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No Nordeste, enquanto alguns bebês com microcefalia são abandonados, outros são adotados

    • Estadão Conteúdo
    • 28/02/2016 23:00

    Há dois meses, quando a prima do interior entregou em suas mãos o pequeno José Pedro, a balconista Alessandra Dias, de 34 anos, de Camaragibe, região metropolitana do Recife, não se impressionou com a microcefalia. “Assim que o vi, me apaixonei”, contou. O bebê faz parte de um universo ainda não dimensionado de crianças abandonadas pelas famílias após a constatação da má-formação.

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    Desde outubro, quando a notificação se tornou compulsória, houve 209 registros de microcefalia em Pernambuco. Por isso, Alessandra diz entender o gesto da mãe biológica. “Ela tem outros quatro filhos, um com deficiência mental. A família é muito carente e disse que não tinha como criá-lo com os cuidados necessários. Não tive dúvidas, agarrei e nunca mais vou soltar este menino. É meu filho”, disse. Casada há quatro anos e sem filhos biológicos, Alessandra e o marido, o motorista Ivan Lima, de 38 anos, que apoiou o gesto da mulher, foram à Defensoria Pública de Pernambuco para entrar com o processo de guarda oficial de José Pedro, hoje com 6 meses.

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    O garoto é acompanhado pela equipe médica do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira, referência no atendimento à microcefalia no Estado. “Já sabemos que ele tem problema na audição, mas a visão está normal. Estamos fazendo tudo o que os médicos mandam. Não temos medo, temos amor”, disse Alessandra.

    Presente de Natal

    A doméstica Denise Carla, de 33 anos, também virou mãe adotiva de um bebê com microcefalia. O “presente”, como ela diz, chegou na noite do Natal: os pais biológicos da criança tinham decidido entregá-la a um abrigo, quando um amigo da família os levou até Denise. “Foi um susto, mas também uma das maiores emoções da minha vida”, conta. O bebê sofreu uma parada respiratória no parto, ficou com sequelas nas mãos e recebe tratamento no Hospital Universitário Oswaldo Cruz.

    O Lar Rejane Marques, um abrigo para crianças abandonadas, na zona norte do Recife, recebeu em outubro de 2015 uma menina com microcefalia. Na ocasião, a criança tinha 13 dias e havia sido entregue a profissionais do Conselho Tutelar ainda no hospital onde nasceu. O Ministério Público de Pernambuco entrou com ação de destituição do poder familiar para abrir adoção. De acordo com o juiz Élio Braz, da 2.ª Vara da Infância, familiares da criança estão sendo ouvidos sobre a possibilidade de cuidarem da menina.

    Preocupado com o aumento no abandono de crianças atingidas pela microcefalia, o psicólogo Valter Dutra alerta para a necessidade de reforçar o acompanhamento a gestantes com suspeita. “Muitas dessas mães são carentes, jovens e têm outros filhos para cuidar. O bebê com microcefalia surge como uma barreira. Algumas temem ser abandonadas pelos companheiros, como outras já foram. Estamos falando de pessoas que estão fragilizadas e por isso precisam de apoio e orientação.”

    A neuropediatra Vanessa Van Der Linden Mota, uma das primeiras profissionais de saúde a identificar a epidemia de microcefalia no Estado, defende atenção total aos pacientes e familiares. “As mães precisam ser informadas para terem segurança de que seus filhos precisam de cuidados e amor e terão apoio para isso. Esse trabalho precisa chegar aos pais, irmãos, avós. A família toda precisa estar amparada por uma rede sólida de atenção profissional.” Até o dia 20, Pernambuco tinha 1.601 notificações de microcefalia com suspeita de associação ao vírus zika - 209 confirmadas.

