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Infecção viral

Febre do Nilo Ocidental: o que é, como se transmite e qual o cenário no Brasil

O mosquito do gênero Culex é o principal vetor da febre do Nilo Ocidental e pode transmitir o vírus após picar aves infectadas.
O mosquito do gênero Culex é o principal vetor da febre do Nilo Ocidental e pode transmitir o vírus após picar aves infectadas. (Foto: Wikimedia Commons)

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O Brasil confirmou quatro casos humanos de febre do Nilo Ocidental neste mês de agosto. São dois registros em São Paulo e dois em Santa Catarina, além de um caso provável no Piauí.

A febre do Nilo Ocidental é uma infecção viral causada por um arbovírus, grupo que também inclui os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre amarela. A transmissão ocorre principalmente pela picada de mosquitos do gênero Culex, conhecidos popularmente como pernilongos.

O ciclo do vírus é mantido principalmente entre mosquitos e aves silvestres. Os insetos se infectam ao picar aves contaminadas e podem transmitir o vírus para outras aves. Humanos e equinos também podem adoecer, mas são considerados hospedeiros acidentais e terminais, porque normalmente não apresentam quantidade suficiente de vírus no sangue para infectar novos mosquitos.

As confirmações dos casos em humanos exigem atenção para a doença, na avaliação do infectologista Hugo Manuel Paz Morales, coordenador do Serviço de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde do Hospital Angelina Caron, na região de Curitiba. “É um alerta, a gente tem que prestar atenção, mas não está dizendo que é um surto disseminado e que está fora de controle”, afirma.

Febre do Nilo Ocidental: maioria dos casos não apresenta sintomas

Uma das características que tornam a doença difícil de identificar é que a maior parte das pessoas infectadas não apresenta sintomas. Entre os pacientes que desenvolvem sintomas, os quadros mais comuns incluem febre, dor de cabeça, dor muscular, cansaço, náusea, vômitos e, em alguns casos, manchas na pele.

“Mais ou menos 80% não vai apresentar nenhum sintoma, nenhuma queixa”, explica Morales. Segundo ele, mesmo nos casos sintomáticos, a maioria não evolui para comprometimento neurológico.

O principal sinal de alerta é justamente a mudança do quadro clínico com o aparecimento de sintomas relacionados ao sistema nervoso. Confusão mental, alteração de consciência, rigidez de nuca, convulsões, fraqueza muscular e paralisia podem indicar uma forma mais grave da infecção.

O Ministério da Saúde estima que cerca de um em cada 150 infectados desenvolva doença neurológica severa, como meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda.

“Menos de 1% dos infectados vai ter essa doença de forma neuroinvasiva”, diz o infectologista. Nesses casos, o vírus pode atingir as meninges, o cérebro e até estruturas relacionadas à medula, provocando comprometimento dos movimentos.

A idade é o principal fator de risco para as formas graves. Pessoas mais velhas estão mais sujeitas a complicações, assim como pacientes imunossuprimidos, com câncer, transplantados ou com outras condições que comprometem o sistema imunológico.

“Entre aqueles pacientes que desenvolvem essa forma neuroinvasiva, daí sim a mortalidade é mais alta e ela gira em torno de 10%”, afirma Morales.

Como diferenciar a doença de dengue, zika e chikungunya

Nos primeiros dias, a febre do Nilo Ocidental pode ser confundida com outras arboviroses porque os sintomas são semelhantes. Febre, dor de cabeça, dores musculares e mal-estar também aparecem em infecções por dengue, zika e chikungunya.

Há, porém, algumas características que podem ajudar na avaliação clínica. A chikungunya costuma provocar dor articular intensa; a zika pode estar associada a manchas na pele e conjuntivite; enquanto a dengue pode apresentar alterações clínicas e laboratoriais características e, em determinados casos, manifestações hemorrágicas. No caso do vírus do Nilo Ocidental, o desenvolvimento de manifestações neurológicas é um dos principais sinais de gravidade.

O diagnóstico também pode ser um desafio. O vírus pertence ao gênero Flavivirus, assim como os vírus da dengue, zika e febre amarela. “Ele é um flavivírus, assim como dengue, febre amarela, e os anticorpos podem ter uma reação cruzada”, explica Morales.

A investigação pode envolver a pesquisa de anticorpos IgM em amostras de sangue ou líquido cefalorraquidiano. Testes moleculares, como o PCR, também podem ser utilizados, embora a baixa quantidade de vírus circulando no sangue possa dificultar a detecção.

Não existe, atualmente, vacina recomendada no Brasil nem tratamento antiviral específico contra a doença. Nos casos leves, o tratamento é de suporte, com controle dos sintomas e hidratação. Já pacientes com comprometimento do sistema nervoso podem precisar de internação e cuidados intensivos.

Repelentes, telas e roupas que cubram o corpo estão entre as medidas recomendadas para reduzir o risco de infecção pelo vírus do Nilo Ocidental.Repelentes, telas e roupas que cubram o corpo estão entre as medidas recomendadas para reduzir o risco de infecção pelo vírus do Nilo Ocidental. (Foto: Wikimedia Commons)

Quatro casos foram confirmados no Brasil

Os quatro casos confirmados em 2026 no Brasil estão distribuídos entre São Paulo e Santa Catarina.

Em São Paulo, uma paciente de 34 anos, de Ribeirão Preto, relatou viagem recente à Amazônia e já se recuperou. Outra paciente, de 18 anos, moradora de São José do Rio Preto, permanece internada. O local de infecção das duas ainda é investigado.

Em Santa Catarina, uma mulher de 77 anos, de Imbituba, morreu em agosto, enquanto um homem de 56 anos, de Caçador, recebeu alta. Há ainda um caso provável no Piauí, segundo o Ministério da Saúde.

Para Morales, porém, os registros não permitem concluir que o vírus esteja circulando de forma disseminada em São Paulo ou Santa Catarina. É necessário identificar onde ocorreram as infecções e buscar evidências de circulação entre mosquitos e animais.

“O que a gente tem que entender é onde as pessoas se infectaram e intensificar a vigilância dos mosquitos Culex e procurar vírus em pacientes com meningite e encefalite sem causa definida, para ver se a gente está deixando de fazer alguns diagnósticos”, afirma.

A vigilância, portanto, não depende apenas da identificação de casos humanos. O monitoramento de aves, equinos e mosquitos também é importante para descobrir áreas onde o vírus possa estar circulando. O Ministério da Saúde considera especialmente relevantes episódios de adoecimento ou morte de aves silvestres e equídeos com sintomas neurológicos.

Como é a prevenção da febre do Nilo Ocidental

Como não há vacina disponível no país, a principal forma de prevenção é evitar a picada do mosquito.

O Ministério da Saúde recomenda o uso de repelente, telas em portas e janelas e roupas que cubram maior parte do corpo, especialmente ao amanhecer e ao entardecer, períodos de maior atividade dos mosquitos.

O combate ao Culex também apresenta uma particularidade. Diferentemente do Aedes aegypti, associado principalmente a recipientes que acumulam água nas proximidades das residências, o pernilongo pode se reproduzir em ambientes com água rica em matéria orgânica, como valas, bueiros e sistemas de drenagem.

“Continua sendo importante eliminar água parada, mas também o saneamento, a drenagem e o manejo ambiental podem ter um peso ainda maior”, finaliza Morales.

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