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Nutrição

Fazer jejum para quê?

Passar horas ou até dias sem se alimentar causa desde tonturas até diabete. Ideal é que o intervalo entre as refeições não passe de quatro horas

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Fazer jejum é uma ótima forma de emagrecer, certo? Errado. A prática voltou à baila depois que a apresentadora Glória Maria declarou que faz jejum de até dez dias. Segundo especialistas, passar horas ou até dias sem se alimentar pode até garantir uns quilos a menos na balança, mas a perda de peso não é nada saudável e a regularidade dos jejuns pode fazer mal ao organismo. Começando por náuseas e tonturas, a falta de alimentação pode gerar anemia e até diabete em longo prazo.

"Na nutrição, não há qualquer registro de benefício do jejum, seja para emagrecer, para limpar o organismo, melhorar o tônus da pele, aumentar o desempenho esportivo ou qualquer outro mito desse tipo", diz a professora do curso de Nutrição da Universidade Positivo (UP) Ana Paula Splenger Vianna. "Para perder peso, a receita é simples: ter uma dieta balanceada, fracionar as refeições, ingerir dois litros de água por dia e fazer exercícios físicos", recomenda Ana Paula.

O jejum é caracterizado pela ausência de ingestão de alimentos, líquidos e nutrientes por mais de seis horas. Quando o tempo é maior que esse, o organismo logo começa a sentir os efeitos. Em dias comuns, o corpo vai tirando energia da glicose que circula no sangue. Sem se alimentar, a pessoa reduz drasticamente essa reserva e o organismo passa a retirar nutrientes primeiro da massa muscular, vísceras e enzimas e depois da gordura para poder manter seu funcionamento, produzindo reflexos negativos principalmente nos músculos, intestino e pele.

As consequências são crises de hipoglicemia. A pessoa passa a sentir fraqueza, cansaço, alterações de humor, perda de memória, dor de cabeça, tontura, diminuição da capacidade de concentração e redução da massa muscular magra no corpo. "É fácil perceber que o organismo fica mais lento para economizar energia. Já que não está recebendo nutrientes, então ele vai se poupando para gastar o mínimo possível."

Em longo prazo, jejuns muito extensos ou feitos de maneira fracionada, mas periodicamente, podem gerar anemia, problemas no pâncreas, hepáticos, renais e até diabete. "Como a resposta à insulina vai se alterando, quando a pessoa faz jejuns de maneira frequente, em longo prazo a tendência é que ela se torne resistente a esse hormônio, o que caracteriza a diabete", explica o médico nutrólogo e coordenador do Departamento de Atividade Física e Exercício da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), Carlos Alberto Werutsky.

Efeito reverso

Outro problema do jejum é que, depois de um período sem se alimentar, a pessoa tende a compensar o período sem comer e exagera nas refeições seguintes. É comprovado cientificamente que pessoas que passaram por restrições alimentares tendem a ganhar peso em gordura quando voltam a se alimentar.

"O próprio organismo modifica sua ação. Normalmente, ele aproveita os nutrientes durante a digestão e dispensa os excessos ou aquilo que não é necessário. Depois do jejum, ele tenta aproveitar ao máximo tudo que foi consumido e tende a fazer reserva de nutrientes para ficar prevenido caso a pessoa suspenda a alimentação novamente", explica Ana Paula.

Alerta

O ideal é que o tempo de jejum durante o dia não passe de quatro horas para não comprometer as funções do organismo. Para quem está pensando que isso é motivo para encher o prato ou passar o dia "beliscando", a nutricionista alerta: o melhor é fracionar as refeições e apostar em alimentos saudáveis. Entre o café e o almoço, a pessoa pode comer uma fruta e, entre o almoço e o jantar, optar por uma fatia de pão integral ou um iogurte. "Se ela come um salgadinho ou toma um refrigerante, ingere gorduras e calorias desnecessárias, o que prejudica o controle do peso."

TendênciaSuplementos não são recomendados

No fim do ano passado, a apresentadora Glória Maria deu uma entrevista à revista Época em que afirmava que ficava dez dias, três vezes por ano, em jejum, para limpar o organismo. Foi o suficiente para que a prática chamasse a atenção de quem queria perder peso.

Mas os especialistas garantem: o que Glória Maria faz não é jejum. Mesmo sem consumir alimentos durante esse período, a apresentadora costuma ingerir pílulas, xaropes, chás e suplementos alimentares, recursos que mantem a nutrição do corpo mesmo sem a ingestão de alimentos.

Essa prática, mesmo não sendo caracterizada como jejum, também é condenada pelos especialistas. "O problema é que esses recursos podem fazer mal, dependendo da dose. Suplementos só podem ser usados em casos específicos, sob orientação de um médico ou nutricionista. E, em nenhum momento, são garantia de redução de peso", diz o médico nutrólogo Carlos Alberto Werutsky.

Dietas de restrição

A professora do curso de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Ivone Ikeda Morimoto explica que muitas regimes são chamados de jejuns, mas na verdade são dietas de restrição a determinados alimentos. "Em alguns casos, o indivíduo ingere somente caldos, sopas, sucos ou chás durante o dia ou somente à noite. Em outros, há acréscimo de cápsulas de nutrientes específicos", diz.

O resultado é o mesmo: uma ingestão calórica e de nutrientes abaixo das necessidades, o que pode até render uma perda de peso, mas geralmente de forma pouco saudável.

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