    Nunca escolhida

    Em Teresina, capital do Piauí, uma mulher deu à luz na Maternidade Dona Evangelina, mas, ao receber alta, foi embora sem levar o bebê. A criança havia nascido com microcefalia e a mãe, que reside no interior do Estado, alegou que não tinha condições de cuidar dela. O destino da criança ainda será decidido. A direção da maternidade promoveu um treinamento para as famílias que têm filhos com alguma deficiência para evitar o abandono ou entrega para adoção.

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    O fenômeno, agravado pela ocorrência de casos de microcefalia, não é recente. No Lar da Criança, que abriga 32 órfãos ou crianças abandonadas que devem ser encaminhados para adoção, vive uma adolescente portadora de microcefalia que foi deixada ali bebê. Ela nunca foi escolhida por casais interessados em adoção.

    Na terça-feira, 23, um recém-nascido com a má-formação deu entrada no Lar. A mãe desistiu do filho, alegando falta de condições para criá-lo com dignidade. A direção encaminhou os documentos à Vara da Infância e da Juventude: será mais um bebê com microcefalia na fila da adoção.

    Rede

    Um grupo de pais que têm filhos com microcefalia se uniu para ajudar as famílias de baixa renda. Por intermédio da Maternidade Dona Angelina, que atende gestantes carentes, eles entram em contato com as famílias e oferecem apoio e orientação para que os bebês sejam criados de forma adequada. O objetivo é evitar o abandono dessas crianças. O Piauí tem 40 casos de microcefalia já confirmados.

    “Estou largando tudo para cuidar da minha bebê”, afirma mãe de crianças com microcefalia

    A empregada doméstica Luciana da Silva Lima, de 30 anos, de João Pessoa, na Paraíba, preferiu abrir mão da própria vida para ficar ao lado da filha Ana Cecília, de 2 meses, que nasceu com microcefalia aguda. “Pedi demissão do meu trabalho, não vejo direito minha outra filha de 5 anos e estou largando tudo para cuidar da minha bebê.” Quase todo dia ela precisa viajar mais de quatro horas de Cacimba de Dentro, no interior, para chegar ao ambulatório de microcefalia montado pelo Instituto Cândida Vargas, em João Pessoa.

    Embora apoiada pelo marido, que a acompanha na rotina de viagens, ela perdeu contato com outras pessoas da família. “Tive zika com três meses de gravidez. Quando soube da microcefalia, fiquei muito abalada e abandonei tudo.” Ela e o marido saem das sessões de fisioterapia e reabilitação esperando alguma melhora nos movimentos do bebê.

    Como Luciana, outras 30 mães já são acompanhadas no ambulatório e 70 estão na fila do diagnóstico. De acordo com a coordenadora da unidade neonatal, Juliana Soares, não há casos de bebês abandonados porque as mães não abrem mão. “São elas que abandonam as próprias vidas em função dos filhos. Muitas vezes perdem o marido. Quando o vínculo com o marido não é forte, ele abandona mulher e filhos.”

    Sem o companheiro

    Foi o que aconteceu com Yanca Mikaelle de Lima, de 18 anos. Aos sete meses de gravidez, quando o ultrassom revelou que o bebê em sua barriga tinha microcefalia, tudo o que ela esperava era o apoio do marido. Afinal, estavam juntos havia dois anos e tinham outro filho pequeno. A menina Sofya Emanuelle nasceu no dia 31 de janeiro, na maternidade de Campina Grande, com a má-formação diagnosticada nos exames.

    Quando saíram do hospital e voltaram para casa, ela notou que o comportamento do marido havia mudado. Foi ele quem sugeriu que Yanca se mudasse para a casa da mãe, onde, segundo alegou, ela seria melhor cuidada. Aos poucos, a família do marido também se afastou. O casal está separado. A mulher conta que o ex-marido vai visitá-la apenas para buscar o outro filho do casal de 1 ano e 10 meses, mas não se preocupa em saber como está Sofya.

    Na quinta-feira da semana passada, ela ainda tinha esperança em reatar o relacionamento. “A gente tem dois filhos e ainda gosto muito dele, mas não está tendo atitude de pai de verdade.”

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