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8 de janeiro

Com marido exilado após 8/1, mãe de seis cria filhos sozinha e tem bens bloqueados por Moraes

Vanessa Rolim de Moura sustenta os filhos há mais de dois anos sem a presença do marido, e luta na justiça pelo desbloqueio dos bens da família
Vanessa Rolim de Moura sustenta os filhos há mais de dois anos sem a presença do marido, e luta na justiça pelo desbloqueio dos bens da família (Foto: Arquivo pessoal/Vanessa Rolim de Moura)

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Desde que o marido foi condenado à pena de 14 anos pelo 8 de janeiro e buscou refúgio em outro país, a rondoniense Vanessa Rolim de Moura cuida dos seis filhos e luta na Justiça pelo desbloqueio dos bens da família.

Na última sexta-feira (28), um dos pedidos judiciais — em que ela solicita metade dos recursos, como direito do cônjuge — começou a ser julgado pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). O julgamento segue até a próxima sexta-feira (4), mas Alexandre de Moraes já negou o pedido, e seu voto foi seguido por Cristiano Zanin, Flávio Dino e Dias Toffoli.

“Até minha conta salário segue bloqueada, e isso é absurdo”, desabafa Vanessa, à Gazeta do Povo. A mulher é funcionária pública do Estado de Rondônia, e explica que a privação financeira tem sido imposta à família desde o início de 2023, quando seu esposo, o motorista e empresário Ezequiel Ferreira Luis, foi preso pelos atos do 8 de janeiro.

Desde então, ela informa que todas as contas bancárias e bens do casal foram bloqueados. “Enfrentamos o caos financeiro, agravado com o impedimento do licenciamento dos caminhões que havíamos financiado”, relata a mulher, ao citar acúmulo de dívidas e a necessidade de sustentar, sozinha, os seis filhos do casal: Francisco, Maria, Ana, Emílio, José e Paulo.

Os caminhões que adquirimos para conquistar um patrimônio para nossa família estão mofando e apodrecendo

Vanessa Rolim de Moura, sobre bloqueio dos bens da família após o 8 de janeiro de 2023

Segundo a defesa da família, Vanessa têm suportado os efeitos econômicos das medidas adotadas em uma ação penal que envolve apenas seu esposo e, por não ter sido denunciada ou condenada, não poderia sofrer essas consequências.

“Ela não é ré”, apontam os advogados João Lucas Silva e Guilherme Gomes do Prado, em nota enviada à reportagem sobre o julgamento a respeito do desbloqueio parcial dos bens da família, iniciado na sexta-feira (28).

Segundo Vanessa, o pedido analisado pelo Supremo se refere especificamente às restrições de licenciamento dos veículos do casal, pois essa proibição impede que os caminhões atuem regularmente na atividade de transporte. "Em vez de estarem rodando, os caminhões que adquirimos para conquistar um patrimônio para nossa família estão mofando e apodrecendo”, lamenta, ao citar que precisa dos veículos gerando renda para pagar os financiamentos.

A inadimplência, de acordo com a defesa, pode levar, inclusive, à retomada dos veículos pelas instituições financeiras, prejudicando a mulher e os seis filhos menores, e também “o próprio interesse público na preservação do valor patrimonial destinado à reparação dos danos”.

Por isso, a defesa solicitou ao STF que fosse mantida a proibição de transferência dos veículos, mas com liberação para o licenciamento, a fim de viabilizar a utilização econômica dos bens.

"Após quase 20 anos de profissão, juntamos nossas economias para financiar nosso primeiro caminhão", relata Vanessa, ao afirmar que o marido conseguiu crédito para financiar os demais veículos por ser um "homem íntegro". Ao todo, o casal têm seis caminhões.

Na imagem à direita, está parte da frota em funcionamento. Já na foto da esquerda, a situação atual dos caminhões "mofando e apodrecendo".Na imagem à direita, está parte da frota em funcionamento. Já na foto da esquerda, a situação atual dos caminhões "mofando e apodrecendo". (Foto: Arquivo pessoal/Vanessa Rolim de Moura)

Família já foi citada em vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro

A situação de Vanessa já foi divulgada, inclusive, pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que gravou um vídeo com a família, em 2024. Na publicação, Bolsonaro descreveu Ezequiel, marido de Vanessa, como “homem trabalhador e honrado”. O ex-presidente também chamou as crianças de “órfãos de pais vivos” e criticou a perseguição realizada pelo STF.

“Até quando essas crianças vão sofrer, crescendo sem o pai ao seu lado?”, questionou o ex-presidente, na época. “É um crime o que estão fazendo, roubando o futuro dessas crianças”, continuou no vídeo.

À Gazeta do Povo, Vanessa afirma que ela e os seis filhos não estavam em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023, mas também foram “condenadas” à falência financeira e à ausência de Ezequiel. Segundo ela, as crianças sofrem há mais de dois anos sem poder dar um abraço no pai.

Vanessa tenta viver sem o esposo: “Sozinha, é impossível”

“Sou a única adulta presente para cuidar de tudo: dos nossos seis filhos, da educação moral, espiritual e intelectual deles, da alimentação, da saúde de cada um, inclusive a minha”, revela a funcionária pública, que está afastada do trabalho por licença médica, e precisa cuidar da casa, do trabalho, das contas e decisões. “Sozinha, é impossível”, revela.

Os horários das refeições, de acordo com ela, são os mais críticos, já que costumavam ser os momentos da família reunida. Hoje, no entanto, há conflitos entre as crianças e tristeza. “Estão emocionalmente carentes e sentem a ausência do pai, muitas vezes, sem conseguir explicar”, lamenta. “As refeições acontecem em meio às minhas lágrimas e minhas súplicas”, continua.

Outro desafio, segundo ela, é manter a religiosidade, já que o cansaço físico e emocional dificultam até a condução de uma oração. “Ainda assim, insisto, porque sei que é na fé que encontramos forças para continuar”, diz. “Muitas vezes, a oração é tudo o que me resta”.

Essa é uma das última fotos que Ezequiel tem com a família; ele foi condenado em maio de 2024 e decidiu se refugiar em outro país logo após o nascimento do filho mais novo.Essa é uma das última fotos que Ezequiel tem com a família; ele foi condenado em maio de 2024 e decidiu se refugiar em outro país logo após o nascimento do filho mais novo. (Foto: Arquivo Pessoal/Vanessa Rolim de Moura )

Ezequiel está refugiado em outro país; família não sabe a localização

A moradora de Ji-Paraná (RO) relata que o marido Ezequiel Ferreira Luis não quebrou nada em Brasília durante os atos de 8 de janeiro de 2023, mas permaneceu sete meses preso no Complexo Penitenciário da Papuda. O homem foi condenado pelos crimes de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, associação criminosa e deterioração de patrimônio público.

Após a condenação à pena de 14 anos, Ezequiel decidiu se refugiar em outro país para não retornar ao presídio. Ele viajou em maio de 2024, 21 dias após o nascimento do seu filho mais novo.

Desde então, a família conversa com o pai semanalmente por vídeo em aplicativo privado, nas não tem o telefone do genitor ou a localização dele. “O Ezequiel não se sente seguro e tem medo”, informa a esposa, que respeita a discrição do marido. “Foi tirado tudo dele.”

Para seguir em frente, ela afirma pedir forças a Deus para levantar todas as manhãs. “Não porque a dor tenha passado, mas porque os nossos filhos precisam de mim”, resume.

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