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Uma revisão científica publicada na revista Neuroprotection reforça uma hipótese que vem ganhando espaço na pesquisa sobre a doença de Parkinson: a saúde dos músculos pode estar relacionada à saúde do cérebro.
O trabalho analisou 129 estudos sobre exercício físico, massa e força muscular, sarcopenia e comunicação entre músculos e cérebro. Os autores apontam que a musculatura pode atuar como um órgão biologicamente ativo, capaz de liberar moléculas que influenciam o sistema nervoso. Mas há uma ressalva importante: ainda não é possível afirmar que manter músculos fortes previna a doença.
A revisão mostra que a perda de massa e força muscular está relacionada a maior comprometimento motor, fragilidade, quedas e pior qualidade de vida em pessoas com Parkinson.
Para o médico e professor de pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica Curitiba, Philipe Cunha, a relação pode aparecer antes mesmo do diagnóstico. “Pesquisas recentes indicam que músculos mais fracos e menor massa muscular podem estar ligados a um risco maior de desenvolver a doença de Parkinson, e não apenas serem um efeito dela”, afirma.
Segundo Cunha, estudos observacionais indicam que pessoas com menor força de preensão manual e aquelas que caminham mais devagar apresentam maior risco de desenvolver Parkinson. A associação também aparece em pessoas com sarcopenia, condição marcada pela perda de massa e força muscular relacionada ao envelhecimento.
“Nós ainda não sabemos ao certo se a fraqueza muscular é uma causa do Parkinson, um sinal precoce da doença ou uma consequência dela”, pondera.
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Como os músculos protegem contra Parkinson?
Uma das hipóteses investigadas está na comunicação entre músculo e cérebro. Durante a atividade física, os músculos liberam moléculas chamadas exercinas, entre elas BDNF, IGF-1, irisina, catepsina B, miostatina e GDF15.
Essas moléculas podem participar de mecanismos anti-inflamatórios e antioxidantes, melhorar a função das mitocôndrias e favorecer a sobrevivência dos neurônios dopaminérgicos.
Algumas também estão relacionadas à neuroplasticidade e à redução do acúmulo de alfa-sinucleína, uma proteína associada à doença. A própria revisão, no entanto, destaca que as evidências que conectam esses mecanismos a efeitos clínicos de longo prazo ainda são limitadas.

O geriatra Carlos Sperandio explica que o achado amplia a compreensão sobre o papel da musculatura. “O músculo não é apenas uma vítima da doença, ele pode funcionar como um órgão endócrino capaz de influenciar o cérebro”, diz. Segundo ele, o exercício ativa essa comunicação. “Esse músculo ativo, ele libera essas exercinas. Essas exercinas trazem menos inflamação e menos estresse oxidativo.”
Entre as substâncias estudadas, o BDNF está relacionado à neuroplasticidade e à sobrevivência dos neurônios; a irisina pode favorecer a função das mitocôndrias e a degradação da alfa-sinucleína; enquanto a catepsina B participa de mecanismos de depuração dessa proteína.
O conjunto dessas ações ajuda a explicar por que os pesquisadores consideram o exercício uma possível estratégia neuroprotetora, embora ainda não seja possível tratá-la como uma forma comprovada de prevenção.
Atividade física e Parkinson: quais são os benefícios em praticar exercícios?
Se a prevenção ainda é uma hipótese, os benefícios do exercício para quem já tem Parkinson são mais bem estabelecidos. A revisão aponta que exercícios aeróbicos e de resistência podem melhorar marcha, equilíbrio, função motora, cognição, humor e qualidade de vida.
Cunha destaca que o exercício aeróbico moderado a vigoroso, como caminhada rápida, corrida ou dança, é o que reúne mais evidências para uma possível redução do risco de desenvolver Parkinson.
“Estudos chegam a mostrar uma redução de 34% no risco em quem pratica uma atividade física regularmente”, afirma.
Já a musculação ainda não apresenta o mesmo nível de comprovação para prevenção, embora tenha benefícios importantes para quem recebeu o diagnóstico, como melhora da força, do equilíbrio e dos sintomas motores.

Para José Mario Tupiná, geriatra dos Hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat, preservar a musculatura é uma estratégia importante diante do envelhecimento.
“A musculação faz com que a intensidade e a velocidade deste processo sejam minimizadas”, afirma, ao explicar a perda progressiva de fibras musculares e sua substituição por tecido adiposo, fenômeno conhecido como mioesteatose.
Por que preservar músculos no envelhecimento?
A perda de massa muscular é uma das mudanças associadas ao envelhecimento, mas pode ser combatida com atividade física. Tupiná destaca ainda a produção de irisina durante a contração muscular, substância que vem sendo estudada por sua relação com a função cerebral.
Para ele, os benefícios da atividade muscular podem alcançar não apenas o Parkinson, mas outras doenças neurodegenerativas.
A revisão científica reforça a necessidade de manter os exercícios de forma contínua e individualizada. Para pessoas com Parkinson, as recomendações incluem atividade aeróbica moderada a vigorosa, treinamento de resistência e exercícios voltados ao equilíbrio e à flexibilidade.
Ainda não se sabe, portanto, se ter mais músculos é capaz de evitar o Parkinson ou retardar diretamente sua progressão. O que a ciência já sustenta é que a atividade física ajuda a preservar a capacidade funcional e pode melhorar diversos sintomas da doença.
A possível ação neuroprotetora das exercinas é uma frente promissora, mas ainda precisa ser confirmada em estudos clínicos mais longos.
Para Sperandio, porém, a discussão vai além do Parkinson. “Se ele vai me proteger das doenças, como sugere esse estudo do Parkinson, o futuro vai dizer. Mas que ele nos protege de um infindável número de outras doenças, isso está muito claro.” E resume a importância da musculação na velhice: “Não é uma questão de indicação médica, é uma questão de sobrevivência”.



