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Entrevista

Para médicos, transtorno mental não deve ser motivo de vergonha

Antônio Carlos de Farias, neuropediatra. Mara Lúcia Cordeiro, neurocientista.

  • PorIsadora Rupp
  • 28/11/2010 21:20
Antônio Carlos de Faria e Mara Lúcia Cordeiro são os autores do livro Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Antônio Carlos de Faria e Mara Lúcia Cordeiro são os autores do livro Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Afirmações como: "depressão infantil não existe", "toda criança agitada não tem problemas de comportamento, mas é mal educada" e "tomar remédio para transtornos mentais causa dependência" são alguns mitos propagados sobre transtornos mentais, principalmente quando a doença atinge crianças e adolescentes. Mundialmente, a Organi­zação Mundial da Saúde (OMS) estima que 20% deles sofram com o problema.

Para desmistificar conceitos errôneos e explicar o que é verdade sobre o assunto, a neurocientista e doutora em Medicina Molecular e Farmacologia Mara Lúcia Cordeiro e o neurologista infantil Antônio Carlos de Faria resolveram colocar no papel explicações para dúvidas que surgiam no dia a dia. O resultado foi o livro Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes. Os autores, que são pesquisadores do Ins­tituto Pelé Pequeno Príncipe, conversaram com a Gazeta do Povo sobre os principais pontos da obra.

Qual é o público-alvo do livro?

Mara – Buscamos atingir pais, professores e a sociedade em geral, abordando de forma simplificada os mitos em relação aos transtornos mentais, principalmente quando se fala de crianças. Combater ideias como "criança que vai mal na escola é preguiçosa". Usamos informações baseadas em evidências científicas sérias e apresentamos diversos dados na obra. Um dos estudos, da Alemanha, mostra que 60% dos jovens em conflito com a lei tinham transtornos mentais. Começamos a atuar com essa linha de pesquisa no Instituto e, como a gente conversa muito com pais e professores, observamos uma grande desinformação sobre quando a criança deve ser medicada, como é o diagnóstico e quem se deve procurar.

Farias – Existem muitos mitos na sociedade sobre problemas de comportamento. Às vezes circulam informações que desinformam. Por exemplo, quando se fala que toda criança agitada tem um problema de déficit de atenção, o que a gente procura mostrar é que, dentro desse tipo de queixa existem situações normais ao desenvolvimento infantil, e outras a psicopatologias. Se é abordada de forma precoce, a tendência é que a criança alcance uma qualidade de vida melhor. Muitos dos casos que temos de marginalização social e drogadição estão relacionados com crianças que tiveram uma psicopatologia e não foram tratadas.

Quais sinais devem chamar a atenção dos pais?

Farias – Uma coisa muito básica: o impacto na vida da criança. Uma criança que tem dificuldade de aprender, mas mesmo assim está progredindo, não pode ser enquadrada. Ou que tem explosões de raiva. Elas acontecem sempre? Qual a dimensão na vida dela?

Mara – O principal é ver se ela tem prejuízo na escola e no ambiente social. É importante ressaltar que o diagnóstico não pode ser feito com uma escala de itens, em testes que encontramos facilmente na internet. O diagnóstico para detectar hiperatividade, por exemplo, é mais complexo e precisa de uma equipe multidisciplinar. Algo bastante relevante é que, imediatamente, o médico deve checar visão e audição. Algumas crianças que chegam com um possível transtorno de atenção estão, na verdade, precisando usar óculos.

Os sintomas de um transtorno de atenção, por exemplo, são comuns a outras doenças?

Farias – Sim. Os mesmos sinais que surgem no déficit de atenção podem aparecer em uma pessoa com hipotireoidismo ou com um tumor cerebral. Existem diversas condições psiquiátricas e o discernimento envolve avaliação mais ampla.

Em um primeiro momento, qual profissional se pode procurar?

Farias – O primeiro contato é com um pediatra, que começa a observar e discutir com a família. Se houver uma complexidade maior, encaminha para outros especialistas. Mas, novamente, enfatizo que a preocupação deve surgir quando se tem impacto. Muita criança é levada para o médico com sintomas que são comuns para a idade, e não configuram um possível transtorno.

Como avaliam a questão do preconceito? Ainda é recorrente?

Farias – Ainda há. Quando se fala em transtorno mental, parece que é contagioso. As pessoas têm muito preconceito e precisam saber que, o que é sintoma de doença se combate com medicação. Duas vertentes devem ser compreendidas: influência dos fatores biológicos e também dos ambientais e sociais. A partir daí, orientar sobre o remédio, que ainda gera estigma. A ideia de que medicamento vicia e a pessoa está se drogando, infelizmente, ainda persiste. Por isso, a criança/adolescente e a família devem saber o porquê de estar fazendo uso daquele remédio.

Entre todos os mitos existentes sobre o assunto, qual o mais grave?

Farias – De que medicamento vicia. Isso ocorre se são usados e prescritos de forma errada. Se utilizados de forma racional, tem um impacto muito positivo. Como regra geral, não é recomendável medicar criança abaixo dos cinco anos, por causa da capacidade do fígado. Quando está acima da faixa etária, são prescritos em uma dose conforme o peso e após avaliação de eficácia.

É possível afirmar que os transtornos mentais estão aumentando na sociedade?

Mara – São problemas que sempre existiram na literatura médica. O que tem mudado é o conhecimento sobre o assunto. Ao contrário de anos atrás, quando as pessoas cometiam suicídio e não se sabia o porquê, hoje compreendemos os motivos por causa da evolução no diagnóstico e dos recursos para tratamento.

Farias – Temos o fenômeno da precocidade, onde as crianças começam a se relacionar e ter interações sociais mais cedo. As psicopatologias aparecem quando a criança começa a ser exposta socialmente. Também é preciso discernir transtornos mentais de sintomas. As pessoas, na sociedade em que vivemos, podem ter mais sintomas, por causa da violência e do estresse, o que não significa doença em si. Temos a falsa noção de que as patologias são mais frequentes, quando, na verdade, os sintomas é que são.

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