capacidade técnica da cidade para receber empreendimentos de grande porte. “Queremos transformar Araraquara em um centro de produção para o Brasil e outros países da América do Sul. Também faremos isso com responsabilidade ambiental, seguindo padrões internacionais de sustentabilidade”, afirma Zeng.
A empresa é o braço brasileiro da CRRC Corporation Limited, com sede em Pequim, que registra faturamento anual superior a R$ 170 bilhões, conforme o ranking da revista Fortune de 2023. O portfólio da companhia inclui contratos de fornecimento com nações como Alemanha, Suíça e Japão, além da fabricação de trens para os Estados Unidos, México, Portugal e Turquia. Recentemente, a empresa também venceu leilões para a construção de linhas de metrô em Medellín e Bogotá.
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CRRC firma parceria e atrai Kangni para Araraquara
A chegada da gigante chinesa estimulou a vinda de fornecedores estratégicos para o setor ferroviário, como a Kangni. Em janeiro de 2026, a fabricante de sistemas de portas e componentes passou a operar em parceria direta com a CRRC, em Araraquara. A proximidade física busca agilizar a logística e reduzir custos industriais.
A parceria também abriu vagas de forma imediata. A empresa colocou no mercado cerca de 100 empregos diretos, destinados a engenheiros, técnicos, contadores e administradores, com prioridade para a mão de obra local. A Kangni possui forte atuação internacional, fornecendo sistemas de portas para grandes empresas ferroviárias como Bombardier e Siemens.
Além das novas fabricantes, a estrutura produtiva de Araraquara conta com a presença da Rumo Logística e da Greenbrier Maxion. Essas empresas mantêm centros de operação e manutenção contínuo da malha e sustentam uma cadeia permanente de contratações especializadas na região.

Araraquara incentiva indústrias ferroviárias com isenção de IPTU
O poder público municipal de Araraquara visa à expansão do setor com a criação do Polo Tecnológico Ferroviário. Uma nova lei aprovada em novembro do ano passado concede isenção total do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) por 20 anos para empresas da cadeia produtiva e suas subsidiárias.
O projeto também reduz a alíquota do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) para 2% em atividades de transporte sobre trilhos. Como contrapartida, as indústrias devem contratar ao menos 50% de funcionários residentes no município e realizar investimentos em infraestrutura comunitária ou projetos sociais. Com essa estratégia, a prefeitura busca elevar a arrecadação tributária a longo prazo e fomentar a pesquisa tecnológica local.
O prefeito de Araraquara, Luís Cláudio Lapena (PL), ressalta o DNA ferroviário do município no interior paulista. “Nossa cidade cresceu ao redor dos trilhos. Temos até hoje oficinas da Rumo e uma população com experiência no setor. Com o crescimento do setor, estamos projetando o futuro, voltando aos trilhos”, afirma.
Setor ferroviário deve ter crescimento em 2026 no Brasil
A Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer) projeta aumento da produção em 2026. A estimativa aponta 72 locomotivas, ante 66 em 2025. O avanço chega a 9,09%. O desempenho também alcança vagões de carga e carros de passageiros.
A indústria nacional deve fabricar 1.900 vagões de carga. O volume supera o de 2025 em 200 unidades. A alta corresponde a 11,76% e se confirmada, marcará o quarto ano consecutivo de crescimento do segmento.
A produção de carros de passageiros deve alcançar 193 unidades. O número representa aumento de 58,19% sobre 2025, quando saíram 122 unidades das linhas. Apesar da alta, o patamar ainda fica abaixo de 2024, que registrou 228 unidades.
Para vagões e locomotivas, a projeção indica o maior nível da década. Desde 2018, quando a indústria fabricou 2.566 unidades, o setor não atingia esse volume. No caso das locomotivas, o resultado será o melhor desde 2017, ano com 81 unidades produzidas.
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