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Aprovada nos EUA

Nova terapia oral contra câncer de pâncreas é aprovada nos EUA após resultados promissores

Aprovado nos EUA, medicamento oral quase dobrou a sobrevida mediana de pacientes em estudo de fase 3.
Aprovado nos EUA, medicamento oral quase dobrou a sobrevida mediana de pacientes em estudo de fase 3. (Foto: Unplash)

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A aprovação de uma nova terapia oral nos Estados Unidos abriu uma frente inédita no tratamento do câncer de pâncreas. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, autorizou em 26 de agosto o daraxonrasib, vendido sob o nome comercial Rasonque, para determinados pacientes adultos com adenocarcinoma pancreático metastático.

O medicamento é administrado em comprimido, uma vez ao dia, e atua sobre a proteína RAS, uma das principais responsáveis pelo crescimento descontrolado das células tumorais.

A decisão foi baseada, principalmente, nos resultados do estudo internacional de fase 3 RASolute 302, que acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido tratamento.

No grupo que recebeu daraxonrasib, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses, contra 6,7 meses entre aqueles tratados com quimioterapia. A sobrevida livre de progressão também foi maior: 7,2 meses contra 3,6 meses.

Para Larissa Maria Macedo Lopes, oncologista do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), o resultado representa uma mudança importante em uma doença que historicamente oferece poucas opções eficazes.

“Não estamos falando ainda em cura do câncer de pâncreas metastático. Estamos falando de um avanço muito relevante: pela primeira vez temos uma terapia oral dirigida à via RAS que, nesse estudo, praticamente dobrou a mediana de sobrevida em comparação à quimioterapia”, afirma.

Como funciona a nova pílula contra câncer de pâncreas?

O principal diferencial do daraxonrasib está no alvo escolhido. Mais de 90% dos adenocarcinomas ductais do pâncreas apresentam alterações na via RAS, principalmente relacionadas ao gene KRAS.

Em condições normais, proteínas dessa família participam de sinais que regulam crescimento e multiplicação celular. Quando há determinadas mutações, porém, o sistema pode permanecer permanentemente ativado, estimulando a proliferação do tumor.

Durante décadas, bloquear diretamente essa via foi considerado um dos grandes desafios da oncologia. O daraxonrasib pertence a uma nova classe de medicamentos chamados inibidores RAS(ON) multisseletivos. Em vez de mirar apenas uma alteração específica, ele se liga à forma ativa da proteína RAS e interfere na sinalização que favorece o crescimento das células cancerosas.

“Ele age bloqueando a proteína RAS em seu estado ativo, uma via alterada em mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos, principalmente por mutações do KRAS”, explica Larissa.

A estratégia é especialmente relevante porque o adenocarcinoma ductal pancreático, que se origina nos ductos do órgão, corresponde à grande maioria dos cânceres de pâncreas.

Isso, no entanto, não significa que o remédio possa ser usado contra qualquer tumor pancreático.

Segundo Juliana Heimann Gibram, médica e professora de pós-graduação em Gastroenterologia da Afya Educação Médica Curitiba, a aprovação é específica para pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático. “Não é atualmente um tratamento aprovado para câncer de pâncreas localizado, potencialmente operável, como tratamento inicial”, explica.

Estudo mostra ganho de 6,5 meses na sobrevida

No RASolute 302, os pacientes foram divididos aleatoriamente entre o daraxonrasib e uma quimioterapia escolhida pelos médicos. O desenho randomizado de fase 3 é considerado uma das formas mais robustas de avaliar a eficácia de um tratamento, pois permite comparar os grupos em condições semelhantes.

Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e apresentados na reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado em estágios avançados, quando as opções de tratamento são mais restritas.O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado em estágios avançados, quando as opções de tratamento são mais restritas. (Foto: Wikimedia Commons)

Além do ganho de sobrevida, 31,6% dos pacientes que receberam o daraxonrasib apresentaram resposta objetiva do tumor, contra 11,2% no grupo da quimioterapia. O risco de morte foi aproximadamente 60% menor entre os pacientes tratados com o novo medicamento, segundo a análise do estudo.

“Ou seja, houve um ganho de aproximadamente 6,5 meses, praticamente dobrando a sobrevida”, explica Juliana. Ela ressalta, porém, que a expressão “dobrar a sobrevida” precisa ser interpretada corretamente. “Não significa que todos os pacientes viverão o dobro do tempo. São resultados estatísticos de um grupo de pacientes.”

A especialista destaca ainda que os benefícios não ficaram restritos ao controle do tumor. O estudo registrou melhora em indicadores relatados pelos próprios pacientes, incluindo tempo até a piora do estado geral de saúde e da dor.

Para Juliana, esse aspecto é relevante porque, em uma doença avançada, prolongar a vida precisa estar associado à manutenção da qualidade de vida.

Quem pode tomar e quais são os efeitos colaterais da nova pílula contra o câncer de pâncreas?

A FDA aprovou o Rasonque para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já tenham recebido pelo menos uma terapia sistêmica anterior ou que não sejam candidatos a uma terapia sistêmica com múltiplos medicamentos. A dose aprovada é de 300 mg, tomada por via oral uma vez ao dia.

Portanto, a nova pílula contra câncer de pâncreas não substitui todos os tratamentos existentes nem é indicada para qualquer pessoa diagnosticada com a doença. Também não há evidência de que ela elimine definitivamente o câncer metastático.

“O objetivo, nesse cenário, é controlar a doença, retardar sua progressão e prolongar a vida, com manutenção da qualidade de vida”, explica Juliana. Segundo ela, tumores podem desenvolver mecanismos de resistência ao tratamento, e a aprovação é recente demais para permitir conclusões sobre a sobrevida em três ou cinco anos.

Os efeitos adversos mais comuns incluem:

  • erupções cutâneas;
  • diarreia;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • estomatite ou mucosite;
  • fadiga;
  • dor abdominal;
  • edema;
  • redução do apetite.

No estudo de fase 3, eventos adversos de grau 3 ou superior ocorreram em 43,6% dos pacientes que receberam daraxonrasib, contra 57,5% daqueles tratados com quimioterapia. A interrupção definitiva do tratamento por efeitos adversos ocorreu em 1,2% e 11,2% dos grupos, respectivamente.

No Brasil, o medicamento ainda não pode ser considerado uma opção aprovada para uso regular apenas com base na decisão da FDA. A comercialização de um medicamento no país depende de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que mantém uma consulta pública específica para medicamentos registrados.

Assim, embora o daraxonrasib represente uma nova possibilidade para um grupo de pacientes com câncer pancreático avançado nos Estados Unidos, sua chegada ao Brasil dependerá de avaliação e eventual registro pela Anvisa.

Para Larissa, o significado do avanço está justamente na abertura de uma nova estratégia terapêutica. “É uma mudança importante para uma doença que historicamente dispõe de poucas opções eficazes”, resume.

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